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Os vegetais bombados da Embrapa

Melhorados naturalmente, os alimentos biofortificados podem revolucionar a agricultura convencional e o modo como nos alimentamos

Alimento do futuro: segundo Semíramis Ramos (acima), a Embrapa faz em meses o que a natureza demoraria séculos para fazer. Já Almeida (abaixo) diz que técnica agrega valor

Não seria maravilhoso se todos os alimentos à venda fossem altamente ricos em vitaminas, até mesmo aquela batata ou a mandioca? Então comemore, pois esta realidade está mais próxima do que você imagina. Preocupada com a desnutrição, um dos maiores problemas de saúde pública em todo o mundo, a Embrapa vem desenvolvendo pesquisas em busca de alimentos com maior concentração de nutrientes, também conhecidos como biofortificados.

Não se trata de nenhuma nova geração de transgênicos ou coisa do tipo. Na realidade, os biofortificados são apenas novas variedades obtidas por meio do melhoramento convencional de plantas da mesma espécie, cruzadas até se obter um produto com maior teor de nutrientes, como ferro, zinco e betacaroteno.

Até o momento, já foram selecionadas e multiplicadas variedades de mandioca, arroz, feijão, feijão-caupi, milho, abóbora e batata-doce, mas pesquisas com outros vegetais também estão em andamento. “Estamos apenas acelerando o processo natural de melhoramento dos vegetais. O que a natureza demoraria séculos para fazer, nós conseguimos em poucos meses”, explica Semíramis Ramos, pesquisadora da Embrapa Tabuleiros Costeiros.

Principal responsável pelo melhoramento da abóbora, a pesquisadora afirma que o material desenvolvido pela Embrapa já é muito mais nutritivo do que as abóboras comerciais, mas ainda tem um potencial enorme de melhora. Segundo ela, enquanto uma abóbora comercial possui entre 40 e 50 microgramas por grama de carotenoides (antioxidantes que se transformam em vitamina A), as variedades desenvolvidas pela Embrapa chegam aos 360 microgramas por grama, nove vezes mais que a convencional. “O material é bastante rico, mas ainda tem muito a evoluir. Não temos nem ideia de aonde isso pode chegar”, continua.

Opinião parecida tem José de Almeida, pesquisador da Embrapa Meio-Norte. Segundo ele, que possui mais de 20 anos de experiência e foi o responsável pelo desenvolvimento de um arroz com níveis de ferro muito acima dos da média, as pesquisas ainda têm um longo caminho a avançar. “A expectativa é de que um dia toda a produção brasileira seja biofortificada”, afirma Almeida, lembrando que as variedades “turbinadas” podem ser uma alternativa ao plantio convencional, beneficiando tanto os produtores rurais quanto os consumidores. “É exatamente a mesma coisa, mas com maior valor nutricional. Estamos apenas agregando valor aos produtos”, diz.

Até o momento ainda não existem lavouras comerciais biofortificadas. Por enquanto, o trabalho da Embrapa tem se resumido a multiplicar as sementes melhoradas e distribuí-las entre os pequenos produtores do Nordeste, região que mais sofre com a desnutrição no Brasil. Em poucos meses de trabalho, já foram distribuídas mais de 200 toneladas de sementes de arroz apenas no Estado do Maranhão. Em Sergipe, as variedades seguem em testes nos campos experimentais da entidade e devem chegar aos agricultores familiares do assentamento Santana dos Frades, no município de Pacatuba, em breve. Será este o começo para a erradicação da fome no Brasil? É esperar para ver.

Nicholas Vital, de Aracaju (SE)

Cultivares que valem ouro: novas variedades de vegetais seguem em teste nos campos experimentais