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Prazer, Doutor Etanol

Cientista da Unicamp cria novo método de fermentação na produção de etanol que leva ao aumento de produtividade

NOVA TÉCNICA Modelo permite fazer uma vinhaça mais densa e a produção de um etanol mais concentrado, logo no início do processo

Um novo método de fermentação da cana, desenvolvido pelo laboratório de bioenergias da Universidade de Campinas, promete revolucionar a produção de etanol no País. O novo sistema, desenvolvido pelo pesquisador Daniel Atala, permite a produção de uma vinhaça três vezes mais densa, o que significa uma economia de 70% nos custos de transporte desse resíduo, além de triplicar a produtividade. A novidade nasceu de uma outra pesquisa, iniciada pelo orientador de Atala, professor Francisco Maugeri, anos atrás. Do mesmo laboratório, aliás, nasceu o sistema de produção contínua, utilizado em larga escala nas usinas brasileiras. Mas na prática o modelo tornará possível a uma caldeira de 300 mil quilos fazer o trabalho de uma peça para um milhão de toneladas. Mágica? Tecnologia pura.

O sistema parte da premissa de que o etanol contido no caldo extraído da moagem da cana evapora mais rápido do que água. A partir desse conceito começou a se desenvolver um sistema capaz de acelerar esse processo por meio de uma câmara de vácuo instalada depois da caldeira. “Quanto menor a pressão atmosférica, o álcool evapora mais rápido e com isso conseguimos essa evaporação com 33º”, revela.

“Uma usina com capacidade para 300 mil quilos fará o trabalho de uma planta para uma tonelada de cana”

DANIEL ATALA: pesquisador da Unicamp

O que parece algo relativamente “simples” na verdade rompe um antigo limitador das usinas. “A mistura que compõe o caldo no processo tradicional tem de ter, no máximo, 22% de brix (composto de açúcar e impurezas no caldo), mas, com o novo sistema, conseguimos levantar esse índice para 45% em condições não otimizadas”, explica Atala. Logo na primeira extração é possível conseguir um etanol com 50% de concentração, ante 10% no sistema tradicional. A vinhaça que sobra desse processo retorna para ser mais uma vez destilada, e mais álcool é extraído. “Todo esse fluxo de substâncias e suas respectivas concentrações são gerenciados por um equalizador, que mantém as misturas nas proporções corretas”, analisa o pesquisador.

REDUÇÃO

70% é a economia no transporte da vinhaça, resíduo utilizado como adubo

Mas a invenção de Atala ainda oferece mais uma vantagem. Segundo ele, será possível eliminar uma das peças mais problemáticas das usinas, responsável por resfriar o mosto (caldo) e mantê-lo em 33º. Essa peça, de acordo com o especialista, é responsável por elevar os custos e produz impurezas danosas ao processo. O “truque” acontece porque, ao passar pela câmara de vácuo, o etanol “rouba” calor para poder evaporar, fazendo a temperatura do recipiente diminuir. “Quando volta para o tanque de fermentação, o caldo residual está com 32º”, diz Atala, entusiasmado. Mas ele ainda destaca que, por produzir um etanol mais concentrado, será possível retirar uma das colunas que fazem a transformação do líquido para uma concentração de 50%.

O feito rendeu ao pesquisador, que quando pequeno desejava ser cientista maluco, o Prêmio Fundação Bunge 2007. O esforço rendeu também a contratação pelo Centro de Tecnologia da Cana (CTC), onde começa a montar um piloto de seu invento. “Vamos fazer a primeira planta com capacidade para dois mil litros, mas em breve será montada uma com escala semi-industrial, com 20 mil litros”, revela. Ele acredita que alguns ajustes serão necessários para trabalhar com grandes volumes. Contudo, o “cientista maluco” acredita que outras surpresas poderão acontecer. “Temos motivos para acreditar que alguns índices, na prática, poderão ser ainda melhores”, afirma Atala.