Artigo

A fonte da competitividade sustentável no campo

A fonte da competitividade sustentável no campo

“O manejo integrado de lavoura e o manejo integrado de riscos se assemelham” Antonio Carlos Ortiz, diretor do Itaú BBA Divulgação

O desenvolvimento da agropecuária brasileira passa atualmente por uma nova fase. Com um novo perfil de produtor, mais tecnológico e conhecedor das melhores práticas da administração, a agricultura se reformula para gerir riscos.  Muitos desses riscos, no entanto, ainda costumam ser desconhecidos ou ficam em segundo plano.

Se o manejo integrado de pragas, doenças e plantas daninhas é algo consagrado entre os produtores, e essencial na sustentabilidade agrícola, assim deveria ser o manejo integrado de riscos na busca da sustentabilidade do negócio. Conceitualmente, o manejo integrado de lavoura e o de riscos se assemelham, pois buscam conservar o sistema em equilíbrio. Assim, ambos identificam, medem e monitoram indicadores em diversas frentes, definindo ações corretivas mínimas para buscar resultados ótimos, sem desencadear impactos negativos.

Dois pilares fundamentam o manejo integrado de riscos: não se controla o que não se conhece; não se administra o que não se mede. Portanto, é preciso conhecer os riscos, identificar suas fontes e medi-los, constantemente, para que se possa manejá-los, bem como definir uma régua de medição e um nível aceitável – muitas vezes dependente dos níveis adequados de outros riscos.

Vamos a um exemplo prático. Um produtor com muitas  terras arrendadas deve estabelecer um nível menor de endividamento máximo e reservas mínimas de caixa maiores do que o de um produtor com grande proporção de terras próprias. Por sua vez, um confinador de gado deve trabalhar com fixação antecipada de preços de boi gordo, de maneira mais intensa do que um produtor que trabalha com criação extensiva.

No caso do risco de preços, os principais pontos de atenção são manter níveis saudáveis de, no máximo, 30% da produção esperada travada (comercializada antes da safra), com um mínimo de 70% equivalente ao montante dos insumos que estiverem contratados. Num segundo momento, o produtor deve buscar um mínimo de 50% da produção, com preços já travados durante a safra corrente e não mais que 70% antes da colheita.

É recomendável que a alavancagem operacional máxima (dívida com terceiros) seja equivalente a 120% das receitas anuais, incluindo aí o financiamento de terras. Adicionalmente, é indicado ter o resultado operacional com capacidade para cobrir pagamento de juros e amortizações, com folga mínima de 20%. Na mesma linha, o máximo endividamento do empreendimento não deveria exceder a quatro vezes o seu resultado operacional.

Recomenda-se, ainda, a aplicação mínima de 30% de capital próprio nos investimentos. Calibrar o ritmo de crescimento também é saudável, limitando o investimento em expansão a três vezes a sobra de caixa do ano, e sempre  financiando-o com linhas de longo prazo. Outra sugestão é manter o mínimo de 40% do endividamento no longo prazo.

Mudanças: na agropecuária moderna, o produtor  está mais tecnológico e preparado para gerir os riscos da atividade

Redutores de risco de refinanciamento estão ligados ao nível de capitalização do negócio, e requerem diversas medidas. Entre elas, está o estabelecimento de um máximo de 40% de dívida em relação ao total de ativos. Também é importante a manutenção de um mínimo equivalente a dois meses de despesas correntes, em reserva de caixa, aplicados em bancos de primeira linha.

A consolidação dessas diretrizes, em um documento, constitui a política de limites e gestão de risco do negócio, que deve ser auditada anualmente para assegurar o seu cumprimento. Da mesma forma que o monitoramento de pragas tem de acontecer de tempos em tempos, o monitoramento dos riscos também precisa ser periódico e disciplinado. Os itens que ultrapassarem seus limites devem ser identificados para providências.

Embora algumas ações de redução de risco poderão representar custos adicionais e restrições práticas, elas trarão maior estabilidade no longo prazo e consistência de resultados.  Considerando a complexidade das empresas agrícolas no País, e o sacrifício vivido para construí-las durante décadas, é boa prática implantar o manejo integrado de riscos e tornar o negócio sustentável.