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Príncipe rural

Bertrand de Orleans e Bragança, bisneto da princesa Isabel, luta contra reforma agrária e quilombolas. Será que ele tem razão?

Príncipe herdeiro da casa real brasileira e bisneto da princesa Isabel, libertadora dos escravos, o empresário dom Bertrand de Orleans e Bragança é chegado numa boa polêmica. Aos 66 anos ele dedica parte de seu tempo, segundo suas próprias palavras, em ser a pedra no sapato do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, o MST. Para tanto, fundou uma Organização Não Governamental chamada Paz no Campo. O objetivo, de acordo com o trineto de dom Pedro II, é fazer um trabalho de “contrapropaganda” às idéias divulgadas por todo e qualquer movimento de esquerda. Entram no “balaio real”, além do MST, outros movimentos, como a Pastoral da Terra, ligada à Igreja Católica, a Via Campesina e toda organização que coloque em xeque o direito à propriedade – bandeira que se tornou o principal mote de seu trabalho.

PRÍNCIPE VERDE: impedido de lançar um livro na Fenagro, em Salvador, reagiu com acusações em notas de jornal

Mas as estripulias de dom Bertrand ganharam notoriedade no mês passado. Ele escolheu um dos maiores eventos do País, a Fenagro – onde há uma grande concentração de gente ligada ao mundo do agronegócio –, para tentar lançar, em Salvador, um livro com o seguinte título: “A revolução quilombola – guerra racial, confisco agrário e urbano, coletivismo.” Daí a confusão se fez, com um tema que, via de regra, é explosivo no Brasil.

A obra, de autoria do jornalista Nelson Ramos Barreto, joga tintas fortes sobre o decreto federal 4.887, que mudou em 2003 os critérios para a formação de comunidades quilombolas. “O problema é que basta alguém dizer ‘meus antepassados viveram nessas terras e elas me pertencem’, para em seguida registrar uma carta na Fundação dos Palmares e pronto, começa o processo de desapropriação”, diz o indignado príncipe.

O problema aumentou quando, percebendo o lançamento do livro e as intenções do herdeiro real, alguns grupos de defesa da cultura negra se sentiram ofendidos com a ação em plena capital da cultura afro-brasileira e pressionaram os organizadores do evento a cancelar a noite de autógrafos. E foi o que realmente aconteceu. Sem palco para brilhar e poder propalar suas idéias, dom Bertrand não teve outra saída a não ser publicar notas em jornais, queixando-se das pressões que sofrera das entidades. “Isso não me abala”, alfinetou, após o encerramento do caso. Segundo informação da Fundação dos Palmares, há poucas dezenas de comunidades que conseguiram terminar o processo e 500 processos em andamento. Pelo jeito, dom Bertrand ainda terá muita diversão pela frente.

por Ibiapaba Netto