Tecnologia

Próxima parada: o futuro

Como o aumento da produtividade, a economia de combustíveis e a crescente automação das lavouras estão mudando a indústria de tratores e equipamentos agrícolas

NH2, o sustentável: trator-conceito da New Holland é um dos primeiros projetos do segmento com motor movido a hidrogênio

Luiz Feijó: demanda por veículos “verdes” será ainda maior nos próximos anos 

Tente imaginar como serão os tratores e máquinas agrícolas que estarão nos campos por volta de 2060. Visualizou robôs voadores, fazendo o trabalho, solitários, de forma absurdamente rápida? Nem tanto, provavelmente. Mas, certamente, muitas boas e produtivas mudanças serão percebidas no agronegócio durante as próximas décadas. Isso porque em todo o mundo pesquisadores e engenheiros se debruçam sobre projetos diversificados, tentando vislumbrar e antecipar as necessidades do campo no futuro. Para isso, questões como a crescente demanda por alimentos, falta de terras agricultáveis no planeta, uso de energia limpa e preocupação com os impactos ambientais são pré-requisitos para qualquer novo projeto.

Um dos motivos para tamanha preocupação está nas estatísticas. Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) indicam que a população mundial aumentará dos atuais 6,6 bilhões de habitantes para 9 bilhões em 2050. Grande parcela deles vivendo em vastas áreas antes dedicadas à agricultura. Para garantir a oferta de alimentos para tanta gente, uma das saídas é apostar na equação que envolve maior rendimento por hectare e colheita mais ágil e precisa, diminuindo as perdas na lavoura. “Em algumas regiões, as máquinas serão maiores, mais rápidas, para atender à demanda por comida, cada dia mais urgente”, prevê Antonio Mauro Saraiva, professor coordenador do Laboratório de Automação Agrícola da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). “Cada vez mais, esses implementos serão produzidos com materiais resistentes que tenham o mínimo impacto no meio ambiente”, diz Silvio Rigoni, gerente de vendas de tratores da Agrale.

Luiz Gigghi: no futuro, máquinas deverão ser mais ágeis e operadas à distância

Não é de hoje que empresas vêm buscando desenvolver soluções para otimizar a produção na lavoura. Em janeiro, a Valtra, em comemoração aos seus 60 anos, apresentou o Ants, ou formigas em português. O projeto do trator-conceito é uma tentativa de antecipar as necessidades dos produtores rurais daqui a algumas décadas. Com grandes rodas e vários eixos, a Ants tem mobilidade na cabine, que lembra a cabeça de uma formiga e se movimenta como tal. No painel de controle 3D, operável no vidro do para-brisa, aparecem detalhes sobre volume de combustível, temperatura externa, condições do solo e da planta. Segundo o projeto, também será possível operar à distância outras máquinas, que trabalharão simultaneamente, sem operadores. “A comunicação integrada entre elas será fundamental para otimizar o processo produtivo e reduzir perdas”, diz Luiz Gigghi, vice-presidente de engenharia da americana AGCO no Brasil, dona da marca.

Outras companhias do setor também vêm investindo em pesquisa e desenvolvimento de produtos focados nas necessidades futuras. A maioria dos modelos não estará disponível no mercado tão cedo. No entanto, nada impede que algumas dessas tecnologias sejam incorporadas isoladamente em lançamentos próximos. É o caso do NH2, trator desenvolvido pela New Holland, empresa pertencente ao grupo CNH, controlado pela Fiat. Também integrante do hall dos tratores-conceito, o veículo é um dos únicos projetos de trator no mundo movido a hidrogênio. A ideia foi concebida levando em conta o Sistema Autônomo de Energia, por meio do qual os produtores rurais poderão produzir o próprio combustível na fazenda, a partir da água. Assim, o gás seria armazenado em tanques de ar comprimido, podendo ser utilizado tanto nos tratores quanto nos geradores das propriedades. Além de gerar economia para o produtor, reduz o impacto ao meio ambiente. “Ele é capaz de realizar todas as funções de qualquer outro trator, opera de maneira silenciosa e só emite calor, vapor e água”, afirma Luiz Feijó, diretor comercial da New Holland.

Enquanto esse futuro não chega, as empresas do setor preparam novidades no curto e médio prazos. A Valtra, por exemplo, planeja colocar no mercado até o final do ano seu trator especial para operação em áreas florestais e até 2013 sua colheitadeira para cana-de-açúcar. Só em 2011, a empresa deverá investir entre US$ 250 e US$ 300 milhões em pesquisa e desenvolvimento de produtos. Independentemente do nível de tecnologia que, de fato, será empregado nas próximas décadas, o Brasil está na rota dos grandes lançamentos. A CNH planeja aplicar US$ 1,7 bilhão no Brasil, para investimentos em novos projetos, estrutura e modernização do parque produtivo. Para o professor Saraiva, da USP, esse interesse deve aumentar ainda mais. “As empresas vêem o País como lugar fértil para o desenvolvimento de tecnologias, a começar pela cana-de-açúcar e pelos biocombustíveis”, diz.

A formiguinha: Ants, projeto-conceito lançado pela Valtra, antecipa como será o trator de amanhã