Negócios

Uma mulher contra os trangênicos

A jornalista francesa Marie-Monique Robin veio ao Brasil para

promover seu manifesto contra a Monsanto. Mas será que ela tem

mesmo razão?

No mês de dezembro, um furacão francês passou pelo Brasil. A ativista Marie-Monique Robin, premiada em seu país por reportagens investigativas, veio divulgar o lançamento de seu polêmico livro, chamado O Mundo Segundo a Monsanto, que deu origem a um documentário com o mesmo nome. Nele, a jornalista M2R (é assim que ela abrevia sua identidade) denuncia uma espécie de conspiração mundial, promovida pela multinacional norte-americana, para dominar a cadeia global de alimentos através das sementes geneticamente modificadas. Os transgênicos, segundo ela, seriam um dos maiores crimes jamais cometidos contra a humanidade. “Os agricultores brasileiros devem rapidamente abrir seus olhos, porque esses produtos, mais cedo ou mais tarde, serão banidos”, disse M2R à DINHEIRO. O maior alvo da escritora francesa é a soja Roundup Ready, desenvolvida pela Monsanto, que é resistente aos herbicidas à base de glifosato, como o Roundup. “Comer transgênicos é o mesmo que dar inseticidas às nossas crianças”, diz ela.

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O livro tem prefácio escrito pela exministra do Meio Ambiente Marina Silva, que, no governo, perdeu a batalha que se travou em torno do tema. A esse respeito, M2R se diz “desapontada” com o presidente Lula por ter permitido a entrada da soja RR por meio do contrabando. Ela se refere à chamada “soja Maradona”, que cruzou a fronteira da Argentina com o Rio Grande do Sul e depois se disseminou pelo País. Antes de partir de volta para a França, ela ainda se encontrou com o governador do Paraná, Roberto Requião, que proibiu o cultivo de transgênicos no seu Estado. “No longo prazo, a história lhe dará razão”, diz ela.

Filha de agricultores, M2R diz ter escolhido o tema em razão de sua ligação com os verdadeiros “homens da terra”. Mas há um ponto no seu próprio livro, em que ela narra o fascínio que os agricultores americanos tiveram ao travar o primeiro contato com sementes modificadas. Um desses produtores, John Hofman, de Iowa, lhe disse que a conquista da Monsanto foi avassaladora por uma razão simples: produtividade. Segundo Hofman, depois da primeira aplicação do Roundup, já era possível fazer o plantio direto da soja, o que evita a erosão do solo. “Isso me economiza tempo e dinheiro”, disse ele.

Hoje, a maioria das sementes de soja cultivadas nos grandes países produtores, como Estados Unidos, Brasil e Argentina, é geneticamente modificada. Segundo a jornalista francesa, isso é fruto da desinformação. Mas e quanto ao fato de os agricultores decidirem voluntariamente plantar transgênicos? O que os pais de M2R fariam se fossem agricultores no Brasil ou nos EUA?

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Para isso, a escritora não tem uma resposta totalmente convincente. Ela diz apenas que, no futuro, eles serão recompensados pelos preços melhores a serem pagos pelas sementes convencionais. O problema é que, no mundo inteiro, inclusive na França, agricultores são espremidos por margens baixas e têm como horizonte a próxima safra. Portanto, ganhos de produtividade são sempre bem-vindos.

Alvo da fúria da jornalista francesa, a multinacional americana decidiu não nomear um porta-voz para responder aos ataques. Divulgou apenas uma nota oficial, criticando um documentário que “visa denegrir a imagem da Monsanto”, com acusações que “há muito tempo já foram descartadas por renomados cientistas internacionais”. Segundo a empresa, o livro e o documentário seriam apenas uma arma daqueles que visam combater a biotecnologia agrícola e o progresso científico.

Alheios à polêmica, o mais provável é que os agricultores continuem cultivando sementes geneticamente modificadas, devidamente liberadas pelas autoridades sanitárias (cuja isenção a jornalista francesa põe em dúvida), enquanto isso estiver gerando mais produtividade e um retorno econômico adequado para os homens da terra. Simples assim.