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Salmão Voador

O pescado já é o segundo produto chileno mais importado pelo Brasil, que utiliza o transporte aéreo para atender à demanda crescente

Vida de salmão não é simples: o peixe, mesmo sendo nativo de águas salgadas, nasce nos rios e, após cinco anos na correnteza, vai ao mar para buscar alimento e continuar o seu ciclo natural. Essa migração entre tipos diferentes de águas faz com que seja conhecido pela definição científica de peixe anádromo. Mais do que essa particularidade, o pescado necessita de águas frias para procriar. Com todas essas distinções, a produção da iguaria torna-se praticamente impossível no País, que tem de apelar para a importação para atender ao crescente apetite do consumidor brasileiro pela carne rosada. “O aumento da classe média e a explosão de restaurantes japoneses contribuíram para o crescimento das importações do salmão”, diz Fábio Faria, vice-presidente da Associação Brasileira de Comércio Exterior (AEB). Segundo ele, a estratégia de distribuição e a facilidade de ter um país próximo, como o Chile, o segundo maior produtor do mundo, atrás apenas da Noruega, também ajudaram no crescimento.” De fato, o volume das importações está em alta. Em 2012, o Brasil comprou cerca de 50 mil toneladas do pescado chileno, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento (MDIC), três vezes mais do que o registrado em 2007. Em valor, só perde para as importações de cobre do Chile: foram US$ 231 milhões, contra US$ 2 bilhões do metal e seus derivados. Até agosto deste ano, já foram desembolsados U$$ 224 milhões para um total de 37 mil toneladas. “O Brasil é o mercado com maior potencial para as exportações”, afirma Melanie Whatmore, gerente da Salmón de Chile, marca dos exportadores do peixe que investe US$ 2 milhões por ano em marketing e propaganda no País. De acordo com ela, enquanto as vendas para o Brasil estão crescendo a taxas em torno de 30%, o comércio do peixe vem caindo para alguns mercados, como no caso do Japão, ou está em ritmo mais lento, como nos Estados Unidos.

Se compararmos com a importação de outros alimentos pelo País, como o trigo e o arroz, o salmão não chega a ser muito representativo nas contas brasileiras. Com outros pescados, no entanto, ele já mostra a força de suas nadadeiras. O Brasil é o maior consumidor de bacalhau salgado do mundo e gastou US$ 238 milhões nas importações em 2012, R$ 7 milhões a mais do que com o salmão. O líder no setor são os filés de peixe congelados, que movimentaram US$ 261 milhões no ano passado. “Mas em breve o bacalhau deve perder o reinado e o salmão se tornará o pescado mais importado pelo Brasil”, diz Faria, da AEB.

Para atender a essa demanda, especialmente do produto em estado fresco, o mais utilizado pelos restaurantes japoneses, o Chile precisou adotar o transporte aéreo para enviar seus carregamentos ao Brasil. O peixe, que tem de ser levado ao prato do consumidor em até 21 dias após o abate, demora cerca de dez dias por terra para atravessar a rota entre a cidade de Puerto Varas, no sul chileno, até a capital paulista. Por avião, que já representa 10% dos envios, o prazo cai para dois dias. “A logística é mais complicada e o preço é elevado”, afirma Matías Herceg, diretor de operações da LAN Cargo, responsável por praticamente todo o salmão transportado por via aérea. “Só que, para atender à demanda crescente, o transporte por avião virou uma necessidade.”

O cuidado com as peculiaridades do pescado passa por todas as esferas do setor. O carregador cubano Ricardo Ribero, que trabalha há 11 anos no aeroporto de Santiago para a LAN, diz estar atento a qualquer tipo de problema que possa afetar a carga. “A temperatura e a limpeza têm de estar de acordo”, diz Ribero. “O carregamento pode se perder inteiro por causa de uma contaminação no avião.” Tanto cuidado não ocorre por acaso: com sua imensa logística – fertilização, incubação, produção de alevinos (peixes recém-nascidos), adaptação, engorda, coleta, distribuição e transporte –, a cultura, que já é a terceira maior do Chile, superada apenas pelo cobre e pelas exportações de frutas, é responsável por 34 mil empregos.

Entre eles, o de Iván Hernandez, chefe do centro de engorda da Marine Harvest, uma das empresas associadas à Salmón de Chile. “O mar me encanta”, diz Hernandez. “Mais do que isso, me sinto trabalhando pela saúde da minha família e do meu país.” Com o aumento das vendas e do consumo do salmão, muitos chilenos chegaram mesmo a abandonar suas antigas profissões. É o caso de Eliana Flores, que era cozinheira antes de se tornar responsável pela alimentação e limpeza dos tanques onde ficam os peixes na AquaChile. “É uma experiência nova: antes cozinhava, agora trato deles”, afirma Flores.

Para atender ao crescimento da produção, que hoje chega a 800 mil toneladas anuais, os produtores chilenos estão recorrendo à aceleração do crescimento em cativeiro em detrimento dos pescados selvagens. Ao alimentar e conservar os peixes em áreas especiais, os produtores, com auxílio de luz, alimentação e o controle da temperatura dos tanques, conseguem deixá-los prontos para o consumo em dois anos, a metade do tempo exigido pelo sistema tradicional. “É como se brincássemos de Deus”, diz Veronica Morel, engenheira especializada em peixes da AquaChile.

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