Tecnologia

Veneno de emergência

A proliferação de ervas daninhas resistentes ao glifosato já é uma realidade. Agora, a Bayer quer pegar carona nesse mercado bilionário e lança novos produtos para concorrer com a Monsanto

O filme é conhecido de todos e seu desfecho é trágico. Mesmo assim, os agricultores não conseguiram mudar o roteiro. O erro é o mesmo de sempre: o uso de uma só tecnologia e, consequentemente, a seleção de ervas daninhas resistentes. Desta vez, a protagonista da história é a soja RoundupReady da Monsanto. Resistente ao glifosato, herbicida de baixo custo (apenas R$ 3 o litro), que movimenta R$ 1,2 bilhão no Brasil, a soja RR logo caiu nas graças dos sojicultores brasileiros. A economia no uso de agroquímicos foi o grande chamariz e levou os produtores gaúchos a contrabandear sementes da Argentina a partir de 1998. A liberação comercial só aconteceu sete anos depois. Mas a facilidade de aplicar um único herbicida em vez de vários levou a uma adesão em massa dos produtores.

Entusiasmados, ano após ano, eles repetiam a fórmula milagrosa: soja RR e glifosato. No entanto, o uso recorrente da ferramenta acabou selecionando ervas daninhas resistentes ao glifosato. Tal resistência abriu espaço para a Bayer, que no início do ano reuniu pesquisadores do mundo todo, em Miami, para falar sobre o assunto.

A multinacional alemã tem em mãos dois trunfos contra a resistência. O primeiro é o herbicida glufosinato de amônio, que tem sido recomendado no combate à da erva daninha conhecida como buva. Além disso, a CTNBio acabou de aprovar a soja Liberty Link, variedade transgênica resistente ao glufosinato de amônio, que é uma alternativa à soja RR.

“Enquanto a maioria das empresas de herbicidas parou as pesquisas na época do lançamento do glifosato, nós continuamos. Sempre apostamos em soluções integradas. Nunca interrompemos as pesquisas nem com químicos nem com sementes”, diz Gerhard Bohne, diretor de operações da Bayer no Brasil.

A estratégia da múlti promete render bons resultados. Segundo Stephen Powles, professor da University of Western Australia: “diversidade é a palavra-chave para minimizar a resistência de ervas daninhas a herbicidas”. E quando os cientistas falam em diversidade é diversidade em todos os sentidos. “A solução é a alternância de tecnologias.

É preciso fazer revezamento de herbicidas, de variedades de sementes e também rotação de culturas”, explica Pedro Christoffoleti, professor da USP Piracicaba, especialista em ervas daninhas. “Se você fizer a safrinha de milho com a tecnologia RR, vai causar mais resistência, porque sai de uma soja RR que usa glifosato e usa glifosato de novo com o milho”, diz Décio Karan, da Embrapa Milho. O uso incorreto da soja RR, na época em que a tecnologia era contrabandeada, contribuiu para o cenário atual. “Eles não usavam a quantidade de glifosato recomendada, o que favoreceu a resistência”, diz Christoffoleti.

Hoje, há quatro ervas daninhas resistentes ao herbicida (ver tabela):

conyza canadensis e conyza bonariensis, ambas conhecidas como buva, lolium multiflorum, o azevém, e a digitaria insularis, popularmente chamada de capim-amargoso. Todas elas estão presentes na região Sul do Brasil e algumas chegaram ao Sudeste. É o caso da conyza bonariensis e da digitaria insularis. Esta última, inclusive, já alcançou o Centro-Oeste. “Hoje, quem tem buva na lavoura de soja está gastando de duas a oito sacas para controlar infestação”, diz Fernando Adegas, pesquisador de plantas daninhas da Embrapa Soja. O grande problema da buva é sua propagação. “Cada planta produz cerca de 60 mil sementes que percorrem 68 quilômetros com um vento de 4 km/h”, explica.

Por essa característica, a buva tem sido a pior das ervas daninhas e os tratos culturais para evitála têm período determinado. “Os herbicidas têm que ser aplicados na présemeadura. Depois disso não adianta mais”, diz Christoffoleti. A recomendação dos pesquisadores é de que sejam feitas duas aplicações de herbicida, a primeira de glifosato e a segunda com outro produto. Quanto às variedades transgênicas, a partir da próxima safra o produtor poderá escolher entre três tecnologias: a soja RR da Monsanto, a soja LL da Bayer ou a soja Cultivance da parceria entre Embrapa e Basf, esta última resistente ao grupo químico das imidazolinonas. Agora, está nas mãos dos agricultores combater a resistência e “preservar” o glifosato, o curinga dos herbicidas, que, além de facilitar a vida na lavoura, garante rentabilidade porteira adentro.

As ervas do mal

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