Tecnologia

Bioquerosene, o combustível a jato

Pioneiro mundial no desenvolvimento do biodiesel, o cearense Expedito Pessoa agora trabalha no aperfeiçoamento do bioquerosene

Ele já foi chamado de louco, mas agora está prestes a entrar para a história. Mais uma vez. Envolvido desde o início na produção dos biocombustíveis, nos anos 70, o engenheiro químico Expedito Pessoa foi o primeiro cientista a conseguir a patente do biodiesel e do bioquerosene no mundo, mas neste momento vem se preparando para vôos ainda mais altos. Literalmente. Após mais de 20 anos, o cearense voltou aos laboratórios (agora em parceria com empresas do porte de Boeing, Rolls Royce e Nasa – Agência Espacial Norte-Americana) e quer tornar viável o uso comercial do bioquerosene.

EXPEDITO PESSOA acredita que o novo combustível estará pronto para uso comercial em dois anos

Sua aventura começou em 1980, em uma visita ao Centro Técnico Aeroespacial, em São José dos Campos. Nesta época, ele, que foi um dos pioneiros no desenvolvimento do álcool no Brasil, havia acabado de patentear o biodiesel, mas, devido ao pouco interesse pelo combustível na época, deixou sua invenção de lado e passou a se dedicar ao desenvolvimento do bioquerosene. Quatro anos depois, concluiu suas pesquisas e realizou o primeiro teste com o combustível ecológico, quando um avião militar Bandeirante voou de São José dos Campos a Brasília sem apresentar qualquer problema. “Depois disso o programa sofreu um processo de interrupção, porque na época não havia preocupação com as questões ambientais nem com a falta do petróleo. Mas agora tudo está sendo retomado”, explica o cientista, lembrando que o bioquerosene utilizado na época era bem diferente dos utilizados nos dias de hoje. E é justamente por isso que está de volta, disposto a desenvolver um combustível ainda melhor.

“Nesses 25 anos houve uma evolução muito grande no setor aeronáutico. Então estamos desenvolvendo e testando novamente o bioquerosene nos aviões mais modernos. Estamos mobilizando todo o universo aeronáutico, como fabricantes de aviões, fabricantes de turbinas, distribuidores de querosene e centros de pesquisas aeronáuticos, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos”, diz, empolgado, Pessoa. Ainda de acordo com o professor, o novo bioquerosene, feito a partir de óleos vegetais com características similares às do querosene mineral, deve estar pronto para uso comercial em no máximo dois anos, quando surgirá a terceira onda dos biocombustíveis no Brasil – depois do etanol e do biodiesel – e será responsável por abastecer as turbinas dos grandes aviões nos cinco continentes.

Mesmo pouco divulgado, o trabalho desenvolvido pelo professor Expedito Pessoa é de extrema importância para o Brasil, pois, além de preservar o meio ambiente e poupar petróleo, ainda tem um lado social muito forte. Com a produção de bioquerosene a todo vapor, comunidades pobres do Nordeste poderão trabalhar no cultivo em grande escala do pinhão-manso e da mamona, principais matérias-primas do novo combustível, e melhorar sua qualidade de vida.