Negócios

Tourinhos na lagoa

Ranicultores paulistas querem introduzir o sistema integrado de produção para viabilizar a criação comercial de rãs no País

Alta demanda: a rã-touro é a mais apreciada no mundo e a carne chega a custar R$ 45 o quilo

Elas não são nem um pouco bonitas, tampouco simpáticas ou chamativas. Basta uma rã aparecer em cena para todo mundo sair correndo, aos gritos. “É sapo, é sapo.” No entanto, ao contrário da imagem equivocada de vilã que estes animais carregam consigo, suas qualidades gastronômicas, muito apreciadas na Europa, Ásia e nos Estados Unidos, têm feito brotar cifras consideráveis nos bolsos de alguns produtores rurais brasileiros. Eles conseguiram acertar a mão ao investir apenas em alguns determinados segmentos da criação e não na cadeia produtiva como um todo, como a maioria deles fez quando a ranicultura teve seu “boom” no Brasil, no final da década de 90. “Foi o grande erro dos produtores rurais”, lembra Samuel Lopes Lima, professor do Departamento de Aquicultura da Universidade Federal de Viçosa (MG). Poucos anos depois, a atividade perdeu força e quase desapareceu no País. Hoje há poucos ranários localizados na Grande São Paulo e no Rio de Janeiro, cerca de 150, e quase nenhum nas regiões Norte e Nordeste. A demanda pela carne de rã é maior que a oferta, tanto no mercado interno quanto no externo, com preços variando de R$ 32 a R$ 45/kg, conforme apurou DINHEIRO RURAL. Já o abate ainda é precário, por causa da falta de abatedouros certificados pelo Ministério da Agricultura com o Selo de Inspeção Federal (SIF). Os produtores que sobreviveram neste mercado, agora, querem organizar a atividade, preconizando o sistema integrado de produção, assim como já acontece com a pecuária bovina, a avicultura e a suinocultura, para poder continuar o seu negócio.

Em São Roque, município localizado a 90 quilômetros da capital paulista, está o RanaVille, ranário especializado na cria, recria e engorda de rãs-touro, a espécie mais viável economicamente para criação na América do Sul. Há cinco anos em atividade, o criatório produz três toneladas de rãs/mês e escoa a produção viva diretamente para o comprador.

 

 

“Infelizmente, ainda temos problemas para efetuar um abate em escala, por isso as demandas seguem como cargas vivas para seus destinos”, explica Leandro Di Pietro, sócio-proprietário do ranário. Do RanaVille saem duas toneladas e meia de rãs com destino a Nova York, todos os meses, e o restante da produção abastece o mercado interno. “Há uma grande demanda no mercado interno, mas a produção acaba sendo voltada para o Exterior, em virtude da falta de estrutura para o abate e a comercialização doméstica.” Di Pietro e seu sócio, Artur Lalis Neto, investem agora em uma empresa voltada para a agroindústria. Em cinco meses, um abatedouro, também em São Roque, estará pronto e certificado pelo Ministério da Fazenda com o SIF para o processamento das carnes. A intenção é chegar ao abate de seis toneladas/ mês. “Queremos conscientizar os produtores da região de que este é o caminho a ser seguido para que a atividade consiga ter continuidade por aqui. Ou você cria e engorda, ou investe no abate e na comercialização, que é uma etapa bastante burocrática”, afirma Di Pietro. “A organização na cadeia produtiva é essencial para a continuidade do negócio, como em qualquer outra atividade. O produtor rural precisa se conscientizar disso e evitar os erros do passado. Ele quis fazer tudo sozinho e a expansão da ranicultura fracassou naquela época”, complementa Lima.

A experiência de tentar abraçar toda a cadeia produtiva da rã já teve um gosto bem amargo para o produtor rural Francisco Hickishi, de São Paulo. Há 30 anos no mercado, Hickishi há oito anos partiu apenas para a comercialização da carne de rã. “Vendo a carne congelada diretamente para restaurantes de São Paulo”, diz ele, que comercializa em média 1.300 quilos de carne de rã por mês, principalmente coxas, ao preço médio de R$ 35. Hickishi trabalha com estes números há algum tempo e acredita que o País ainda precisa trabalhar na popularização da carne para que a produção possa evoluir. “São sempre os mesmos restaurantes.” Dados da Organização Mundial para a Alimentação (FAO) apontaram que, de 1990 a 2000, o consumo da carne de rã in natura aumentou 30%, mas de 2000 a 2009 este índice caiu 11%. “Os brasileiros ainda têm uma certa restrição ao consumo da carne de rã, até por isso seus cortes devem ser especiais. Isso já não acontece no mercado americano ou europeu”, ressalta Di Pietro. Para tentar reverter esta imagem perante o consumidor brasileiro, Di Pietro e Lalis projetam desenvolver novos produtos a partir da carne de rã para diminuir o preconceito. “Até porque isso vai agregar valor ao produto brasileiro como um todo, mas é uma prioridade organizar a cadeia produtiva também para trabalharmos esta questão”, enfatiza. Entre os produtos diversificados que eles almejam colocar no mercado está o patê de fígado de rã e petiscos embutidos a partir da carne moída do dorso do animal. E, então, deu água na boca?