Tecnologia

Uma luz no fim do pasto

Instituto Butantan investe R$ 2,5 milhões na pesquisa da primeira vacina do mundo para o combate da papilomatose bovina e já se prepara para realizar testes em animais

Rebanho enfermo:

estima-se que no Brasil 60% apresente sintomas da doença, especialmente animais de raças leiteiras

Ela chega no rebanho de mansinho, sem avisar e pouco a pouco vai acometendo o gado. No início são apenas coceiras e arranhões e em alguns casos mais graves causa tumores benignos e feridas pelo corpo, especialmente próximas dos olhos e dos tetos. Assim age a papilomatose bovina, também conhecida como trigueira, verrucose ou HPV bovino. Causada pelo papilomavirus bovino, micro-organismo da mesma família do HPV humano, a doença está espalhada pelo mundo e só no Brasil estima-se que atinja cerca de 60% do rebanho, a maior parte dele leiteiro. Preocupados com a influência do problema na qualidade do gado brasileiro, pesquisadores do Instituto Butantan de São Paulo vêm trabalhando há nove anos no desenvolvimento da primeira vacina do mundo para combater a doença. Hoje, existem cerca de dez vírus causadores do problema. “Queremos obter um produto que ofereça proteção contra o maior número possível de vírus” explica Rita de Cássia Stocco, chefe do laboratório de genética do instituto e vice-coordenadora do projeto.

Até agora foram investidos R$ 2,5 milhões no trabalho e, segundo Rita, será necessário quantia equivalente para realizar todos os testes e a conclusão do projeto que começou em 1978 com pesquisas sobre os ciclos virais. “Se tudo correr bem, a previsão é de que em cinco anos o produto esteja no mercado”, explica. Neste mês começam os testes em algumas propriedades rurais do interior de São Paulo. “Essa é uma das etapas mais importantes do processo. É a partir da resposta do sistema imunológico desses animais que confirmaremos a eficácia da vacina”, explica Rita. Entre as fazendas escolhidas para aplicação está a de Martin Breuer, de Itapetininga (SP). Ele conta que, de seus 100 animais voltados para a produção leiteira, entre 15% e 20% foram afetados pela doença, que pode causar também perda de peso e estresse nos animais. “Um exemplar infectado pode ter seu valor reduzido em mais de 50%, inviabilizando a produção”, conta ele.

Tita de Cássia Stocco:

busca por um produto eficaz que combata o maior número de vírus; hoje, são dez os vírus causadores da doença

 

 

Do total de animais criados por Breuer, cerca de 60 devem ser testados. “Espero que a vacina resolva pelo menos 90% do problema, especialmente no gado jovem”, anima-se ele. De fato, os animais jovens são os mais suscetíveis ao contágio, já que não têm muitos anticorpos para combater microorganismos indesejáveis. Some-se a isso a baixa eficácia dos tratamentos disponíveis, com resultados inferiores a 50%, o que gera um grande número de descarte de animais doentes. Rita conta, ainda, que o vírus do HPV bovino também foi detectado na urina, no leite e no sêmen desses animais. “Mas não oferecem risco à saúde humana”, explica ela.

Mesmo com os avanços da pesquisa, ainda há muito trabalho pela frente, já que a existência de variedades diferentes de vírus causadores da doença atrapalha o desenvolvimento de uma vacina que seja 100% eficaz. “Cada um infecta uma região do bovino, o que dificulta a produção de uma vacina que combata todos eles”, explica Raul Mascarenhas, veterinário da Embrapa Pecuária Sudeste. As formas mais comuns de contágio são o contato couro a couro dos animais e a utilização de ambientes e instrumentos infectados, por isso o cuidado redobrado com a limpeza e sanidade dos animais é fundamental. Ao final do projeto, a ideia do grupo de pesquisadores é firmar parcerias para que a produção em escala industrial permita uma otimização do produto e redução de custos. “Queremos desenvolver um medicamento barato e eficaz, protegendo o animal pelo maior tempo possível e com um número mínimo de aplicações”, pondera Rita.