Negócios

Vinho longa vida

Vinícolas do Rio Grande do Sul investem no segmento de embalagens especiais para a comercialização de vinhos finos a preços mais atrativos para os consumidores

 

Um mercado diferente e ainda desconhecido está se abrindo para os vitivinicultores brasileiros, que há cinco anos iniciaram o envasamento de vinhos finos em embalagens longa vida, aqui chamadas de Bagin- box, BiB. A tendência foge das tradições do setor agrovinícola brasileiro, sobretudo no Rio Grande do Sul, região intrinsecamente ligada à cultura italiana, e fez alguns investidores torcerem o nariz para a novidade. O retorno comercial apresentado nestes primeiros anos, no entanto, teve um apelo maior que os costumes culturais, com os números de produção e vendas acima de 1.000% nos últimos 12 meses, convencendo até os empresários mais resistentes a partir para a modernização do processo, investindo em tecnologias italianas e norte-americanas para envasar o vinho obtido das uvas viníferas, híbridas, americanas e o suco, sem deixar de priorizar sua qualidade.

Com um investimento de R$ 650 mil em uma máquina específica para o envase automático de BiB, a Vinícola Perini é quem lidera, hoje, este mercado no Vale dos Vinhedos. A meta da empresa é encerrar o ano com a produção de 400 mil caixas de vinhos e faturar algo em torno de R$ 11,2 milhões somente neste segmento. Juntas, as 56 vinícolas que investiram na tendência devem faturar R$ 60 milhões em 2010 com a venda das caixas, segundo o Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin). Mas o Ibravin acredita que há a possibilidade de chegar a R$ 100 milhões se a demanda continuar crescendo nesse ritmo.

 

Engenhoca italiana: a máquina automática para o envase de vinhos Bag-in-box já é amplamente utilizada em países como Austrália e Estados Unidos

Tecnologia moderna: Benildo Perini, da Vinícola Perini, foi o primeiro a apostar na tecnologia com um investimento de R$ 650 mil

Benildo Perini, diretor-presidente da empresa, e o gerente comercial, Franco Perini, que possuem unidades produtoras em Farroupilha e Garibaldi, foram aos Estados Unidos negociar com a Scholler Packaging, empresa norteamericana de embalagens, responsável por 70% dos Bag-in-box sulamericanos, a compra de uma máquina italiana para envase automático, a primeira da categoria a chegar ao Brasil. “Estamos investindo no envase de vinhos Bag-inbox para aumentar em 30% a nossa participação neste mercado, que está apenas engatinhando no Brasil, mas já é tradicional em países como Austrália, Suécia, Noruega e Estados Unidos”, diz Perini. Atualmente, cerca de 2 milhões de litros de vinhos em bags são produzidos no Brasil. Em 2009, a produção total de vinhos foi de 462 milhões de litros, entre os vinhos finos, das uvas viníferas, de qualidade superior, e vinhos de mesa, de uvas americanas e híbridas. Julio Fante, presidente do Ibravin, aposta no crescimento deste mercado nos próximos anos por vários fatores.

“Pela praticidade e pela segurança que o consumidor tem, além da economia para as vinícolas e o preço final do produto”, avalia. Segundo ele, o Bag-inbox, que é um saco de poliéster flexível dentro de uma caixa longa vida e com uma saída dosadora, chega a ser 30% mais barata que a garrafa e consegue manter as qualidades do produto depois de aberto por até dois meses, sem alteração de sabores e aromas. O preço médio de uma caixa de três litros é R$ 30, enquanto o da caixa de cinco litros, R$ 45. “O consumidor está percebendo que ele pode comprar uma caixa de cinco litros de um vinho superior pelo mesmo preço de um garrafão de vinho de mesa”, avalia Franco Perini.

 

Estatísticas do Ibravin apontam que hoje, apenas 1% dos vinhos brasileiros são envasados com a tecnologia BiB, enquanto na Austrália, o sistema atinge 50% da produção, 40% na Noruega e Suécia e 20% nos Estados Unidos. De 2008 para 2009, o crescimento da produção foi gritante. “Em 2008, foram comercializados 85,29 mil litros de vinho em bags; em 2009 foram 976 mil litros e nos primeiros seis meses deste ano foram 926 mil litros”, afirma Fante.

Roberta Boscato, da Boscato Vinhos Finos, vinícola instalada em Nova Pádua, também no Vale dos Vinhedos, é do time que não gosta muito da novidade. “Eu acho que perde um pouco o charme. Degustar um vinho é um ritual. Abrir a garrafa tem o seu valor, mas se o consumidor quer isso, nós temos que oferecer, com o cuidado de não deixar a qualidade cair só porque a bebida está na caixa”; Pioneira no uso desta embalagem, a Casa Valduga, empresa localizada em Bento Gonçalves, acredita que a novidade é uma forma de democratizar e popularizar a bebida. “Os Bag-in-box vieram para diversificar o consumo de vinhos no Brasil. Ainda haverá espaço para quem já aprecia um bom vinho na garrafa, mas os bags, sem dúvida, abrem novos mercados e conquistam novos consumidores”, avalia João Valduga, diretor da empresa. Na esteira dessas empresas, a Miolo foi além e oferece uma super-Bag-inbox. “A caixa tem um dispenser especial para armazenar três tipos de vinhos: o tinto, o rosê e o branco, cada um com uma temperatura ideal”, explica Alexandre Miolo, diretor-comercial da vinícola. “Nossos melhores vinhos já estão sendo comercializados em bags e garanto que a qualidade é a mesma dos vinhos da garrafa”, pondera Miolo. “O mercado está aí, resta a nós oferecer um bom produto.”

 

Pioneiro no sul: João Valduga, diretor do Grupo Valduga, foi o primeiro a comercializar vinhos Bag-inbox no Vale dos Vinhedos e não se arrepende

 

Resistência: apesar dos crescentes números de vendas, Roberta Boscato, da Boscato Vinhos Finos, alega que o vinho em garrafa “é mais charmoso e significativo”