Negócios

Quer ter um clone?

Depois da inseminação artificial e da FIV, a clonagem conquista os pecuaristas e atrai grandes empresários para um negócio de potencial milionário

 

Totó, do pactual: dono da In Vitro, ele foi responsável pela maior parte dos clones bovinos produzidos no Brasil[

José Henrique, da invitro : ele defende a clonagem como um instrumento para gerar mais produtividade

Durante a campanha presidencial, a então candidata Dilma Rousseff rodou mais de 100 mil quilômetros, visitou lugares remotos em cada canto do País e distribuiu sorrisos a milhares de eleitores. Conheceu dramas reais, mergulhou no “Brasil profundo”, mas também teve a oportunidade de descobrir atividades de vanguarda em várias regiões. Uma das viagens feitas por ela, logo no início da campanha, ficou gravada em sua memória. Em maio do ano passado, ela esteve em Uberaba (MG), capital mundial da pecuária, para a abertura da Expozebu. Falou aos pecuaristas e, em seguida, visitou o laboratório da empresa Geneal. “Fiquei impressionadíssima com o que vi”, disse Dilma, meses depois, à DINHEIRO RURAL . Em toda a campanha, essa foi a única referência explícita feita pela presidente eleita a uma empresa privada. E o que Dilma conheceu em Uberaba foi o estado da arte em matéria de genética voltada para a pecuária. Soube que ali já estavam sendo produzidos, em escala comercial, clones dos animais mais valiosos do Brasil. Entre elas, a vaca Divisa Mata Velha, uma das principais doadoras de embriões da pecuária de elite. “O clone é o melhor seguro que o pecuarista pode ter”, avalia o empresário Jonas Barcellos, que criou a Geneal em parceria com a Embrapa e atraiu para o empreendimento um dos maiores pesquisadores do País: o geneticista Rodolfo Rumpf.

Mais do que simplesmente fazer um “seguro” de seu melhor animal, Jonas Barcellos criou também uma nova fonte de receita para a Fazenda Mata Velha. Isso porque a bezerra Divisa TN1 foi o primeiro clone registrado pela ABCZ, a associação dos criadores de raças zebuínas. O registro ocorreu em janeiro do ano passado, depois de uma longa briga dos pecuaristas com as autoridades do setor agropecuário no País. Com a “carteira de identidade” fornecida pela ABCZ, o clone, que tem características genéticas absolutamente idênticas às da matriz, pode ter sua própria genética comercializada. “Ele passa a existir e ganha valor econômico”, explica Rumpf. Alguns embriões de animais clonados já são vendidos por mais de R$ 100 mil. E a sigla TN colocada após o nome do animal apenas indica que ele foi produzido pelo processo de transferência nuclear – o nome técnico da clonagem.

Na pecuária de elite, produzir cópias de grandes campeões é algo que gera retornos extraordinários. Isso ficou claro ainda em 2007, antes mesmo do registro oficial fornecido pela ABCZ, quando o jovem criador Felipe Picciani, da Fazenda Monte Verde, comercializou metade de um clone – na pecuária, é comum a realização de vendas parciais da produção de embriões de um animal – por R$ 1 milhão. A matriz, na verdade, era uma das vacas mais valiosas do País: Bilara 7, que gerou uma linhagem de grandes campeões. “Aquela venda foi um marco na pecuária”, relembra Picciani. Depois disso, embriões de outros animais famosos – como a vaca Espanhola, da Agropecuária Santa Bárbara – também foram comercializados a peso de ouro.

 

Jonas Barcellos: sua vaca Divisa TN1 foi o primeiro clone registrado pela ABCZ

 

Rodolfo Rumpf: pesquisador da Embrapa, ele se associou à Geneal, de Jonas Barcellos

A grande novidade é que, agora, a clonagem vem se difundindo na pecuária de corte, feita em escala comercial. E o principal responsável por esse processo tem sido o empresário Antonio Carlos Porto, que é um dos principais sócios do banco BTG Pactual – um gigante do setor financeiro avaliado em US$ 10 bilhões. “Nós não queremos fazer pecuária de elite, queremos produzir carne de elite”, diz Porto, que é conhecido como “Totó” no meio financeiro e também no setor agrícola. Além de clonar animais para terceiros, Totó cria animais das raças gir, aberdeen, red angus e wagyu – o gado japonês que produz a carne mais macia do mundo – em parceria com Belarmino Iglesias, dono da rede Rubaiyat.

Na sua fazenda, em Mogi Mirim, no interior paulista, Totó instalou a In Vitro, empresa responsável pela maior parte dos clones já produzidos no Brasil – foram mais de 90, até hoje. “O nosso foco é a produtividade do fazendeiro”, diz José Henrique Fortes Pontes, principal executivo da companhia. Por isso, a clonagem deve ser desenvolvida em paralelo com outras melhorias genéticas tradicionais, como a inseminação artificial e a fertilização in vitro. Um dos clientes da In Vitro, por exemplo, foi o pecuarista Carlos Viacava, um dos principais neloristas do País, que clonou seus touros de melhor desempenho e aplicou nas suas propriedades um índice de produtividade genética. Quanto mais rápido o ciclo de engorda de um animal para o abate, maior a liquidez financeira do pecuarista. A In Vitro também clona animais de valor não apenas econômico, mas também sentimental – foi o caso do Touro Bandido, do criador Paulo Emílio Marques, que participou até da novela América, como atração de rodeios.

Luiz Mauro Queiroz , da bio: primeiras experiências com clonagem de equinos

 

Felipe Picciani, da monte verde: ele fez uma das primeiras vendas milionárias de um clone, com Bilara 7

Clonar um animal, na realidade, não é um processo barato. Estimase que custe mais de R$ 60 mil. Mas vale a pena quando se coloca na ponta do lápis o retorno financeiro. No passado, um animal era abatido com cinco anos de vida. Hoje, graças ao melhoramento genético, segue para os frigoríficos com menos de 24 meses – e com peso muito maior.

 

José Murilo procópio de carvalho: investimento de R$ 2 milhões num novo laboratório para também fazer clones

 

As grandes doadoras da pecuária nacional, que num ciclo normal teriam uma gravidez por ano, hoje podem produzir mais de 100 prenhezes num período de 12 meses. Isso porque, depois de inseminadas com doses dos melhores touros, elas passam por aspirações mensais, que podem gerar mais de dez embriões a cada mês – e estes são colocados nas chamadas “barrigas de aluguel”. São vacas com pior qualidade genética, mas que se revelam excelentes mães. E é justamente a genética que explica o fato de o Brasil ter se tornado a maior potência do mundo em proteína animal. Não só tem um rebanho de 200 milhões de cabeças, como se tornou o maior exportador mundial e viu seus frigoríficos – como os grupos JBS Friboi e Marfrig – adquirirem concorrentes em vários países.

De olho no melhoramento contínuo da carne nacional, outros criadores também estão investindo alto na clonagem. É o caso do nelorista José Murilo Procópio de Carvalho, dono da Fazenda Guará, na região de Sete Lagoas (MG). Ele se associou à empresa BioVitro, de Uberaba (MG), para investir cerca de R$ 2 milhões num novo laboratório, na sua propriedade. “Vamos fazer inseminação, fertilização in vitro e também clonagem”, diz ele. “Não apenas para a Fazenda Guará, como também para outros criadores”. Carvalho tem em seu plantel alguns dos animais valiosos do País. Um exemplo é a vaca Elegance II , em parceria com criadores como Jonas Barcellos, João Carlos Di Genio e Amilcare Dallevo. E, certamente, é um animal que tem tudo para ser um dos primeiros clones do novo laboratório.

A técnica de transferência nuclear, evidentemente, não vale apenas para a pecuária comercial ou de elite. O laboratório Bio, de Brasília, já desenvolve as primeiras experiências do País com vista a clonagem de equinos. São animais de salto ou de corrida, que, em muitos casos não geram descendentes, porque são submetidos a uma rotina de competição extremamente estressante. “Quanto vale ter uma cópia perfeita de um grande campeão?”, diz Luiz Mauro Valadão Queiroz, sócio da Bio. “Não tem preço”. É exatamente por isso que tantos criadores estão apostando na clonagem. E a presidente Dilma, que ficou maravilhada ao visitar a Geneal, bem que gostaria de ter tido um clone durante sua campanha presidencial.

 

A história da clonagem de animais

Desde a ovelha Dolly, muita coisa aconteceu no Brasil e no mundo

 

1996

Nasce a ovelha Dolly, o primeiro animal clonado, fruto do trabalho do pesquisador Ian Wilmut

1997

É a vez de Polly, uma ovelha também clonada por Ian Wilmut, na qual foi inserido um gene humano

1998

Pesquisadores japoneses celebram o nascimento de três clones do mesmo rato, gerados de forma simultânea

2001

É a vez de Vitória, a primeira bezerra clonada no Brasil, pela equipe de Rodolfo Rumpf

 

2005

O

criador Felipe Picciani vende 50% do clone da vaca Bilara 7 por US$ 1 milhão

 

 

2010

Duda Biagi, presidente da ABCZ, faz o primeiro registro oficial de um clone: a vaca Divisa TN1

 

 

 

Por dentro da clonagem

Qual a diferença entre um clone e um filhote?

O clone é uma cópia genética idêntica ao animal original, equivalente a um gêmeo univitelino, enquanto um filhote combina material genético de dois animais (pai e mãe). O filhote, portanto, preserva apenas metade do material genético do animal original.

Qual a diferença entre um clone e um filhote?

O clone é uma cópia genética idêntica ao animal original, equivalente a um gêmeo univitelino, enquanto um filhote combina material genético de dois animais (pai e mãe). O filhote, portanto, preserva apenas metade do material genético do animal original.

Que espécies já foram clonadas?

O primeiro mamífero clonado foi a ovelha Dolly, em 1996. Desde então, foram clonados vacas, cabras, porcos, camundongos, ratos, cavalos, cães, gatos e vários outros animais. Nenhum ser humano.