Tecnologia

Ensinando a a planta pescar

Pesquisa mostra que é possível uma cultura aumentar a captura no ar de nitrogênio, um dos principais componentes dos fertilizantes

Ensinando a a planta pescar

O escultor espanhol José Guerra, nascido em Madrid, passou a vida criando peças de bronze. Participou de exposições na Alemanha, nos Estados Unidos e em sua terra natal, além de expor seu trabalho no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Mas a paixão pela escultura se misturou com a bioquímica quando o artista passou a estudar o uso de reagentes metálicos. Com mais de 20 anos dedicados à pesquisa em laboratório próprio, Guerra – dono da LBE Biotecnologia, de São José, município da Grande Florianópolis – fez uma descoberta que promete chacoalhar o mercado de fertilizantes: ele aprendeu a sintetizar aminoácidos a partir de matéria-prima inorgânica e criou um biofertilizante com essas moléculas. “É uma tecnologia revolucionária, que pode substituir a aplicação de ureia nas plantas e ajudar a produzir alimentos de maneira mais inteligente”, diz.

A pergunta que mais intrigava Guerra era como as plantas captavam o nitrogênio da atmosfera. Em simbiose com bactérias que colonizam suas raízes, as plantas produzem aminoácidos que “alimentam” essas bactérias. A planta ativa uma enzima chamada nitrogenase e, em troca, recebe o nitrogênio que é fixado no solo pelas bactérias. No entanto, segundo Guerra, essa “parceria” é ineficiente e não sustenta a planta durante todo o seu ciclo de vida. Para ele, em vez de aplicar fertilizantes que suplementam as plantas, a solução seria “ensiná-las” a absorver o nitrogênio por conta própria da atmosfera, já que esse nutriente corresponde a mais de 70% da composição do ar. “Em vez de dar o peixe para a planta, ensinamos a pescar”, diz Guerra.

O pesquisador desenvolveu o que chama de “uma sopa de íons metálicos e aminoácidos”, uma tecnologia exclusiva da LBE, batizada de Green Factor. “Essa sopa funciona como um reagente e faz a planta buscar nitrogênio naturalmente”, diz Guerra. Apresentado na forma líquida, o produto é irrigado no plantio e, a partir daí, atua na planta durante todo o seu ciclo de vida. Guerra diz que a tecnologia traz economia e ganhos logísticos no transporte e na aplicação de fertilizante. “Cinco litros são suficientes para 60 litros de água e substituem 500 quilos de ureia”, afirma o pesquisador. O produto, que promete concorrer com os fertilizantes nitrogenados – à base de ureia, nitrato de amônia e sulfato de amônia –, está em fase de testes em lavouras de tabaco, soja e milho, em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul e na Bahia. Esse mercado movimentou cerca de R$ 34 bilhões em 2013, com a venda de mais de 29 milhões de toneladas de fertilizantes no País, segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda).