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Saem os carros, entra a horta

Detroit já foi a capital mundial do automobilismo, mas a crise da indústria pode fazer com que a cidade vire um grande milharal

Para cima: fazendas urbanas se tornaram uma opção para a decadente cidade

Tida por décadas como a capital mundial do automóvel, Detroit não é nem sombra do que já foi um dia. O glamour em torno da indústria automobilística desapareceu. Os festivais promovidos pela gravadora Motown e estrelados por grandes nomes da música black americana, como Marvin Gaye e Stevie Wonder, também já não existem mais. Hoje Detroit é uma cidade bem menos reluzente, com milhares de casas abandonadas, ruas vazias e muita gente desocupada. O rótulo de capital do carro não faz mais sentido. Abandonada pelas montadoras, em consequência da crise, Detroit agora tem um novo e ousado plano: se transformar na maior fazenda urbana do mundo.

 

 

A ideia, que num primeiro momento parece absurda, faz sentido. Com uma área total estimada em cerca de 35 mil hectares, a cidade é uma das maiores dos Estados Unidos em extensão. Seus subúrbios são enormes, mas, após milhares de demissões no setor automobilístico, hoje estão praticamente vazios. Mesmo assim, é preciso manter serviços básicos como iluminação pública, coleta de lixo e policiamento em toda a área. E isto custa caro. Recém-eleito, o prefeito Dave Bing é o principal defensor do plano rural de Detroit. Sua ideia é trazer os moradores das periferias para as áreas centrais e transformar os subúrbios em grandes lavouras de milho.

“Isso pode acontecer já nos próximos dois ou três anos”, garante o prefeito, ressaltando o potencial produtivo da região. “Nosso Estado é o 11º maior produtor de milho dos Estados Unidos.

Respondemos atualmente por 4% de todo o milho colhido no país. Agora, com mais áreas disponíveis, poderemos expandir nossa produção”, continua Bing. Num primeiro momento, os alimentos produzidos nos subúrbios de Detroit deverão abastecer a região metropilitana, reduzindo os custos dos alimentos ao consumidor final.

Mas, com uma escala um pouco maior, a região poderia atrair empresários dispostos a investir na produção de etanol. E é exatamente esta a intenção da nova administração.

Para transformar seu sonho em realidade, Bing já conta com parceiros de peso. Um dos homens mais ricos de Detroit, John Hantz é um deles. Com uma fortuna pessoal estimada em US$ 100 milhões, Hantz quer ser o maior “produtor rural urbano” do mundo. Para isso, está investindo cerca de US$ 30 milhões na compra de áreas abandonadas com a intenção de transformá- las, o quanto antes, em lavouras produtivas. Segundo ele, esta é a solução mais eficiente para salvar as áreas degradadas, criar empregos dignos e ao mesmo tempo abastecer a cidade com alimentos. “Detroit vai ser a maior fazenda urbana do mundo. Espero começar a plantar já na próxima primavera”, diz o empresário.

Para urbanistas, esta pode ser mesmo a melhor saída para Detroit neste momento, já que não há nenhum sinal de retomada por parte da indústria automobilística local. “É uma grande oportunidade para Detroit acabar com a fama de cidade cinza e poluída”, diz o professor Eduardo Nobre, titular do Departamento de Projetos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. De acordo com Nobre, a situação de Detroit é muito parecida com a de Londres nos anos 1970, quando apresentou um declínio econômico e populacional que obrigou a capital inglesa a se desenvolver no setor terciário e em serviços gerais.

Assim como Londres, Detroit também precisa se reinventar para não quebrar. “Detroit pode ir à falência se nada for feito imediatamente. Estamos em queda livre”, diz Bing, que quer colocar seu plano em prática e fazer valer o lema da cidade – Speramus Meliora; Resurget Cineribus, ou algo como “Esperamos por coisas melhores; vamos ascender das chamas”. A promessa está feita. Agora é esperar para se a revolução agrícola funcionar

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