Negócios

Wesley Batista, a nova cara do JBS

Ele está de volta, depois de quatro anos nos EUA, e assume o comando do maior grupo frigorífico do mundo.

“Chegou o momento de integrar a operação global”

A agenda do empresário Wesley Batista estava particularmente apertada no dia 24 de março. Na manhã daquela quinta-feira ele seria, pela primeira vez, o porta-voz da apresentação dos resultados financeiros do JBS – um gigante do setor frigorífico, com operações em mais de uma dezena de países, 125 mil funcionários espalhados pelos cinco continentes e um faturamento de R$ 55 bilhões no ano passado. A missão de Wesley naquele dia era especialmente espinhosa: explicar a analistas, investidores e jornalistas por que a maior empresa de proteína animal do mundo amargou um respeitável prejuízo de R$ 264 milhões em 2010. “Porque não conseguimos fazer a oferta pública de ações da JBS americana. Essas ações seriam trocadas pelas debêntures subscritas pelo BNDESpar”, disse o novo CEO do JBS. “Como não cumprimos o prazo do IPO, pagamos uma multa de R$ 521,9 milhões ao BNDESpar.” Wesley é o terceiro dos filhos do patriarca José Batista Sobrinho (cujas iniciais formam a sigla do grupo) a ocupar o comando. Ele substitui o irmão caçula, Joesley, que por sua vez sucedeu o primogênito, José Batista Júnior, à frente do conglomerado. Depois de enfrentar analistas e investidores, Wesley seguiu para sua primeira coletiva de imprensa. “Saiu-se bem”, foi o veredicto do experiente ex-ministro Marcus Vinicius Pratini de Morais, hoje conselheiro do JBS.

Não que Wesley não esteja acostumado a enfrentar desafios. O primeiro deles, aliás, surgiu quando ele tinha apenas 19 anos de idade e o pai o incumbiu de cuidar de um frigorífico com capacidade para abater 40 cabeças por mês. “Hoje, quando olho para o meu filho, que está exatamente com 19 anos, é que me dou conta do tamanho da confiança que meu pai depositou em mim”, disse Wesley à DINHEIRO RURAL, em sua primeira entrevista exclusiva como novo CEO do grupo JBS. Ele é rápido em acrescentar que, em menos de um ano, aquele pequeno matadouro virou um negócio de 300 cabeças abatidas por dia. “Eu fazia tudo: era o gerente, comprava, vendia, e ainda vim para São Paulo montar uma distribuidora sem nunca ter pisado aqui.”

Aquisições: nomes como Bertin, Vigor e Swift não escaparam do apetite da JBS aqui e lá fora. Hoje o grupo é dono de marcas de carnes, lácteos e produtos de higiene e limpeza vendidos em 20 países

História é o que não falta ao jovem empresário de apenas 40 anos. Mas ela pouco difere da história de seus outros dois irmãos. José Batista também começou cedo na lida e só teve folga quando Wesley estava crescido o bastante para trabalhar. “Quando um irmão ia ficando maiorzinho, assumia mais tarefa e liberava o outro para fazer outra coisa”, lembra o velho José Bastista Sobrinho, o fundador do JBS. “Zé Mineiro”, como é mais conhecido, nunca deu entrevista, mas abriu uma exceção para um dedo de prosa com DINHEIRO RURAL (leia entrevista completa na pág. 56).

O novo CEO do JBS passou os últimos quatro anos cuidando das operações internacionais do grupo. Se no Brasil a companhia galopava rapidamente para se tornar uma das maiores empresas do País, no Exterior o ritmo não era muito diferente. O processo de internacionalização do antigo Friboi, nome abandonado há alguns anos, foi iniciado em 2005, com a aquisição da Swift Armour S.A., maior produtora e exportadora de carnes da Argentina.

A arte de decidir

Wesley Batista, o novo CEO do grupo JBS, entra apressado na ampla sala de reuniões, na sede do grupo, em plena marginal do Tietê, na zona oeste da capital paulista. Desculpa-se pelo atraso de alguns minutos, cruza as mãos sobre a mesa e se diz à disposição para sua primeira entrevista exclusiva. Parece descontraído e se anima ainda mais ao falar dos quatro anos que passou nos EUA.

O que o sr. destaca dessa sua passagem pela terra de Barack Obama? Os americanos são de um pragmatismo, de uma objetividade que no começo pode te desconcertar. Se você vai com um assunto que não interessa, eles dizem logo e encerram a conversa. No começo eu estranhei. Mas depois vi que é o jeito americano de ser. Eles não têm tempo a perder. Isso é uma lição que vou levar para o resto da vida.

Como foi a sua adaptação por lá? Foi difícil, viu. Cheguei naquela empresa enorme, cheia de gente e sem falar uma palavra em inglês. Sabe qual era o meu maior medo? Que tocasse o telefone. Eu não ia saber o que dizer.

E como é que o sr. se virou? A gente sempre se vira, né? Aprendi na marra e hoje dou até entrevista em inglês.

Qual foi a maior lição que o seu pai lhe deu? Ele sempre confiou na gente e nunca disse o que a gente devia fazer. Quando eu levava uma dúvida ele respondia, perguntando: “O que você acha que deve ser feito?.” Ele me ensinou a tomar as decisões.

Qual será o seu desafio à frente do grupo? Conheço bem a operação aqui e no Exterior. Minha volta é uma coisa natural e minha principal missão é descobrir o que a gente faz melhor em cada lugar e espalhar pelas empresas. Por exemplo, sabia que tem faculdade de ração nos Estados Unidos? Eu não sabia. Pois a gente precisa falar com esse pessoal para trazer as novidades para as nossas empresas. Isso é só um exemplo. Tem muito mais coisa para trazer de fora e também para levar do Brasil para fora.

Tomou ainda mais corpo a partir de 2007, quando o grupo comprou a americana Swift Foods Company, depois batizada de JBS USA, e 50% da italiana Inalca, uma das maiores produtoras de carnes da Europa. Um ano depois, o JBS incorporou a National Beef e a Smithfield, dos Estados Unidos, e a Tasman, da Austrália. No ano seguinte, o grupo brasileiro comunicava a compra de 64% do capital de outro gigante global, a Pilgrim’s Pride Corporation, a maior empresa de avicultura do mundo. A bem-sucedida política de aquisições internacionais só não foi melhor porque o JBS teve de sair da Inalca, no início deste ano, pela intransigência dos italianos em aceitar o nome indicado pela família Batista para conduzir a empresa.

Quando se mudou para o Texas, Wesley levava na bagagem a missão de reorganizar os negócios internacionais e imprimir-lhes o jeito JBS de ser. Uma cultura que ele conhece como poucos. O difícil era transmiti-la aos funcionários e executivos americanos, pois, não bastasse a aridez de uma terra desconhecida, com hábitos tão diferentes do Brasil, Wesley não falava uma palavra sequer em inglês. “Sabe qual era o meu maior medo? Que o telefone tocasse. Eu não ia saber atender”, lembra o empresário, sem nenhum sinal de constrangimento. E, como bom Batista, Wesley correu atrás. Primeiro recrutou um funcionário que fala inglês fluentemente para ser seu intérprete. Como a situação não poderia perdurar, contratou uma professora de inglês. Não deu certo e Wesley foi à luta sozinho. Não só aprendeu o idioma como fez a apresentação dos resultados de 2010 para analistas internacionais em inglês e foi um dos poucos empresários brasileiros convidados para o almoço de boas-vindas ao presidente Barack Obama, oferecido pela presidente Dilma Rousseff, em Brasília. Nada mal para um jovem “cowboy”.

Império de marcas

Segmentos de atuação do grupo JBS e principais produtos

Carnes

Total de marcas: 13

Marcas: Swift, Maturata, Apeti, Bertin, Friboi, Organic Beef, Cabaña las Lilas, Anglo, Tama, Bordon, Sola, Marca Target, Hereford

Lácteos

Marcas: Vigor, Leco, Faixa Azul, Serrabella, Mesa, Amélia, Carmelita, Danúbio, Franciscano

Higiene e limpeza

Marcas:BioBriz, Lavarte, Minuano

Outros negócios

Marcas:JBS Couros, Funpet (ração para

animais), JBS Latas, NovaProm

(colágeno), JBS Biodiesel, JBS

Transportadora, Swift e Anglo (vegetais)

Os quatro anos que Wesley passou longe do Brasil não significam quatro anos longe dos negócios da família. “Os irmãos trabalham afinados sob a batuta do pai”, diz um executivo próximo à família Batista. Ainda assim, é uma mudança e o mercado tem perguntado o que significa, na prática, essa troca de comando. O próprio Wesley afirma que da porta para fora não muda nada. “Vamos continuar nos aproximando dos produtores, nossos fornecedores, e trabalhar em conjunto com toda a cadeia”, diz o empresário. A grande mudança virá da porta para dentro. “Chegou o momento de integrar a operação global. Minha volta para o Brasil é o caminho natural porque conheço bem aqui e lá”, afirma, acrescentando que o movimento foi necessário também para que o irmão Joesley, agora presidente do conselho de administração do grupo, possa se dedicar à incorporação do recém-adquirido Banco Matone. Os Batista, que controlam o Banco JBS por meio da J&F Participações Financeiras, anunciaram a fusão com o banco gaúcho no início de março.

No pregão: com o lançamento de ações no BM&FBovespa, em 2007, o conglomerado obteve os recursos necessários para alavancar parte de sua expansão internacional

primogenito:

Júnior é considerado o mais político dos irmãos Batista

Financista:

Joesley sempre foi bom na matemática, segundo o pai

O que Wesley entende por arrumar a casa representa uma profunda revisão das práticas operacionais do grupo passando pela política de exportação. E ele mesmo dá o exemplo: o JBS hoje exporta carne para a Rússia, a partir dos frigoríficos nos Estados Unidos, no Brasil e na Argentina. “Vou avaliar se não é melhor a Argentina vender para o Chile e deixar o Brasil e a Austrália vender para o mercado russo.” No capítulo boas práticas, Wesley quer importar e exportar excelência em áreas específicas, boa parte dela encontrada no interior das subsidiárias do próprio grupo. “Na Austrália, por exemplo, temos a melhor planta de graxaria. Precisamos replicar esse modelo para as demais unidades.” Nos Estados Unidos, diz ele, estão as melhores práticas de confinamento de gado, com um milhão de cabeças. “Essa é uma área em expansão em todo o mundo”, afirma Wesley. “A tecnologia que temos nos Estados Unidos é uma das mais avançadas e vamos ver como podemos adotar o modelo nas demais unidades.” De acordo com Wesley, o JBS dispõe de R$ 1 bilhão, aproximadamente, só para investimentos em melhorias internas.

Um homem e suas histórias

Quando abriu um açougue em Anápolis, no interior de Goiás, lá pelos idos de 1956, José Batista Sobrinho, mais conhecido como Zé Mineiro, jamais imaginou que estaria dando origem ao maior frigorífico do mundo. Avesso a entrevistas, seu Zé Mineiro, hoje com 77 anos, abriu uma exceção para dois dedos de prosa com a DINHEIRO RURAL. Além dos causos que acumulou ao longo da vida, o empresário gosta de um assunto em particular: os filhos que o ajudaram a forjar um império com faturamento na casa dos R$ 55 bilhões.

Seus filhos lhe deram muito trabalho, “seu Zé”? Trabalho nenhum. Todos eles sempre foram muito trabalhadores. Cada um com seu jeito. O Júnior (José Batista Júnior), que é o mais velho, sempre me ajudou. Ele me deu muito apoio.

Eles são muito diferentes um do outro? O Júnior é mais político. De uma paciência sem fim. Tem muito jogo de cintura. O Wesley é o farejador. Ele fareja um bom negócio a quilômetros de distância. Ele é da carne, gosta e entende de frigorífico. O Joesley é o menino das finanças. Ele é muito bom com os números. Eu não tenho do que reclamar dos meus filhos. São cinco. Três meninos e duas meninas, que também trabalham aqui com a gente. Nenhum deles me deu nada de trabalho.

E o sr., aos 77 anos, continua trabalhando. Vem todos os dias aqui (na sede da JBS)? Todo dia. Se eu não venho pra cá, vou pra onde? Eu não sei fazer outra coisa. Só sei trabalhar. Comecei com 12 anos, ajudando meu pai.

O Wesley disse que o sr. nunca dá a última palavra. Por quê? Porque eu já vi muito homem rico perder toda a fortuna porque os filhos não sabiam o que fazer quando o pai não estava. Sempre fiquei por perto. Sempre escutei, mas em vez de mandar eu perguntava o que eles achavam que era certo. É assim que se aprende e eles aprenderam.

O sr. era um daqueles empresários que tinham medo do governo Lula? Era sim. Tive medo, mas depois vi que ele foi um ótimo presidente. Um dos melhores que o Brasil já teve. Virei fã desse rapaz.

E a Dilma? O que o sr. está achando do governo Dilma? Outro dia vi a entrevista dela, na Hebe Camargo e gostei muito do que escutei. Ela é determinada, está empenhada em fazer um bom governo, e acho que está no caminho certo.

O que falta para o Brasil, seu Zé? Educação e saúde. No resto, a gente está indo muito bem.

A GIGANTE BRASILEIRA

O tamanho do grupo no mundo

Número de fábricas 53

Abatedouros 64

Confinamento 22

Centros de distribuição 59

Escritório comercial 07

Total de funcionários 125

mil

O momento de “arrumação da casa” não significa, no entanto, que o JBS vá botar um freio em sua agressiva política de aquisições. “O que muda é a maneira de expandir os negócios”, diz Wesley . Segundo ele, a partir de agora, ao JBS interessam apenas empresas e marcas que possam agregar valor. “Não adianta ter um bom frigorífico que não tenha um bom sistema de distribuição. Nem uma marca, em qualquer área, que não traga valor ao nosso negócio.” A pergunta que não quer calar é: a divisão de carnes da Sara Lee, marca americana de alimentos, continua no radar do grupo? “Qualquer empresa que se enquadre nas nossas necessidades está no radar, inclusive a Sara Lee. Mas, sinceramente, minha mulher já anda perguntando quem é essa Sara Lee de tanto que o povo fala do meu interesse por ela”, brinca o empresário.De fato, desde meados de 2010 jornais do mundo inteiro falam em um possível casamento entre o JBS e a divisão de carnes da empresa americana. Segundo uma fonte próxima aos Batista, as duas partes chegaram a conversar, mas o negócio teria emperrado numa abrupta disparada no valor das ações da companhia americana.

PAÍSES NOS QUAIS O JBS TEM PRESENÇA

Com as mudanças na cúpula do JBS, Joesley Batista, que agora preside o conselho de administração do grupo, vai se dedicar à integração do Banco JBS e Matone. O primeiro é especializado no financiamento a pecuaristas. Já o Matone é um banco com forte presença no crédito consignado. A fusão das duas marcas criou um banco com patrimônio estimado em cerca de R$ 400 milhões com uma carteira de crédito ao redor dos R$ 3 bilhões. Enquanto Wesley organiza as operações do JBS, Joesley cuida do banco e da entrada dos Batista em outros ramos. No ano passado, eles abriram uma empresa de tratamento de couro e também uma fábrica de celulose. “Os meninos sempre foram muito trabalhadores”, diz José Batista Sobrinho sobre a prole. E, ao que tudo indica, para os meninos de seu “Zé Mineiro”, não há limites para imprimir as iniciais do patriarca.