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Genética de primeira

Selecionadores de nelore criam um novo programa de melhoramento da raça, em busca de animais superiores

Genética de primeira

Divulgação

Nos últimos meses, a vida do engenheiro agrônomo Arnaldo Eijsink anda agitada. Como diretor do grupo francês JD, controlado pelos herdeiros do magnata Jacques Defforey, um dos fundadores da rede de supermercados Carrefour, dono de fazendas de gado em Mato Grosso, Eijsink tem tido pouco espaço na agenda para o seu hobby de restaurar veículos antigos na garagem de sua casa, em Holambra, interior paulista. Quase todo o seu tempo tem sido gasto no desafio de colocar de pé a Companhia de Melhoramento, um novo programa de seleção genética para bovinos de corte, no qual, além da São Marcelo, nome das propriedades localizadas nos municípios de Tangará da Serra e Juruena, participam outras 60 fazendas. Embora o trabalho esteja apenas no início, no grupo não há novatos em pecuária de seleção. Na verdade, essas fazendas de nelore são dissidentes do tradicional Programa de Avaliação e Identificação de Novos Touros (Paint), criado em 1994, pela central de inseminação Lagoa da Serra, de Sertãozinho (SP), atual CRV Lagoa. “Vínhamos pedindo para a CRV Lagoa ampliar e acelerar o programa, mas não aconteceu e resolvemos sair de forma amistosa”, diz Eijsink.


“Para os próximos dois anos queremos dobrar o nosso o plantel de fêmeas” Arnaldo Eijsink,diretor do grupo francês JD

Na lista dos dissidentes constam selecionadores de peso na raça nelore, como o empresário e agrônomo Dalton Heringer, dono dos Fertilizantes Heringer, com sede em Viana (ES), a agropecuária Angico (MT), e a Vera Cruz Agropecuária (TO), todas com mais de duas décadas de atuação na área de seleção. De acordo com Eijsink, um dos principais motivos para a mudança é que no programa da CRV Lagoa os produtores não tinham o controle da venda do sêmen de seus animais. Além disso, a escolha de touros, para terem os seus filhos avaliados pelo Paint, era considerada limitada pelos criadores, porque estavam impedidos de utilizar animais de fora do programa. Cada nelorista tinha à disposição cerca de 150 reprodutores, por safra. “Com a Cia, faremos com que isso não ocorra mais”, diz Eijsink. “Agora, o criador pode buscar o sêmen que vai usar na vacada, onde preferir.” Os reprodutores avaliados pelo Paint, assim como os animais da Cia são vendidos no mercado com Certificado Especial de Identificação e Produção (Ceip), concedido pelo ministério da Agricultura. 


“O novo projeto pode ganhar velocidade, rapidamente, na seleção de nelore” Marcelo Oliveira,sócio da consultoria Produção Profissional

O novo projeto de melhoramento genético nasceu com 40 produtores, titulares do grupo de fazendas localizadas em 13 Estados, além de criadores na Colômbia e no Paraguai. O rebanho de matrizes soma 50 mil animais e a produção de touros avaliados chega a quatro mil, por safra. “Sabemos que o desafio é grande, mas estamos prontos”, afirma Eijsink. “Nossa meta é ousada, pois para os próximos dois anos queremos dobrar o nosso plantel de fêmeas.” Segundo ele,  a ideia dos produtores é ampliar a quantidade de matrizes para disputar, com os seus filhos vendidos como reprodutores, um mercado com potencial para movimentar mais de R$ 2 bilhões, por ano.

Para atingir a meta de 100 mil vacas, e ainda estruturar a parte técnica do programa, o grupo contratou um departamento especializado. A equipe de veterinários é comandada pelo mestre em reprodução animal Marcelo Almeida Oliveira, sócio da empresa de consultoria Produção Profissional, de São José do Rio Preto (SP), que já trabalhou por duas décadas para o Paint.  “O diferencial do novo projeto é que ele pode ganhar velocidade, rapidamente, na seleção de nelore”, diz Oliveira. “Isso deve acontecer porque os produtores têm um domínio e conhecimento total de todo o processo.”

Com as primeiras diretrizes tomadas, o grupo de pecuaristas quer correr, agora, para atingir uma meta que não é nada fácil. O desafio é que todas as fazendas consigam produzir em seus rebanhos comerciais destinados ao abate, bois que cheguem a 20 arrobas, ante a média nacional de 18 arrobas, até os 24 meses de idade apenas alimentados com pastagem. No próximo ano, a meta para a mesma idade passa a ser de 21 arrobas. Entre as fêmeas destinadas à reprodução, o projeto é emprenhá-las aos 14 meses e que, no ano seguinte, na reconcepção, elas não percam a fertilidade. “Estamos focados em produzir mais, em menos tempo”, diz Oliveira. “Assim, podemos competir com a agricultura.”