Negócios

Um brinde à diversificação

Com o acirramento da competição, fabricantes mundiais de máquinas e implementos agrícolas saem às compras, ampliando sua aposta no Brasil

 

Viva a soja: Del Gaudio (à esq.) da GSI Holdings, Richenhagen, presidente global da Agco, e Carioba (sentado), gerente geral da Agco para a América do Sul, estão à frente das novas aquisições no Brasil

Assim como faz todos os anos, o alemão Martin Richenhagen, presidente global da americana Agco, dona das marcas Massey Fergusson, Valtra, Challenger e Fendt, veio ao Brasil para avaliar o desenvolvimento dos negócios da companhia e as oportunidades de mercado para toda a América do Sul. Desta vez, no entanto, Richenhagen fez muito mais que isso. No dia 5 de outubro, ao lado de André Müller Carioba, vicepresidente e gerente-geral da Agco para a América do Sul, ele anunciou, em São Paulo, a aquisição da empresa GSI Holdings, dos Estados Unidos, uma das maiores empresas especializadas em armazenagem de grãos e máquinas para sistemas de produção de proteína animal. O negócio foi fechado por US$ 940 milhões. Até o mês passado, a GSI Holdings era controlada pelo Centerbridge Partners, um fundo de investimentos privados, que havia assumido o seu controle em 2007. “A intenção dessa aquisição é aumentar a variedade de produtos oferecidos para o agricultor”, diz Richenhagen. Segundo ele, a Agco não descarta novas aquisições para ampliar ainda mais o portfólio do grupo para além das colhedeiras e dos tratores, sua marca registrada. “Vamos pagar essa compra e depois pensar em outros segmentos no agronegócio”, afirmou.

Com faturamento anual próximo de US$ 700 milhões, a GSI Holdings, sediada em Assumption, no Estado do Illinois (EUA), comercializa seus produtos em todo o mundo por meio de 500 distribuidores. No Brasil, além de silos e secadores de grãos, que voltaram a ser produzidos, neste ano, em Marau (RS), a subsidiária da GSI fabrica equipamentos para aves, suínos e pecuária leiteira. O Brasil é responsável por cerca de 10% de sua receita global, com mais de seis mil clientes. “O agronegócio brasileiro vai crescer, os volumes de grãos serão cada vez mais altos e tudo isso demandará investimentos, principalmente em silos”, afirmou Richenhagen. “Esse filão de mercado é a aposta da Agco.”

 

“As empresas precisam complementar sua área de atuação para sobreviver”

Rostro Júnior, da Câmara Setorial da Abimaq

 

De acordo com Sidney Del Gaudio, presidente da GSI para o Brasil e a América Latina, a aquisição realizada pela Agco foi uma decisão estratégica e foge totalmente do foco de atuação da empresa, até agora. Mas, segundo ele, é uma compra mais que justificada. “O Brasil é o segundo maior produtor mundial de carne de frango e o primeiro exportador em um cenário de demanda crescente por proteína.” Atualmente, mais de 75% das vendas realizadas pela GSI, nesse segmento, estão fora da América do Norte. “A presença da Agco na Europa, Ásia e também no Brasil, nos ajudará a crescer nos mercados que têm demandas por produtos de origem animal e por infraestrutura para manter essas cadeias produtivas”, diz Del Gaudio. O processo de incorporação da GSI pela Agco será finalizado até o fim deste ano. Com a nova empresa, a Agco espera obter uma receita mundial de US$ 1 bilhão, em 2012, montante 42% acima do previsto para este ano. Além da compra da GSI, no Brasil, a Agco mantém seu programa de investimentos para ampliar a produção de máquinas agrícolas. Para a fábrica de Santa Rosa (RS), estão previstos R$ 65 milhões na expansão do setor de colhedeiras. Na América do Sul, o desembolso programado é de R$ 100 milhões até 2012.

A exemplo da Agco, nos últimos anos, a economia brasileira tem passado por um intenso processo de consolidação. Fusões e aquisições de companhias em diversos setores têm sido frequentes, como telefonia e bancos. No agronegócio esse processo não é diferente e está indo além do campo, com companhias diversificando seus investimentos. Na mesma semana do anúncio do grupo Agco, a também americana Deere & Company, comunicou sua entrada no mercado de máquinas para a construção civil, no País. Sua controlada, a John Deere vai construir duas novas fábricas em Indaiatuba (SP). Uma delas será levantada com capital próprio, para produzir retroescavadeiras e pás carregadeiras. A outra é uma parceria com o grupo japonês Hitachi Construction Machinery, para fabricar escavadeiras. O investimento previsto é de US$ 180 milhões, com US$ 124 milhões aportados pela John Deere e US$ 56 milhões pela Hitachi.

 

No campo… e fora dele

Agco Company

Marcas Massey Fergusson, Valtra, Challenger e Fendt

– Aquisição: GSI Holdings

– Investimento: US$ 940 milhões

– Produção: armazenagem de grãos e máquinas e

equipamentos para o setor de proteína animal

Deere & Company

Marca da multinacional americana John Deere

Parceria com a japonesa Hitachi Construction Machinery

– Investimento: US$ 180 milhões

– Área: construção civil

– Produção: retroescavadeiras, pás carregadeiras e escavadeiras

Grupo Fiat / CNH Latin America

Parceria com a Semeato

– Produção: plantadeiras e semeadeiras

– Objetivo: utilizar tecnologia da Semeato em troca da

plataforma de operações

 

Juntas: A Deere Company, controlada pela John Deere, fez parceria com a Hitachi para atuar na construção civil, enquanto a CNH juntou-se à Semeato para produzir plantadeiras e semeadeiras

 

Outra empresa que anunciou investimentos foi a CNH Latin America, empresa do grupo Fiat. A companhia fez uma parceria com a gaúcha Semeato, que atua no segmento de implementos e máquinas agrícolas para o plantio direto. A parceria permitirá as integrações das empresas para atender unicamente a esse segmento. O objetivo é colocar no mercado implementos com a tecnologia da Semeato adaptados para os produtos da CNH.

“O Brasil é o centro dos novos investimentos das multinacionais”

Afonso Mamede, diretor do grupo Odebrecht e da Sobratema

 

Para o vice-presidente da câmara setorial de máquinas e implementos agrícolas da Abimaq, Amilcar Rostro Júnior, a diversificação dos negócios dessas empresas tem por objetivo ganhar competitividade e musculatura no cenário internacional. “Muitas empresas precisam complementar sua área de atuação como forma de sobrevivência”, afirma Rostro Júnior. “Caso contrário, vão perder espaço para a concorrência”, diz. O diretor de equipamentos do grupo Odebrecht e presidente da Associação Brasileira de Tecnologia para Equipamentos e Manutenção (Sobratema), Afonso Mamede, diz que a competição se torna saudável para o mercado brasileiro. “Com a economia mundial estagnada, o Brasil é o centro dos novos investimentos das multinacionais”, diz.