Tecnologia

Big Brother da plantação

Satélites, mapas e sistemas de informações geográficas são ferramentas utilizadas para aumentar a produtividade no campo

 

Imagine mapear toda a área produtiva de sua fazenda com direito a uma imagem diária da produção e acessá-la, por exemplo, no smartphone. Esse sistema vem sendo cada vez mais utilizado no campo brasileiro. O movimento tecnológico que começou há dez anos, quando a tecnologia saiu das mãos da Nasa e ganhou o acesso global, agora cresce aos olhos de empresas do segmento de tecnologia e informação. Uma delas é a Imagem, de São José dos Campos (SP). Ela oferece soluções de tecnologia e informação espacial, como softwares, imagens de satélites de alta resolução e mapas territoriais. “Antes do mapeamento por satélite, os estudos das áreas eram realizados por métodos tradicionais, que demandavam tempo e estavam sujeitos a imprecisões”, diz Lúcio Graça, sócio e diretor da Imagem. Segundo Graça, hoje já é possível mapear a área e transmitir por meio de um programa tudo o que o produtor precisa. “O monitoramento constante das lavouras permite a gestão da produção, como estimar a quantidade de adubo e pesticida, além de planejar a logística da empresa e até investir em mercados futuros”, afirma.

Com as imagens coletadas via satélite é possível enxergar o que os olhos não vêem. Há programas que permitem que as imagens sejam vistas com um nível de detalhe de dois metros, fornecendo ainda informações sobre a condição da cultura e saúde vegetal. “Já é possível, em pouco tempo, identificar alguns problemas tão logo eles ocorram”, diz Graça. “Reconhecer o início do registro de uma seca ou de incêndios é um deles.” Entre os clientes da Imagem estão grandes grupos, como o Louis Dreyfus, Raízen e Bunge. Em geral, essas empresas investem algo em torno de R$ 2 milhões, por ano, na utilização do sistema. “Tudo depende da aplicação e se haverá a utilização de todos os recursos, que são os satélites, o mapeamento de área e o banco de dados”, diz. Só com essa tecnologia a Imagem faturou, no ano passado, R$ 70 milhões.

 

“Antes do mapeamento por satélite, os estudos das áreas demandavam tempo”

Lúcio Graça, sócio e diretor da Imagem

 

Foi de olho nessa inovação tecnológica que o Centro de Tecnologia Canavieira, de Piracicaba (CTC), que atua na área de pesquisa e desenvolvimento, elaborou, em parceria com a Imagem, o projeto batizado de CTCSat. Por meio dele, é realizado o mapeamento e o monitoramento das áreas de produção de cana. “Temos conseguido realizar um diagnóstico precoce de ocorrências, como doenças, assim como a racionalização de aplicação de agroquímicos, o que impacta na redução de custo”, diz Wander José Pallone Filho, pesquisador do CTC. Até o momento, o projeto mapeou 30 mil hectares. “Com essas informações em mãos, os produtores conseguem realizar um planejamento antecipado”, afirma Pallone Filho.

A Suzano Papel e Celulose é outra empresa que também apostou no uso dessa tecnologia. Em 1989, o grupo investiu em geotecnologia, quando foi criada a primeira base de cartografia, com a confecção de mapas de todas as suas propriedades no Estado de São Paulo. Hoje, a Suzano utiliza a tecnologia da Imagem para monitorar a produção de eucalipto. “Nossa atividade requer o uso de recurso natural, das madeiras e terras para a produção. Por esse motivo, a obtenção e o controle de informações espaciais são fundamentais para a nossa produção”, diz Maurício Penteado, gerente executivo da Unidade de Negócio Florestal da Suzano. Além disso, a empresa monitora suas áreas de preservação ambiental.

 

AgroTools: área de atuação – pecuária, grãos, floresta, energias renováveis, avaliação de ativos e produção primária sustentável

 

A sofisticação tecnológica trazida por essa espécie de Big Brother não se restringe à produção agrícola. A AgroTools, de São José dos Campos (SP), que oferece aos seus clientes o mapeamento como ferramentas de gestão, análise e monitoramento de riscos, levou a novidade para a pecuária, desenvolvendo projetos de rastreabilidade da carne. “Com essas ferramentas, além de rastrear o boi, do nascimento ao abate, também analisamos as terras para a atividade”, diz Breno Felix Silva, diretor da Agrotools. “Além das imagens por satélite, também radiografamos a propriedade, identificando os riscos de um modelo de produção.” Na carteira de clientes da Agrotools pontifica a Agropecuária Santa Bárbara, que possui 500 mil cabeças de gado no Estado do Pará. “Por meio de um novo sistema adotado com imagens de radar, eles conseguiram mapear áreas que com o satélite era impossível alcançar”, diz Breno.

As informações obtidas por imagens de satélite são empregadas não só para aumentar a produtividade das safras e do rebanho mas também para os outros elos da cadeia do agronegócio, como traders de commodities, gestores de logística e de abastecimento de alimentos, produtores e investidores. Nesse mercado, literalmente, o céu é o limite.

Imagem: área de atuação – agricultura e florestas