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Em busca do boi perfeito

Criadores de nelore apostam em uma raça mais competitiva, com carne de qualidade e rentável, sustentada por um mercado consumidor mais exigente.

A fazenda Sant’Anna, no município paulista de Rancharia, lembra as antigas propriedades rurais espalhadas pelo interior do País. Para chegar à propriedade, partindo do centro da cidade, é preciso passar em frente à velha estrada de ferro desativada, tomar uma estradinha de terra batida, atravessar a porteira e seguir cerca de três quilômetros até chegar à sede. No caminho, vê-se alguma plantação, pasto para o gado e muita calmaria. Mas esse cenário bucólico não significa que a fazenda seja daquele tipo de peça de museu, estacionada no tempo. Nas mãos do pecuarista Jovelino Carvalho Mineiro Filho, 66 anos, a Sant’Anna é um exemplo da efervescência pela qual vem passando a produção de carne bovina no País, uma das maiores do mundo. São cerca de dez milhões de toneladas em equivalente carcaça, a partir do desfrute de um rebanho de 200 milhões de animais. Neste ano, segundo a Confederação Nacional da Agropecuária (CNA), o Valor Bruto da Produção para a pecuária deve chegar a R$ 161 bilhões, 5% a mais em relação a 2013. 

Mas, para Mineiro Filho, o desempenho do setor poderia ser melhor. Mesmo sendo criador de nelore há 40 anos, ainda são várias as interrogações que movem o trabalho de melhoramento genético que vem realizando a partir de um rebanho de 1,7 mil fêmeas superiores. Sua ideia fixa é produzir o chamado boi do futuro, definir seus atributos, definir como chegar à carne que o consumidor tende a valorizar mais e quais as reflexões que ajudarão a mudar para melhor a bovinocultura de corte nos próximos anos. “A próxima etapa da pecuária de corte é produzir marcas de carne em escala, e não apenas como commodity”, diz Mineiro Filho. “Como melhoradores de gado, esse futuro já está batendo na nossa porta e é um grande desafio para todos.” 

Sociólogo pós-graduado em economia pela Sorbonne e em ciências sociais pela École des Hautes Études, ambas de Paris, Mineiro Filho é inquieto por natureza e contestador por formação. Não por acaso, tornou-se uma figura importante entre as lideranças do setor. Hoje, além de selecionador de gado, ele é vice-presidente da Associação Brasileira de Criadores de Zebu (ABCZ) e conselheiro da Sociedade Rural Brasileira (SRB), entidade na qual o filho Bento Mineiro, 24 anos, sociólogo como o pai, ocupa a direção do departamento Rural Jovem SRB. “O Bento faz o que gosta, sem influência minha e de Carmo”, diz o criador, se referindo à esposa, herdeira de agricultores, filha do ex-governador de São Paulo Roberto de Abreu Sodré (1917-1999). Entre os pecuaristas, o bem relacionado e influente Mineiro Filho, que chegou a manter uma fazenda em sociedade com o expresidente Fernando Henrique Cardoso, em Buritis (MG), é reconhecido pelo seu pioneirismo em várias frentes, entre elas a de selecionador das raças brahman e brangus, há cerca de duas décadas. 

Mas foi para desvendar o gene do boi que ele entrou com tudo numa busca por um nelore mais produtivo. No início dos anos 2000, o criador convidou o físico José Fernando Perez para pesquisar na Universidade de Michigan como fazer o mapeamento genético do zebu. “Naquela época, só havia sequenciamento do genoma de raças europeias, entre elas o angus”, diz Mineiro Filho. Além do projeto pecuário, desse encontro nasceu a Recepta Biopharma, empresa de biotecnologia em saúde humana para pesquisar moléculas contra o câncer, em parceria com o instituto americano Ludwig. Para a empreitada ele chamou o amigo Emílio Odebrecht, presidente do Conselho de Administração do grupo baiano Odebrecht, que também é nelorista. “Em geral, a pesquisa humana vem na frente da animal, mas no meu caso foi o boi quem me levou à pesquisa do câncer”, diz Mineiro Filho.

Assim como acontece na academia, o criador acredita que os produtores de gado devem buscar por um modelo no qual o nelore, que é a raça mais representativa do rebanho brasileiro, faça a diferença em termos de qualidade da carcaça. Do total de 200 milhões de bovinos, o nelore ou animais que tenham sangue nelore nas veias cheguem a 120 milhões. “Para eles, é preciso ter um modelo de genética animal e um modelo de produção de gado para o abate que sejam harmoniosos”, diz Mineiro Filho. Na prática, o criador aposta que esse modelo de pecuária seletiva se sustenta na pureza racial do nelore. É ela que deve estar no topo da cadeia, transmitindo ao rebanho comercial precocidade, habilidade materna e qualidade de carne. “Trocando em miúdos, a genética do nelore não pode  se misturar com outra raça” diz. 

Mineiro Filho não está sozinho nessa empreitada. Criadores de nelore como Adir do Carmo Leonel, com fazendas em Goiás e São Paulo, e Cláudio Carvalho Filho, em Minas Gerais, são também defensores ferrenhos da genética pura da raça nelore. Segundo o geneticista e professor da USP Raysildo Lôbo, presidente da Associação Nacional de Criadores e Pesquisadores (ANCP), há um grupo de melhoristas de gado que pensam na padronização dos rebanhos como linha mestra no campo. “Padronizar o gado acerta a cadeia da carne para a indústria frigorífica e isso se reflete em índices econômicos”, afirma Lôbo. A comparação com as raças europeias, selecionadas há mais de cinco séculos, é inevitável. “Veja o que aconteceu com o angus, por exemplo”, diz. “Quando vemos um animal, temos a impressão de já ter visto todos e isso é um dos motivos de sua carne ser tão valorizada no mundo.” 

Para mostrar, na prática, o que é um animal que transmite genética superior e padronizada, assim como acontece com o angus, o administrador Paulo Leonel, filho de Adir Leonel, realizou um trabalho inédito no mês passado em um frigorífico de Brodowski, próximo à Estância 2L, em Ribeirão Preto, acompanhado com exclusividade pela DINHEIRO RURAL. No dia 3 de outubro, Leonel abateu dez novilhos adquiridos do pecuarista Leonardo Guerra, de Sandolândia (TO), após a desmama. Leonel comprou os bezerros por serem filhos de um único touro de sua fazenda, de linhagens que remetem a animais importados da Índia na década de 1960. Para avaliar as carcaças após o abate, Leonel fez teste de DNA para comprovar a paternidade e os animais foram mantidos em confinamento (leia quadro “Quero me cercar de garantias de que os touros que vendo transmitem características uniformes de carcaça”, diz Leonel. 

Nos próximos anos, os oito touros da seleção da fazenda 2L destinados à coleta de sêmen passarão pelo mesmo teste. “No ano que vem, vamos abater animais de um mesmo touro, mas uma parte será castrada e a outra não.” Nos últimos tempos, os grandes frigoríficos do País, como JBS, Minerva e Marfrig, vêm estimulando os produtores a castrarem os animais, para que ganhem peso e gordura em partes nobres, entre elas a região lombar e traseiro. Os trabalhos em Brodowski foram acompanhados pelo professor Lôbo e por um dos principais pesquisadores do Instituto de Zootecnia de São Paulo, o agrônomo Fausto Pereira Lima. “O nelore tem a capacidade de nos surpreender sempre”, diz Pereira Lima. “A qualidade da carcaça e a padronização mostram como a escolha da genética certa pode ser determinante
num projeto de pecuária.” 

De acordo com Mineiro Filho, padronizar o gado no Brasil, através da pureza racial do nelore, é uma questão de sobrevivência. A pecuária será cada vez mais desafiada pela alta performance da agricultura, atividade que na próxima safra pode produzir mais um recorde ao ultrapassar, pela primeira vez, a barreira dos 200 milhões de toneladas de grãos. Por isso, onde houver terra boa e tratorável haverá grãos, e onde houver terra boa, porém não tratorável, haverá vacas para produzir bezerros de corte. “A pecuária de corte ficará mais enxuta, mais tecnológica e eu tenho minhas dúvidas se o boi criado só no capim vai sobreviver”, diz Mineiro Filho. “Será preciso intensificar, cada vez mais. Não sei se com confinamento no nível da pecuária americana, mas não há como fugir.”

REBANHO Mineiro Filho possui seis fazendas, ocupadas com pecuária, soja, eucalipto e cana-de-açúcar. Na fazenda Sant’Anna está localizado o rebanho para o melhoramento genético, de onde saem todos os anos 400 touros nelores superiores. Parte deles é vendida em um leilão realizado na sede da fazenda. Em quantidade, Mineiro Filho pode não ser o maior vendedor de reprodutores, mas seu evento reúne criadores que sabem o tipo de animal que procuram. Em setembro, um grupo de 158 touros oferecidos no remate anual saiu pela média de R$ 8,3 mil, cerca de 30% acima da média de mercado. As vendas da Sant’Anna são organizadas pelo diretor da leiloeira Estância Bahia, de Água Boa (MT), Maurício Tonhá. De acordo com Tonhá, o uso de tecnologias está fazendo a pecuária avançar rapidamente, espalhando com mais facilidade a genética melhoradora nos rebanhos de gado comercial. “Há um distanciamento cada vez maior entre o criador convencional e quem faz um trabalho diferenciado”, diz Tonhá. “Os produtores de gado de corte querem genética que dê resultados.” Segundo ele, são os projetos empresariais de pecuária que utilizam intensivamente a Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF), em seus rebanhos. A técnica de alto custo empurra esse pecuarista para a alta genética. “Antes, para um grande criador bastava um touro registrado”, diz Tonhá. “Hoje, ele precisa ter uma carga genética confiável além do documento.”

Em busca de soluções para o seu negócio, o pecuarista Jorge Ismael de Biasi Filho, de Novo Horizonte (SP), esteve no último leilão, que reuniu cerca de 700 pessoas na fazenda Sant’Anna. Biasi Filho, que pertence a uma família de criadores de gado instalada há 50 anos na região, é também usineiro cooperado da Copersucar. “Se não fizer o gado render, a atividade pecuária perde para a agricultura”, diz Biasi Filho. 

Somente para a pecuária, o criador dispõe de dez fazendas entre São Paulo e Minas Gerais. Biasi Filho necessita de genética para produzir animais de corte superiores por ser um dos fornecedores de bois para a cota Hilton, um volume de dez mil toneladas de cortes nobres que os frigoríficos exportam para a Europa, a preços duas vezes superiores ao da carne commodity. 

Atualmente, dos sete mil animais enviados para abate na Minerva Foods por Biasi Filho, três mil são classificados na cota Hilton e recebem um bônus de R$ 6 por arroba. “Com o bônus e a arroba valorizada como neste ano, de até R$ 135, a conta começa a fechar”, diz. “Por isso, estou reformulando meu rebanho para engordar todo o gado em confinamento e migrar cada vez mais para animais puros nelores.” O criador também planeja elevar os abates a 12 mil animais até 2016, investindo na dieta dos bezerros para encurtar a idade de irem para o gancho. No último abate de animais para a cota Hilton, cada nelore do lote de animais do criador pesou 23,4 arrobas aos 19 meses, com rendimento de carcaça de 57%. A média de rendimento de carcaça para o nelore no País, em geral, é de cerca de 54%. A ideia de pecuaristas como Biasi Filho é encurtar o ciclo pecuário, hoje de 30 meses em média. “O ideal é ir agregando valor com animais mais jovens, mais pesados e mais valorizados pelo mercado”, diz ele. “Quero fazer boi para vender às marcas de carne no mercado interno e quem pagar mais leva.” 

Mineiro Filho, que exibia seus animais a Biasi Filho antes do início do leilão, acredita que no caminho em direção às marcas de carne há um pedágio com o qual o produtor terá de arcar. “O boi caminha para ter, além de muitas marcas de carne no mercado, denominação de origem”, diz. “Esse futuro pode ser extraordinário, mas vai exigir uma exposição maior de quem faz genética ” De acordo com o criador, com marcas espalhadas pelo País, os produtores, incluídos os selecionadores de gado, terão de responder diretamente pela carne que entregam. “Será a integração da cadeia, em seu vigor máximo”, diz. O proprietário da fazenda Sant’Anna acredita que haverá, por exemplo, uma marca de carne para o gado criado em Cáceres (MS), outra que mostre um determinado gado do Vale do Araguaia (GO), e assim por diante. Surgirão, também, marcas associando o nome de uma unidade frigorífica a um determinado corte de carne. Por exemplo, filé-mignon do Friboi de Pimenta Bueno (RO), alcatra do Minerva de  residente Prudente (SP), ou boi orgânico do Pantanal (MS). “O bom da história é que, sustentando essa nova conformação para satisfazer um consumidor cada vez mais exigente, haverá criadores produzindo em quantidade e sob encomenda, e não mais como nicho de mercado”, diz Mineiro Filho. “Esse movimento já está em marcha.” 

Uma pequena amostra desse movimento preconizado por Mineiro Filho aconteceu no dia 21 de outubro, em São Paulo. Nessa data, o executivo Reginaldo Morikawa, presidente da Korin, empresa especializada em produtos orgânicos, com 1,4 mil pontos de venda em 23 Estados, apresentou ao mercado a Carne Sustentável do Pantanal Korin. Para colocar em prática o projeto, a Korin fez uma parceria com a Associação Brasileira de Pecuária Orgânica (ABPO). “Há dois anos fechamos essa parceria para que a ABPO criasse com a nossa grife, agora o projeto se tornou realidade”, diz Morikawa. 

O projeto começou com 80 novilhas abatidas por mês, mas a previsão é chegar a 1,6 mil novilhas. Aos produtores dessas fêmeas jovens, a Korin paga um bônus de até 18% sobre o preço do macho. “É possível bonificar bem o produtor porque vendemos nossa carne a preços 150% superiores no varejo, com uma picanha, por exemplo, a R$140 o quilo”, afirma Morikawa. No Pantanal, a ABPO reúne 18 produtores, donos de um rebanho de 90 mil animais nelores e anelorados, criados em 130 mil hectares certificados. Nilson de Barros, vice-presidente da entidade e criador, diz que o projeto do boi orgânico nasceu há dez anos de uma parceria com exclusividade entre a JBS e a ABPO. “Agora, com o fim do prazo acordado, estamos abrindo o leque”, diz Barros. “Como produtor de gado, ver nossa carne na prateleira vale o trabalho de toda uma cadeia produtiva, que busca melhoria em todas as fases da pecuária.” Barros, que mora em Corumbá, no Pantanal sul-mato-grossense, e Mineiro Filho, que está sempre em viagens pela fazenda ou em alguma reunião de negócio, ainda não se encontraram para trocar ideias, mas, provavelmente, teriam muitas delas parecidas sobre qualidade genética. 

Olho clínico
A qualidade vem do touro

O abate do gado reproduzido por touros superiores criados por Adir Leonel e pelo filho Paulo Leonel, que aconteceu no dia 3 de outubro, no frigorífico de Ipuã (SP), foi avaliado pelo zootecnista Sérgio Pflanzer, da Unicamp (SP). Pflanzer faz parte da equipe do professor Pedro de Felício, o maior especialista em carne bovina do País. No fim de outubro, Adir e Paulo receberam cerca de 100 produtores em Ribeirão Preto (SP), para conhecer os resultados do abate. “Foi o evento mais consistente que já realizamos”, diz Paulo. “Existe hoje uma necessidade imensa de se difundir informação ao produtor.” 

De acordo com Felício, os resultados do abate mostram um nelore evoluído. “Vemos com facilidade características que mostram a qualidade da carcaça, como a área de olho de lombo (AOL), a espessura de gordura e o seu rendimento”, diz Felício. “Mas buscamos analisar auniformidade das peças, dado importante nesse experimento”, afirma Pflanzer. 

Os 11 animais ainda com dentes de leite e não castrados foram abatidos com peso vivo de 497 quilos. O rendimento de carcaça foi de 59%, para um peso morte de 290 quilos. “Esperávamos que o rendimento fosse maior que a média geral no País, de 54%, mas foi uma surpresa esse alto desempenho”, diz Paulo Leonel. A cobertura de gordura sobre a carcaça variou de quatro milímetros a seis milímetros, dentro dos padrões da cota Hilton. Na desossa, o rendimento de carne chegou a 84%, com área de lombo de 78 centímetros. A cor predominante foi vermelho- cereja. De acordo com Pflanzer, as três características avaliadas mostram animais precoces e com cortes grandes. “Além disso, bovinos jovens, com cobertura de gordura e olho de lombo como as carcaças avaliadas, são ideais para mercados que pagam mais por carne de qualidade”, diz.