Negócios

Todos ao campo

O profissional do agronegócio evoluiu. Valorizados pelo aumento das exigências e por remuneração mais atraentes, eles estão na vanguarda da modernização do setor

O capixaba Lúcio Cornachini ajudou a transformar a Lagoa da Serra, de Sertãozinho, no interior paulista, na maior central de genética animal do Brasil e depois embarcou no projeto da Agropecuária Santa Bárbara, onde é diretor das operações, que somam 500 mil cabeças de gado. O paulista Stefan Mihailov, atual diretor-geral da Phibro Animal Health no Brasil, liderou, quando comandava a área de negócios bovinos na Fort Dodge, o desenvolvimento de um besouro que traz benefícios para o meio ambiente e controla parasitas. O paulista Bernhard Kiep, vice-presidente da fabricante de máquinas e implementos agrícolas New Holland para a América Latina, fez uma carreira internacional que o levou a cuidar de operações em mais de 40 países. Já o enólogo gaúcho Mateus Valduga, de 28 anos, segue os passos de seu tataravô, o imigrante Marco Valduga, que desenvolveu a vitivinicultura no Vale dos Vinhedos em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, ao chegar da Itália em 1875. Valduga participa de um projeto da vinícola Villaggio Grando para estabelecer a produção de vinhos em Santa Catarina. Depois de publicar mais de 20 artigos científicos sobre animais confinados, o paulista Judson Vascon-celos abandonou uma bemsucedida carreira acadêmica para, a partir da matriz da Elanco em Indiana, nos Estados Unidos, ajudar a modificar a cultura de vendas da empresa em todo o mundo. A paulista Lucielma Holtz ampliou as vendas de medicamentos para animais na Pfizer, em dez vezes, no Estado de São Paulo, o que lhe valeu a promoção a gerente de produto na unidade de aves, aos 31 anos. Por sua vez, o gaúcho Donário Lopes de Almeida, prestes a embarcar para um MBA nos Estados Unidos, abandonou o projeto pessoal para comandar o início das operações da ABS Global, no Brasil, multinacional americana, especializada em biotecnologia animal, com operações em mais de 70 países.

A despeito dos perfis, faixas etárias, trajetórias e formações diferentes, esses profissionais têm algo em comum. Eles representam o novo trabalhador do agronegócio brasileiro. Com a evolução do setor, sua profissionalização e a ascensão de empresas brasileiras, como a BR Foods, JBS, Marfrig e Raízen, como players relevantes no mercado internacional, as exigências para os executivos do campo passaram a ser maiores. Hoje, o conhecimento técnico e tecnológico precisa combinar-se com uma forte capacidade de gestão, um arraigado espírito de equipe e doses cavalares de empreendedorismo, capazes de responder ao novo cenário global.

“O poder estava nas mãos das empresas. Agora, está nas dos executivos”

Jeffrey abrahams

Abrahams Executive Search

 

Aproveitando suas condições excepcionais de solo, topografia, clima, terra agricultável em abundância e população, o Brasil se tornou a maior referência mundial no agronegócio tropical. “Há uma década, quando se falava de agronegócio, havia uma associação direta com imagens negativas: atraso tecnológico, mão de obra não qualificada e dívidas. O agro era um mau negócio”, diz José Vicente Caixeta Filho, diretor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (Esalq/USP). “A cultura era de abnegação no trabalho no campo, na qual, no fim, sempre se perdia dinheiro.” Agora, a premissa para iniciar qualquer negócio no setor é a sua possibilidade de rentabilidade. Essa evolução exigiu do agronegócio o mesmo nível de profissionalização já atingido por outros setores da economia brasileira, como a indústria e o setor de serviços. Na esteira dessa transformação desponta um profissional mais valorizado, tanto em suas atribuições quanto em termos de remuneração. Afinal, ele passou a ser disputado como nunca. Atualmente, os salários desses gestores estão em paridade com os de seus colegas dos centros urbanos. Vão de R$ 195 mil anuais para cargos de gerência a R$ 700 mil na presidência. “Nos últimos três anos, a remuneração subiu 30%. O aumento aconteceu principalmente na área sucroalcooleira”, diz o recrutador especializado em agronegócios Jeffrey Abrahams , da Abrahams Executive Search, de São Paulo. “O poder estava nas mãos das empresas. Agora, está nas dos executivos.”

Bernhard Leisler Kiep

Origem: São Paulo

Idade: 44 anos

Graduação: comércio exterior pela State Business School, de Hamburgo, na Alemanha

Pós-graduação: especialização na Harvard Business School, nos EUA

Primeiro emprego: auxiliar de marinheiro

Cargo atual: vice-presidente da New Holland para a América Latina

Um feito: montou as operações da Valmont na China, Rússia, Ucrânia e no Paquistão

Conselho: é preciso ser especialista, saber desde como a cotação da soja fechou na Bolsa de Chicago até ter o domínio sobre toda a cadeia produtiva de determinado produto, que compreende da produção à comercialização no varejo das grandes cidades

Abrahams revela que, em 30 anos de atuação no setor, nunca viu nada como o que aconteceu recentemente no segmento de açúcar e etanol. “Foi uma consolidação mais rápida que a dos bancos na década de 1990”, diz. “Agora faltam pessoas para as grandes empresas resultantes desse processo.” O segmentos sucroalcooleiro ilustra à perfeição a tese do consultor. A expectativa é de que será neces-sário criar entre 130 e 190 novas usinas de cana-deaçúcar até 2020, para atender à demanda brasileira. “Quem for bom para o agronegócio, será disputado a tapa”, diz Marcos Jank, presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica). Outros nichos que criam bons empregos são a pecuária e os de máquinas, insumos, sementes, fertilizantes e defensivos químicos. Profissionais com conhecimento especializado, como pesquisadores, geneticistas e biotecnólogos, já são disputados a peso de ouro pelas empresas. Assim como quem entende de logística para o campo. Ainda mais valioso é o técnico que soma a expertise técnica à capacidade de gestão e se torna craque na arte de liderar equipes e profissionalizar empresas familiares. Há oportunidades em todos os lugares. “Hoje, existe muito emprego no interior de Goiás, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso”, diz Abrahams. Para atrair bons executivos para longe dos grandes centros, as empresas não têm outra alternativa senão investir em remunerações compatíveis, oferecendo pacotes que contenham salário e benefícios de primeira linha. “O grande problema é deslocar o profissional que se destaca nas grandes cidades”, afirma Carina Budin, sócia-gerente da consultoria de recrutamento Asap, de Campinas (SP). “Para conseguir isso, as empresas estão dispostas a pagar acima do mercado. As que não se adequam ficam com vagas em aberto.”

Judson Vasconcelos

Origem: Presidente Prudente (SP)

Idade: 35 anos

Graduação: medicina veterinária na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul

Pós-graduação: mestrado e doutorado em nutrição de bovinos na Texas A&M University e pós-doutorado na Texas Tech, nos Estados Unidos

Primeiro emprego: consultor para produtores de gado confinado

Cargo atual: consultor global de marketing técnico da Elanco

Um feito: publicou mais de 20 artigos científicos

Conselho: os mais jovens devem estudar nos EUA. É uma oportunidade única de conhecer um país que investe muito em pesquisa