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Noé high tech

Preocupados com o futuro do planeta, noruegueses estão construindo o maior banco de sementes do mundo

“Visamos conservar a diversidade de espécies, que podem ser extintas em caso de desastres”

CARY FOWLER, diretor executivo da Global Crop Diversity Trust

O Pólo Norte sempre foi conhecido como a morada do Papai Noel, mas esta imagem está prestes a ser mudada por outra que mais se assemelha à de uma arca de Noé. No lugar dos casais de animais que Noé colocou na arca para preservar cada espécie, de acordo com o Velho Testamento, estão algumas toneladas de sementes. Sim, sementes de todos os tipos encontradas no planeta, um dos projetos mais ambiciosos de preservação da vida vegetal já produzidos e que tem lugar no extremo norte da Noruega. Trata-se do Global Seed Vault. Localizado no arquipélago de Svalbard, o armazém que sedia o projeto deve ficar pronto no início de 2008 e terá capacidade para abrigar três milhões de amostras e até 1,5 bilhão de sementes. E o melhor: com a mais alta tecnologia existente.

TÚNEIS NO GELO: o Global Seed Vault está sendo construído no extremo norte da Noruega e terá capacidade para armazenar até 1,5 bilhao de sementes

De acordo com a Global Crop Diversity Trust, entidade responsável pelo projeto, a idéia da Global Seed Vault é preservar amostras do maior número possível de espécies, uma vez que, devido às mutações naturais e mudanças no clima terrestre, muitas espécies vêm desaparecendo. Os cientistas usam a China para provar sua teoria. Segundo os especialistas, os chineses cultivavam mais de dez mil espécies diferentes de trigo em 1949. Cerca de 20 anos depois, o número já havia sido reduzido a pouco mais de mil.

O depósito está sendo construído nas montanhas de Svalbard e foi planejado para receber amostras de colecionadores de todo o mundo. As sementes, no entanto, só poderão ser acessadas quando as cópias originais forem perdidas. A justificativa é que muitas destas coleções estão em países em desenvolvimento e correm o risco de se perder em caso de desastres naturais, guerras ou até mesmo falta de recursos. Ao final do projeto, mesmo que ocorressem desastres, as espécies poderiam ser reproduzidas futuramente usando as amostras do Global Seed Vault. “Nossa intenção é ser uma rede de segurança para os bancos de sementes de todo o mundo, inclusive os do Brasil”, conta a DINHEIRO RURAL, com exclusividade, o diretor executivo da Global Crop Diversity Trust e coordenador do programa, Cary Fowler. “Visamos conservar a diversidade de espécies, que podem ser extintas em caso de um desastre, como guerras, ataques nucleares e outras coisas deste tipo, destruindo também os bancos de sementes em muitos lugares, como recentemente no Afeganistão e Iraque.”

O material será armazenado em pacotes selados a vácuo, depois guardado em outras embalagens também seladas e mantido a uma temperatura de 18 graus negativos dentro do armazém. A baixa temperatura e o oxigênio restrito manterão as sementes com o metabolismo baixo e retardarão seu envelhecimento. Mesmo com a armazenagem especial, algumas sementes podem se tornar inférteis após algumas décadas. Por isso, está previsto um “replante” para colheita de novas amostras.

O arquipélago de Svalbard foi escolhido principalmente por sua localização. Próximo do Pólo Norte, o local tem clima e geologia perfeitos para este tipo de armazenamento. A área também tem baixo nível de radiação, fundamental para a manutenção do DNA das plantas.

Segundo especialistas, o Seed Vault, que custou US$ 7,7 milhões de dólares ao governo norueguês, será de extrema importância para as gerações futuras, que terão acesso a frutas e verduras que possivelmente estarão extintas nas próximas décadas. Vale lembrar que dos mais de 7 mil tipos de plantas já utilizadas na alimentação humana, existem menos de 150 espécies.