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O salto contra a morte

O Brasil se prepara para proteger do mormo os equinos que participarão dos Jogos Olímpicos de 2016. Essa doença leva ao sacrifício dos animais

O salto contra a morte

Super atleta: segurança sanitária é primordial para cavalos de competição Divulgação

Construído em 2004 para abrigar o Pan-Americano de 2007, o Parque Olímpico de Deodoro, na Zona Oeste da capital fluminense, será palco mais uma vez do atletismo internacional, com os Jogos Olímpicos Rio 2016, o maior evento esportivo do planeta, em agosto do próximo ano. Mas nos esportes equestres, o parque não será apenas cenário das disputas de hipismo. Ele será também uma fortaleza, na qual os animais poderão circular protegidos de doenças, entre elas o mormo, uma das mais temidas enfermidades que podem acometer a espécie. “Deodoro terá uma zona de quarentena para o monitoramento dos cavalos atletas”, diz o médico veterinário Egon Vieira, chefe da Divisão de Sanidade dos Equídeos, do Ministério da Agricultura (Mapa). “Ao entrar e sair da quarentena, todo animal deverá apresentar resultado negativo para a doença.” Considerado área livre de mormo, o Rio de Janeiro já recebeu o aval dos Estados Unidos e da União Europeia, locais onde a doença já foi erradicada, tornando-se uma espécie de porto seguro para os competidores.

Com o risco zero de contaminação assegurado no Rio de Janeiro, o Brasil passa, agora, a atuar mais fortemente nos outros Estados. A medida faz parte do plano de contenção da enfermidade, que pode estar se alastrando pelo País. Causado pela bactéria Burkholderia mallei, o mormo é uma doença que não tem cura. O único método de controle é o sacrifício dos animais infectados. A zoonose foi dada como erradicada em 1968, mas, desde que ressurgiu no Nordeste, no início da década passada, e mais um caso foi registrado em São Paulo em 2008, a possibilidade do retorno da doença tem causado preocupação, especialmente entre donos de cavalos de alto rendimento, animais que podem ser cotados na casa do milhão de reais.


Controle:para o veterinário Egon Vieira, do Mapa, a doença está bem monitorada atualmente

Segundo o especialista do Mapa, desde 2004, com a obrigatoriedade do exame de diagnóstico para os animais em trânsito, com validade de dois meses e sempre acompanhado da Guia de Trânsito Animal (GTA), a atuação dos agentes de saúde animal pôde ser mais efetiva no controle da doença. “Com isso, passamos a ter um melhor monitoramento dos casos”, diz Vieira. Mesmo assim, no ano passado, 80 focos foram identificados em 17 Estados, nos quais 205 animais tiveram a doença confirmada. Apesar desse número de animais ter quase triplicado, na comparação com 2012, o especialista afirma que a doença está sob controle. “Desde janeiro, o governo está investindo em diagnosticar o morno rapidamente, num trabalho conjunto com as secretarias estaduais de defesa animal”, diz Vieira.

Para o médico veterinário Thomas Wolff, diretor veterinário da Confederação Brasileira de Hipismo (CBH), foi justamente esse monitoramento mais refinado nos Estados que viabilizou a promoção segura dos Jogos Olímpicos. “A medida foi um passo muito grande em benefício do rebanho de equinos”, diz Wolff. “Controlar a doença e demarcar as regiões nas quais há focos é fundamental.”


Vigilância: para o veterinário Thomas Wolff, da CBH, é importante evitar competições equestres em áreas vizinhas de focos confirmados da doença

Esse trabalho tem respaldado a entidade em sua programação de eventos hípicos, com 47 provas nacionais por ano. Nas últimas temporadas nenhuma competição foi cancelada em função da doença.  Porém, quando há um registro de foco, como aconteceu no final de abril, no município de Bela Vista, em Mato Grosso do Sul, a CBH recomenda que a região seja interditada. “É melhor não realizar eventos nas cidades vizinhas ao foco, até que a situação esteja sob controle”, diz Wolff. Entre os sintomas mais comuns do mormo, que pode ser transmitido pelo contato de um animal com outro, estão a presença de nódulos nas mucosas nasais, catarro, tosse e pneumonia. Mas, segundo Viera, podem se passar anos, sem que a doença se manifeste num equino contaminado. “Ela é crônica, o que significa que um animal pode não apresentar sintomas logo que se contamina”, diz Vieira. Por isso, o controle mais indicado pelo Mapa é a realização de exames periódicos da tropa, especialmente dos animais que transitam de um Estado a outro.