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Tomatoberry é só o começo

Folhas verdinhas e brilhantes, frutos mais doces, saborosos e de formatos variados, como um coração ou uma bola de sinuca, inspiram a indústria de sementes a investir no melhoramento genético

Tomatoberry é só o começo

Fotos: Joao Castellano/Agencia IstoE

Maurício Coutinho: “Queremos sair dos produtos a granel, para os de marca”

Qual consumidor não se encantaria ao encontrar, nas feiras e gôndolas de mercado, tomates em forma de morango ou abobrinhas parecidas com bola de sinuca? Frutos mais doces, folhas mais encorpadas, leguminosas mais saborosas. Esse é o papel das empresas de produção e comercialização de sementes para horticultura, um segmento que ainda é pequeno, mas está entrando em uma nova fase, a oferta de produtos diferenciados para os consumidores. “Sairemos dos produtos a granel, para os de marca”, afirma Maurício Pellegrini Coutinho, diretor de Desenvolvimento de Produtos da Agristar, empresa produtora de sementes, com sede em Petrópolis (RJ). Segundo ele, quem lida com a terra entrará cada vez mais em contato com a alta tecnologia, porque esses produtos terão de ter padrão de sabor, uma identidade única. “Não se poderá levar ao mercado um tomate que tenha um gosto diferente a cada safra”, diz Coutinho. “O mercado está se segmentando e se diferenciando nos três elos da cadeia: o produtor, a distribuição e a comercialização.”

O foco das empresas é pesquisar variedades com base no que o produtor deseja, com alta produtividade e resistência às doenças tropicais

 

Nas sementes frutíferas, há anos não existiam variedades disponíveis para as várias regiões do País, como o Nordeste, em locais que hoje são polos importantes de produção. Exemplo é o entorno de Mossoró (RN), atualmente o principal produtor de melão do País. O projeto de melhoramento genético das sementes, com o objetivo de adaptação de leguminosas cultivadas nos trópicos, é um dos carros-chefe da Agristar. O legume que mais exigiu trabalho foi a cenoura, em busca de um material com alta produtividade e mais qualidade – sabor e coloração −, principalmente para plantios de verão no Centro-Sul do País, época em que o consumidor mais sofre para encontrar hortaliças e legumes.

 

De acordo com Alexandre Oliveira, diretor comercial da empresa, o atual carro-chefe no desenvolvimento de variedades genéticas é a cenoura, mas o objetivo se estende a outras culturas.

Trio Ball Squash: Com elevada produtividade, as variedades da abobrinha ball squash são firmes e resistentes aos vírus ZYMV, WMV

O foco é pesquisar variedades com base no que o produtor deseja e que tenham alta produtividade e tolerância às doenças tropicais. No caso da cenoura, já foram trabalhadas mais de 400 linhagens. Em breve serão testados seus cruzamentos nas estações experimentais da empresa em Santo Antônio de Posse (SP), Orizona (GO), Ituporanga (SC) e Mossoró (RN). Após essa etapa as variedades irão ao campo de produtores de todo o País para, somente então, serem apresentadas ao mercado.

O mesmo caminho será trilhado pela melancia com tolerância a viroses, pelo tomatoberry, o fruto com formato de morango, de cor vermelho intenso e de alta produtividade, e pela abobrinha ball squash, que se parece com uma bola de sinuca nas três variedades testadas: a amarela, a verde-escuro e a verde-claro.

Tomatoberry: De coloração vermelho intenso, o fruto em forma de morango tem boa frutificação e ciclo médio de 105 dias

Apesar do avanço, há arestas a aparar por toda a parte. Segundo Coutinho, muitas empresas desenvolvem cultivares para o setor com foco em produtividade e sanidade, mas não atentam às necessidades das diferentes regiões do País. Pela pouca oferta de sementes diferenciadas, a demanda por parte dos produtores, que já é baixa, se torna ainda menor, em regiões como o Centro-Oeste, Norte e Nordeste.

Outro entrave nessas regiões é a logística adequada de escoamento da produção para que chegue fresca ao destino final, para um consumidor que precisa ser conquistado e é pouco afeito a legumes e hortaliças. No campo da pesquisa, foi firmada há um ano uma parceria com o Instituto Agronômico de Campinas (IAC), em Campinas, no interior paulista, com o objetivo de estudar a absorção de nutrientes pela planta e frutos de tomates híbridos. Duas espécies foram avaliadas para estabelecer com precisão o potencial produtivo. A coleta de dados de campo, as análises de laboratório e o processamento dos resultados duraram cerca de seis meses. O próximo passo é colocar no mercado o pacote tecnológico junto às sementes.

Alexandre Oliveira:em Irecê (BA), o cultivo de cebolas híbridas triplicou a produtividade em comparação com os cultivares comuns