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Perigo?

Milho geneticamente modificado reacende as discussões sobre o símbolo dos produtos transgênicos

Você comeria um alimento em cuja embalagem encontrasse o símbolo ao lado? Para a Associação Brasileira das Indústrias de Alimentos (Abia), a resposta é não. Segundo Edmundo Klotz, presidente da entidade, “o logo passa a ideia de perigo, não use e é extremamente impeditivo”. A opinião é compartilhada por Mariana Eller, designer e diretora de arte da agência Aktuell: “O ícone triangular é comumente utilizado em sinalizações de advertência e a cor amarela está associada a mensagens de cuidado, atenção.

Ele remete ao símbolo de radiação e, por associação, à ideia de produto tóxico, perigoso ou letal.” Por essa razão, a Abia tomou a seguinte posição: enquanto o governo não sentar para discutir uma nova rotulagem, as indústrias de alimentos vão optar pela matéria-prima não transgênica, embora essa tenha um valor mais alto e encareça o produto final. “Mas este não é o problema porque, custo por custo, a rotulagem também tem o seu”, diz Klotz

A discussão sobre a rotulagem de alimentos produzidos a partir de organismos geneticamente modificados não é novidade. O assunto veio à tona em 2005, quando o Brasil liberou o plantio de soja transgênica. No entanto, pelo fato de a oleaginosa não ter tantos subprodutos, a pressão para o uso foi arrefecendo com o passar dos meses. Mas a cobrança voltou à pauta em decorrência da primeira colheita de milho transgênico neste início de ano.

Edmundo Klotz:

“Ninguém nos consultou sobre qual ícone usar, a rotulagem nos foi imposta”

Isso porque o cereal é uma espécie de “coringa” da indústria de alimentos, sendo usado em centenas de produtos. Para Klotz, o legado deixado para as indústrias é injusto. “Ninguém nos chamou para participar da decisão sobre a rotulagem, ela nos foi imposta. Por isso estamos fugindo de colocar o símbolo como o diabo foge da cruz”, diz.

Por ora, o posicionamento das indústrias de alimentos tem poucas implicações porque o milho transgênico ainda é pouco usado. Segundo Anderson Galvão, diretor da consultoria Céleres, “o Brasil deve fechar o ano com um plantio de milho transgênico próximo a 10% da área total do cereal no País, o que inclui a safra de verão e inverno.”

No entanto, a situação tende a se agravar porque a adesão à tecnologia deve aumentar ano após ano. “Não tem como não ir para a transgenia. Ecologicamente é muito melhor, reduz as aplicações de inseticidas de cinco para uma”, diz o agricultor Adilton Sachetti, que foi prefeito de Rondonópolis de 2005 a 2008.

A Abia é a favor do plantio de transgênico da mesma forma que é favorável à comunicação da presença deles nos alimentos. Mas defende o direito de informar sem ser prejudicada. O problema é que, embora seja uma das principais partes da cadeia, a indústria de alimentos fica fora das discussões. No caso do rótulo, a escolha do símbolo partiu do Ministério da Justiça. Agora é esperar a boa vontade do governo para ajustar a questão e não prejudicar nem agricultores nem a indústria.

O impasse do ícone

A indústria é contra o símbolo pelo fato de ele remeter a situações de risco, como mostram os exemplos ao lado

Inflamável:

Chama a atenção para possíveis riscos de incêndio em diversos materiais

Radioativo:

Um dos mais temidos símbolos do mundo, presente em grandes desastres

Toxidade:

Ícone encontrado em frascos de veneno e em embalagens de agrotóxicos

Pane no sistema:

É o aviso de que há problemas em diversos programas de computador