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Guaraná: cada planta, uma história

Para produzir a fruta, a Ambev incorpora os hábitos da cultura extrativista da Amazônia e investe em novas técnicas de plantio

Ovolume de sacas de soja colhidas em um hectare de terra é a medida mais confiável para determinar a produtividade de uma lavoura. Idem, no caso da pecuária, em que a medida que vale são os quilos de carne produzidos no mesmo espaço. Válida para praticamente todas as atividades no setor primário, a comparação da produção em função dos hectares ocupados, comum na agricultura moderna, não vale quando se trata do guaraná da Amazônia, a fruta nativa que depois de processada se transforma na matéria-prima para o refrigerante. “Na Amazônia, vale o que cada pé de planta produz”, diz Edvaldo Galletti, gerente da fábrica Arosuco, de Manaus. “Não existe conta por hectare, na floresta.” A unidade produz concentrados de refrigerante para a Ambev, dona de marcas de cervejas como Skol, Brahma e Antarctica e também do guaraná Antarctica. A marca está em um milhão de pontos de venda no País e detém 40% do mercado da bebida.

A receita da Ambev para aumentar a produção de guaraná e respeitar o cultivo tradicional da fruta, começa em Maués. O município está localizado no baixo Amazonas, à beira do rio Maués-Açu, e aonde só se chega de barco, depois de 20 horas de viagem, ou de hidroavião, em uma hora. Desde a década de 1970, a fazenda Santa Helena, de mil hectares, funciona como um laboratório natural a céu aberto. “Mas, agora, para produzir mais, estamos desafiando a natureza dentro de suas próprias regras”, diz Galletti. Na Floresta Amazônica, a produção por planta nativa é de meio quilo de fruta por ano. Em áreas de cultivo e com plantas melhoradas, porém, já há pés de guaraná produzindo até sete quilos de frutas por safra. “São essas que nos interessam”, diz Galletti. A média está em pouco mais de três quilos.

As mais recentes pesquisas provocaram duas modificações significativas no cultivo do guaraná. A primeira é o plantio por estaquia e não mais por sementes, como faziam os índios e os antigos colonizadores da área. A segunda é o adensamento da cultura. Em um hectare, onde eram plantados de 300 a 400 pés da fruta, hoje cabem 500 pés. “Para adensar o guaraná, copiamos a técnica dos cafezais”, diz a agrônoma Miriam Figueiredo, gerente da fazenda. O projeto de adensamento começou em 2011. A busca por plantas mais produtivas veio um pouco antes. O agrônomo Roosevelt Hadan Leal conta que a seleção mais intensiva do guaraná começou em 2007, em parceria com a Embrapa Ocidental, unidade que fica em Manaus. As pesquisas apontaram três novas variedades: a BRS Maués, BRS Amazonas e a CG882. “Estamos utilizando a metade da área para produzir quatro vezes mais”, diz Leal. “As variedades estão sendo utilizadas para a renovação dos guaranazeiros da região.”

Para a Ambev, a busca pelo guaranazeiro mais produtivo pode ajudar na produção da própria fazenda, que abriga 70 mil pés da fruta, e também a mudar a vida de cerca de 2,5 mil famílias da região. Por safra, os produtores entregam 300 toneladas de grãos da fruta para a fabricante de bebidas. No ano passado, a Ambev pagou R$ 21 milhões pela matéria-prima. O volume supre quase 80% da demanda da empresa. “Compramos tudo o que chega na fábrica de Maués”, diz Sérgio Leite, gerente da unidade de extrato da fruta. “Por isso, quanto mais qualidade tiver o guaraná, mais fácil será a torra do grão nas propriedades e o processo na fábrica.”

Desde 2003, a Ambev vem desenvolvendo em Maués um amplo projeto em parceria com o governo do Estado, chamado Zona Franca Verde. Até o final deste ano, a empresa terá investido R$ 70 milhões em obras na região, que vão da construção de casas a campeonato de futebol e formação de músicos para a orquestra da cidade. Mas, o cartãopostal do projeto é o trabalho direto com os produtores de guaraná, iniciado em 2007.

A Ambev criou 12 polos agrícolas, cada um com um técnico para acompanhar os produtores. O índio Ernandes Pereira Barbosa é um desses técnicos. Barbosa e sua lancha voadeira, como são chamados os barcos rápidos que cruzam os rios da Amazônia, visita todos os produtores pelo menos uma vez a cada duas semanas. O acompanhamento vem levando os produtores a investir nas plantas produtivas e a erradicar as improdutivas. “Não era costume fazer isso”, diz Barbosa.

O produtor Natanael dos Santos Menezes, dono do sítio Raio de Sol, de 36 hectares na beira do rio Urupadi, cultiva seis hectares de guaraná. Na safra 2012, ele colheu quase 900 quilos da fruta. “Antes de conhecer a Ambev plantava dois hectares, mas quero chegar a cinco toneladas da fruta”, diz Menezes, que cultiva a fruta desde 2004, influenciado pelo sogro Francisco Alves Pereira. Pereira é dono de 50 hectares há mais de 20 anos e também produzia muito pouco. Em sete hectares, ele tirava cerca de uma tonelada do guaraná. Nos últimos três anos, Pereira começou a substituir as plantas velhas. “Quero chegar a três toneladas de guaraná já na safra deste ano”, diz Pereira. “Com mudas melhores e compra garantida, é fácil ir em frente.”