Negócios

Rei da soja, rei do boi

Depois de consolidar sua posição como maior produtor de soja do Brasil, Eraí Maggi apresenta um dos maiores projetos de integração lavoura-pecuária do País

Omegaprodutor Eraí Maggi Scheffer vive um momento, no mínimo, inusitado. Dono de 36 fazendas espalhadas pelo Estado de Mato Grosso, sua área plantada com soja atingiu a incrível marca de 230 mil hectares na safra 2009/2010. Sua produção chegou a 720 mil toneladas, que lhe renderam um faturamento de R$ 300 milhões apenas com essa cultura. Trata-se do maior volume colhido desde que sua família chegou àquelas bandas, há mais de 30 anos e que o consolida como o maior produtor do grão do País, à frente, por exemplo, do seu primo mais famoso, o governador do Estado, Blairo Maggi e de grandes players como a SLC Agrícola, que planta cerca de 225 mil hectares. Mas todos esses números parecem não empolgar o empresário. Na verdade, alheio à boa safra, Eraí pouco fala a respeito de sua superprodução. Quando é interpelado sobre o assunto, ele logo vira a cara e, em tom de brincadeira, se diz “cansado” da planta que o tornou rei. Essa aversão, logo num momento de tanta pujança, tem explicação. Os olhos do “rei da soja” agora estão voltados para um audacioso plano de diversificação de seus negócios rurais que inclui a produção de peixes, sementes, algodão, biodiesel, construção de hidrelétricas, e que tem na pecuária seu grande carro-chefe. Para fazer sucesso nessa empreitada, o “novo” pecuarista, que já possui um rebanho de respeitáveis 50 mil cabeças, aposta em um modelo inovador para criar o boi de forma integrada com a soja. Ou seja, é com a cultura que o deixou rico e famoso que ele pretende implementar um dos maiores projetos de integração lavoura-pecuária do País e engordar seu novo negócio. “Queremos diversificar e buscamos atividades que possibilitem tirar o máximo proveito da terra”, revela Maggi, que toca o grupo Bom Futuro ao lado dos irmãos Elusmar e Fernando, e do cunhado José Maria Bortoli, seus sócios no negócio.

 

Diversificação: os negócios de Eraí Maggi incluem pecuária de corte, soja, sementes, milho, algodão, piscicultura e até usinas hidrelétricas

O plano de explorar novas áreas não é exatamente novidade dentro da empresa. As primeiras conversas sobre a criação de bois aconteceram há dez anos, mas só nos últimos três é que o projeto começou a deslanchar. Muito dessa demora se deve à resistência do próprio empresário. Quem observa Maggi caminhando à vontade em meio à boiada nem imagina o quanto ele era descrente com a ideia de investir em gado. “Essa nunca foi minha área e via o setor com preocupação. Mas meu irmão Fernando começou a tocar o negócio e os resultados foram animadores”, lembra. Os resultados aos quais o produtor se refere são relativos à alta produtividade do rebanho. Enquanto no Brasil a média de produção é de quatro arrobas por hectare/ano, segundo dados da Scot Consultoria, a Bom Futuro já registra uma média de 80 arrobas por hectare/ ano. Fazendo toda a parte de recria e engorda, os abates já chegam a 40 mil por ano e o faturamento anual da unidade de pecuária é de R$ 50 milhões.

R$ 1 bilhão é o faturamento do grupo bom futuro, que iniciou os múltiplos negócios rurais com R$ 40 milhões

Pouco se comparado aos ganhos do grupo, que somados com todos os ramos de atividade chegam próximos de R$ 1 bilhão, mas suficiente para animar os sócios, que investiram cerca de R$ 40 milhões nesse projeto. “Entre os novos negócios, a pecuária é sem dúvida nossa maior expectativa em termos de resultados”, revela o produtor, que planeja em um curto espaço de tempo dobrar seu rebanho e chegar a 100 mil cabeças.

O segredo por trás dos bons resultados da odisseia pecuária de Eraí Maggi é o modelo de produção concentrado em três de suas fazendas, que funcionam como polos de criação. Nesses lugares vem sendo implementado um sistema de integração entre lavouras de soja e pecuária. Dessa forma, os talhões, onde a produtividade da soja é considerada baixa, após a colheita do grão viram pastos. Por conta do plantio da oleaginosa, o solo é bem corrigido e adubado e, consequentemente, mais produtivo. “A soja fixa o nitrogênio no solo. Por isso não é necessário aplicar fertilizantes nitrogenados para o pasto. Isso reduz o custo e aumenta a produtividade. Não é que a soja financie o gado, mas ela viabiliza as melhores condições de solo. Isso é integração”, explica o zootecnista Arlindo Vilela, dono da empresa de sal mineral Novanis e um dos idealizadores do projeto pecuário da Bom Futuro.

 

Boi mais rentável: enquanto a média nacional de engorda é de quatro arrobas por hectare ao ano, nas fazendas de Maggi, a média é de 80 arrobas. À direita, o multiempresário comanda as obras da PCH

Para o consultor Rafael Ribeiro de Lima Filho, da Scot Consultoria, a adoção desse tipo de modelo reflete diretamente em ganhos para a produção animal. “Com o pasto bem adubado você pode reduzir a ocupação de animais por hectare, aumentando a produtividade. Além disso, é possível observar ganho de peso e melhor rendimento de carcaça”, analisa. Pontos que já podem ser observados na Bom Futuro. “Conseguimos ter uma produtividade 80% maior em relação à pecuária tradicional extensiva. Esse será o modelo do futuro”, afirma Vilela.

Sujeito prático, e conhecido por sua simplicidade, Eraí não tem olhos apenas para a pecuária. Enquanto espera seu gado engordar, não descuida dos outros negócios que mantém em suas fazendas. Um exemplo é o projeto de piscicultura. Observando grandes lagos artificiais que existiam em sua propriedade, o produtor vislumbrou a possibilidade de enveredar pela criação de peixes. Hoje, entre tambaquis e pintados, a produção já chega a quatro mil toneladas ao ano com um faturamento de R$ 15 milhões. “Todo o volume é processado em um frigorífico próprio e comercializado na região. Mas já estamos tirando o registro para venda em São Paulo e pretendemos aumentar a produção para sete mil toneladas por ano”, diz o multiprodutor. Outro setor em que o empresário vem crescendo é o da produção de algodão. Com 70 mil hectares plantados, a produção é de 110 mil toneladas de pluma e 300 mil toneladas de caroço. Mas a vedete nesse segmento está em pouco mais de 400 hectares plantados com uma variedade de algodão adensado, bem mais baixo do que o convencional e, segundo o produtor, bem mais produtivo. “Esse algodão tem um rendimento muito superior e um manejo mais fácil. Dependendo dos resultados da colheita, devemos dobrar a área dessa variedade já na próxima safra”, prevê.

 

As múltiplas facetas de Eraí, que não descarta a possibilidade de disputar as próximas eleições como candidato a vice-governador de Mato Grosso, já extrapolam a produção agrícola. O produtor também está envolvido na construção de hidrelétricas. Atualmente ele está investindo cerca de R$ 20 milhões na construção de uma Pequena Central Hidrelétrica (PCH), com capacidade para produzir seis megawatts/hora, suficientes para abastecer toda sua fazenda de 50 mil hectares, localizada na região de Diamantina, e ainda comercializar um excedente. Mas os planos são bem maiores. “Hoje temos projetos, em fase de concessão, para construir hidrelétricas capazes de gerar cerca de 150 megawatts/hora. São obras que devem ser iniciadas nos próximos dois anos e que necessitariam de investimentos da ordem de R$ 1 bilhão”, revela o empresário, que ainda estuda como fará a captação desses recursos. “Existe a possibilidade de irmos à bolsa, mas, no momento, é algo que não me agrada e não me interessa. Outras possibilidades estão sendo observadas”, pondera o agricultor, que se orgulha de trabalhar com uma taxa de financiamento de apenas 5% e de ser dono de todo o maquinário que utiliza, desde os tratores até as escavadeiras e caminhões. “Na região em que estamos, a terceirização é inviável”, diz.

No mundo de Eraí Maggi tudo parece estar no superlativo. Basta notar que, para rodar por todas as suas propriedades, é preciso percorrer cerca de três mil quilômetros em estradas de terra. O suficiente para ir de São Paulo a Rio Branco, capital do Acre. Entre colheitadeiras, tratores e implementos, sua frota soma mais de 300 máquinas, que são renovadas quase que anualmente em negociações feitas pessoalmente pelo produtor. “Não troco o maquinário por ser velho $ ou novo. O que busco são as tecnologias que vão sendo incorporadas.” É assim com muitos investimentos, números impressionantes e sem medo de ser grande, que o produtor vai mostrando que pode ir além do título de “rei da soja”. Quem sabe, o rei da pecuária, do algodão, do peixe…