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Rota do sabor

Circuito das Frutas, em São Paulo, recebe 360 mil turistas por ano e garante renda extra aos produtores

Fazendas e sítios centenários, paisagens bucólicas e frutas frescas. Essas são as principais atrações que os turistas encontram na região conhecida como Polo Turístico do Circuito das Frutas, criado em 2008, no Estado de São Paulo. Trata-se de um consórcio turístico intermunicipal, composto pelos municípios de Atibaia, Indaiatuba, Itatiba, Itupeva, Jarinu, Jundiaí, Louveira, Morungaba, Valinhos e Vinhedo. Mais do que proximidade física, essas cidades possuem ou trazem características em comum: uma fruticultura diversificada e de boa qualidade.

A ideia de se instituir um polo de turismo na região surgiu quando um grupo de 27 produtores fundou a Associação de Turismo Rural do Circuito das Frutas. O objetivo era criar novas formas de atrair visitantes às propriedades que representam bem a história, a agricultura e a culinária da região, oferecendo um lazer diferenciado. “Desenvolvemos um roteiro semelhante ao de outros Estados, onde as pessoas passeiam pela fazenda, acompanham o desenvolvimento das safras e, ao final, degustam o produto”, diz Marco Antonio Maruzzo, presidente da entidade. “A iniciativa evitou o êxodo rural, uma das preocupações do setor.” Segundo o dirigente, antes desse projeto diversos sitiantes da região já estavam abandonando a fruticultura.

 

Circuito das frutas

Dez municípios integram hoje o circuito das frutas, no interior de sÃo paulo

70 propriedades

fazem parte do Polo Turístico das Frutas

360 mil

é a quantidade de turistas que visitam anualmente o roteiro turístico

236 mil toneladas

de frutas é a produção anual das cidades que fazem parte do circuito*

40%

da produção nacional de frutas de mesa vem dos dez municípios que fazem parte do circuito

 

Hoje, o turismo rural se tornou oportunidade de se produzir e se vender a produção a preço de varejo. As propriedades ainda incrementam seus rendimentos com a venda de doces e concentrados de frutas e derivados. “E o melhor, dentro do próprio estabelecimento”, diz Maruzzo. “Imagine o quanto foi o valor agregado.” Segundo a associação, 40% da produção nacional de frutas de mesa provêm das localidades que integram o Circuito. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Frutas (Ibraf), esses municípios produzem 236 mil toneladas de frutas por ano e a média de ganho por produtor é de R$ 100 mil.

 

 

Colha e Pague: no sítio da família Losqui visitantes têm o prazer de fazer a própria colheita

 

 

 

 

Família Ferragut: Carlos (à esq.) e o filho Ricardo afirmam que iniciativa de mostrar a produção virou fonte de renda

 

 

Menos uva e mais vinho: Mário Scabello, produtor em Valinhos (SP), agregou valor na produção artesanal de vinhos

Frutas em um dos centros turísticos de maior potencial do País. O circuito conta com o apoio do Sebrae, que elaborou um catálogo para divulgar em todo o Brasil as atrações locais. O projeto tem possibilitado aos sitiantes um aumento de sua renda e o aproveitamento de praticamente toda a colheita. A entidade reúne 48 associados, mas 70 propriedades já fazem parte do roteiro de turismo rural. “São pequenas estabelecimentos, com média de cinco hectares, que mantêm alta produção”, diz Maruzzo. Nas visitas monitoradas, os turistas podem colher frutas diretamente no pé, além de observar o processo de manejo dos frutos, desde a colheita até processamento. Como pano de fundo, a natureza privilegiada da região, com cenários que enchem os olhos dos visitantes.

Imagine entrar em um pequeno sítio e uma coruja lhe dar boas-vindas. Ao mesmo tempo contemplar a bela vista de um parreiral. Além disso, conhecer as histórias e a tradição da produção de vinhos. Na propriedade da família Ferragut, em Vinhedo, a 80 quilômetros da capital paulista, é possível encontrar todas essas impressões. A arte que os Ferragut fazem questão de passar de uma geração a outra se tornou fonte de renda a partir de uma simples iniciativa, como abrir as portas do sítio para mostrar um pouco do cotidiano e das histórias da família e da cidade, que nasceu em meio a imensos parreirais. Como o pico de produção local acontece entre dezembro e fevereiro, eles tiveram de criar alternativas para manter o negócio. “A produção da uva já não dava o retorno desejado, então foi preciso usar a criatividade”, diz Carlos Ferragut.

 

 

O patriarca, hoje com 80 anos, nasceu no sítio, e desde a década de 1960 dedica-se à vitivinicultura. A Adega Ferragut, principal negócio da família, recebe mensalmente 300 turistas. “O foco aqui não é a quantidade, mas a qualidade do produto”, diz Ricardo Ferragut, um dos filhos de Carlos e responsável pelos negócios. Lá estão à disposição dos visitantes variados tipos de vinhos, que vão dos finos como pinotage e cabernet, aos comuns de uva bordô. A comercialização dos produtos aos turistas que vêm conhecer o circuito propiciaram renda extra para a família. Na Adega os preços dos vinhos variam entre R$ 10 a R$ 30 reais.

Outra propriedade que ingressou no roteiro turístico foi a Chácara Boa Esperança, de Valinhos. Em seus quatro alqueires, não há solo ocioso. O produtor Mário Scabello, 69 anos, destina a área para o cultivo de goiaba e uva. Há mais de 45 anos na atividade, Scabello diz que tudo o que semeia a terra devolve com ótimos produtos. Mas o que chama mesmo a atenção na chácara é a produção artesanal de vinho. Tio Mário, como é conhecido, se deleita no ofício e encanta os visitantes com boas histórias. Nos fins de semana, a propriedade chega a receber 200 pessoas. “O sustento da nossa família vem do turismo”, diz Scabello, que destina parte da produção para o Ceasa de Campinas.

Percorrer o Circuito das Frutas é também uma oportunidade de conhecer um pouco da história do interior de São Paulo. “A rota turística nasceu naturalmente, pois nossa família sempre preservou a história do local”, diz Matias Vargas, dono da Fazenda Pereiras, de Itatiba. Para chegar na propriedade, o turista enfrenta dois quilômetros de estrada de terra batida. Porteira adentro, é possível ver o espantalho que protege a horta. O ponto alto do passeio é o mirante, com visão privilegiada da região e de toda a produção orgânica e o apiário da fazenda. Outro atrativo é a igreja Nossa Senhora dos Remédios, datada de 1894, feita de pilão de taipa e coberta com telhas instaladas pelos escravos. Além de realizar trilha e oferecer refeições com alimentos colhidos direto da lavoura, Vargas comercializa tudo o que produz. Com a certificação orgânica conquistada pela propriedade, ele garantiu valor agregado aos produtos. “Além do resgate da história, encontramos uma nova alternativa de renda e a possibilidade de oferecer trabalho no campo”, diz Vargas, que passou a integrar o circuito no ano passado.

 

 

a Igreja Nossa Senhora dos Remédios e a sala dos milagres são atrativos

Vargas, na verdade, seguiu a trilha aberta por pioneiros, como Antonio Losqui, do Sítio São Vicente, em Jundiaí. Em seu seleto pomar, o visitante depara-se com parreiras, pés de seriguela, carambola, caqui e pitanga, que tomam conta da paisagem. Ao todo, são 50 variedades de frutas comercializados in natura ou transformadas em compotas, geleias e outras guloseimas. “O agricultor tem de diversificar para poder se manter”, diz Losqui. No sítio, os turistas são recebidos por uma banda que toca ritmos italianos.

 

Fazenda Pereiras: produção orgânica

É só o começo de uma série de atrações que incluem comidas típicas, passeio de trenzinho no meio das plantações, e o programa “colha e pague na roça”, que permite ao turista colher amora, seriguela e maçã. O valor do passeio é R$ 40 reais. Grande parte da produção do Sítio São Vicente segue para o Ceagesp, na capital. “Fiz o curso de capacitação de turismo rural para recebê-los”, diz Losqui. “Além de saborear as frutas, ele tem curiosidade de saber como se produz. O que vimos é que ele passa a dar mais valor a nossa produção.” As parreiras da propriedade reproduzem uma variedade típica da Itália: a uva Isabel, a primeira a ingressar no Brasil. “Resolvi cultivá-las como forma de matar a saudade”, diz Losqui.

 

 

Marco Maruzzo:

iniciativa evitou o exôdo, uma das preocupações do setor rural