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Fazenda vertical

Saiba como um grupo de produtores de Mato Grosso está agregando valor às suas fazendas de grãos, construindo um novo polo de criação de aves e suínos no Centro-Oeste

Os municípios de Lucas do Rio Verde, Sorriso e Tapurah, no interior de Mato Grosso, formam um triângulo no coração do Centro- Oeste brasileiro. São ilhas de prosperidade, cercadas de grandes plantações
de soja, milho e algodão por todos os lados. Disso praticamente não há dúvida. Basta checar os números: o trio responde por cerca de 13% do total de 44,4 milhões de toneladas de milho e soja cultivados no
Estado. O intenso tráfego de veículos pelas rodovias da região, entre elas a BR-163, dá a dimensão exata da importância da agropecuária local. Caminhões, carretas e picapes estão por toda parte, o ano todo. De uns tempos para cá, porém, esses veículos já não transportam apenas grãos. Na última década, a prosperidade das lavouras tem levado os agricultores a subir a régua do negócio: eles estão criando aves e suínos para agregar valor à agricultura, transformando a região em novo polo de destaque no agronegócio.

A diversificação tem atraído, principalmente, os proprietários de fazendas consideradas médias na região, em geral, com áreas entre mil hectares e três mil hectares. O produtor Carlos Capeletti, 52 anos,
dono da Granja Toledo, de 1,5 mil hectares, em Tapurah, é um desses fazendeiros que decidiram apostar na diversificação, juntando às culturas da soja, milho e o gado, que cria desde 2010, a avicultura e
a suinocultura. “Para conseguir uma lucratividade maior na fazenda, precisamos investir na integração de diferentes atividades”, diz Capelleti, reconhecido entre seus pares como uma liderança na região. Não por acaso, ele é o presidente da Associação dos Produtores de Proteína Animal (Appa), com sede em Lucas do Rio Verde. A entidade foi fundada em 2013 por cinco agricultores para dar suporte técnico aos associados e estimular a produção. Hoje, 33 produtores fazem parte da Appa. 

Eles são donos de 104 núcleos de aves para corte, 12 núcleos de produção de ovos e 59 núcleos de produção de suínos. Em 2014, a produção foi de 65,9 milhões de aves, 765 mil suínos e 129,6 milhões de ovos. “A associação nasceu com o objetivo de unir os produtores e aprimorar o modelo de produção”, afirma Capeletti. Segundo a Appa, os associados tiveram um retorno financeiro estimado em R$ 50
milhões no ano passado. Toda a produção é entregue à BRF , uma das maiores empresas de alimentos do País, dona de um faturamento de R$ 30 bilhões por ano. Inaugurada em 2008, em Lucas do Rio Verde, a fábrica da Sadia foi incorporada pela rival Perdigão, na BRF . A unidade tem capacidade diária de abate de 300 mil aves e 4,5 mil suínos. 

Capeletti iniciou sua criação de aves e suínos um ano depois da instalação do frigorífico no município. Nos últimos seis anos, o produtor investiu R$ 35 milhões na avicultura e R$ 18,7 milhões na suinocultura.
No ano passado, sua produção foi de 15 milhões de aves e de 200 mil suínos, o que lhe rendeu R$ 16,6 milhões somente com essas duas atividades. “O desenvolvimento, agora, significa transformar a proteína vegetal em animal”, diz Capeletti. “Essa é a visão de futuro.” 

Um estudo realizado pelo Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), em 2013, mostra que os associados da APPA estão no caminho certo. O cultivo de milho, por exemplo, que é o principal insumo da ração de aves e suínos, deve permanecer abundante em Mato Grosso. Das sete regiões administrativas do Estado, a produção do cereal no médio-norte, onde se localizam Lucas do Rio Verde, Sorriso e Tapurah, deve passar de 7,5 milhões para 13 milhões de toneladas na safra 2021/2022, volume equivalente a quase 50% do total previsto para o Estado. Segundo Pablo Artifon, diretor-executivo da
Appa, a oferta de milho é um ponto que pesa a favor da diversificação. No início deste ano, enquanto a saca do cereal era negociada na região Sudeste por até R$ 27, em Mato Grosso o preço chegava ao máximo de R$ 14. “Na criação de aves e suínos, o maior custo da produção está na ração”, diz Artifon. “Como o milho é mais barato por aqui, temos uma ótima vantagem competitiva.” 

Mas não é somente isso. A região apresenta outras vantagens. A principal é que os animais engordam mais comendo menos alimento. “A conversão alimentar, que é a relação entre o consumo de ração e
a carne produzida, nos beneficia muito”, diz Artifon. Em média, no médio-norte, é necessário 1,5 quilo de ração para produzir cada quilo de carne de frango, ante 1,75 quilo, no País. No caso dos suínos, são 2,3 quilos de ração para cada quilo de carne produzida, ante a média nacional de 2,5 quilos de ração. Uma das explicações está no clima do Centro-Oeste. “O tempo mais quente, com uma menor oscilação de temperatura ao longo do ano, favorece a engorda dos animais”, diz Artifon. 

De olho no futuro, Capeletti conta sobre a transformação da propriedade em um complexo agroindustrial e sobre as mudanças que ainda virão na criação de aves e suínos, além dos bovinos e grãos. A fazenda, que já possuía oito silos para armazenar até 240 mil sacas de grãos, ganhou duas fábricas no processo de verticalização da produção. A primeira fábrica foi construída em 2013 para reciclar o descarte de aves na granja. Esse resíduo processado se transforma em farinha de carne, que é vendida a fabricantes de ração animal. Em 2014, no primeiro ano em operação, a fábrica produziu 150 toneladas de farinha, mas a capacidade instalada é de três mil toneladas por ano. “Cerca de 3% a 4% das aves morrem, mas esses animais não vão para o lixo”, diz Capeletti. “Tudo é reaproveitado.” A segunda fábrica entrou em operação no ano passado, para processar maravalha, nome dado às aparas de madeira, nesse caso de eucalipto, que servem como cama para os frangos. Em 2014, foram produzidos 50 mil metros cúbicos de maravalha.

Para 2016, o plano de Capeletti é construir uma fábrica de rações, que terá a farinha de resíduos de frango produzida na fazenda como matéria-prima. A previsão é colocar no mercado até 15 mil toneladas
de ração para peixes e 220 mil toneladas de ração para bovinos e suínos por ano. O produtor também pretende intensificar a criação de bois em pastos fertirrigados, que atualmente constitui um rebanho
de cinco mil animais, e aumentar o número de biodigestores para transformar dejetos suínos em biogás e eletricidade. Na Granja Toledo, 15 biodigestores estão em operação e quatro em construção.
O investimento de R$ 5,5 milhões na geração de energia elétrica e biogás ainda inclui a compra de uma caldeira, que vai gerar 2,5 MW, energia suficiente para cobrir todas as necessidades da fazenda. “Também estou planejando a construção de um frigorífico de bovinos e vou investir na criação de peixes”, diz Capeletti. “É a verticalização que tornará a fazenda cada vez mais lucrativa.” 

RADAR Os grãos, que continuam em seu radar, entram na receita, mas a maior parte é cultivada em parceria com o sócio e amigo Luiz Umberto Eickhoff. Eles estão cultivando oito mil hectares no município
de Barra do Bugres, a cerca de 400 quilômetros da Granja Toledo. Na safra 2013/2014, a parte que lhe coube na sociedade e o cultivo próprio renderam 600 mil sacas de soja e 220 mil sacas de milho. 

Além dessa sociedade, Capeletti e Eickhoff tem algo mais em comum: a política. Capeletti, um dos fundadores da Appa, já foi prefeito de Tapurah entre 2004 e 2008. Atualmente é Eickhoff quem comanda a prefeitura do município. Em meados dos anos 2000, foi como líderes políticos que eles trabalharam para convencer a então gigante Sadia a construir a fábrica em Lucas do Rio Verde. Na época, eles faziam parte de um movimento de produtores que desejavam a instalação do frigorífico na região, no qual também estava o produtor Otaviano Pivetta, atual prefeito de Lucas do Rio Verde e fundador da Vanguarda Agro, grupo que atualmente cultiva 300 mil hectares de grãos e algodão.

A instalação herdada pela BRF mudou o cenário da região. Tapurah, por exemplo, um município de apenas 15 mil habitantes, tornou-se o maior fornecedor de leitões para a empresa. No ano passado, os associados à Appa entregaram à BRF 389 mil suínos e 39,9 milhões de aves, quantidade superior ao volume entregue pelos produtores associados de Lucas do Rio Verde e Sorriso (confira quadro na pág. 40). “Com a suinocultura, nós tivemos um avanço extraordinário”, diz Eickhoff. “A arrecadação do município mais que dobrou nos últimos anos.” Em 2008, quando a produção de aves e suínos engatinhava na região, as receitas do município eram de R$ 18,3 milhões. No ano passado, elas somaram R$ 38,4 milhões, equivalente a um crescimento de 110% em seis anos. “Esse aumento de arrecadação se transformou em benefícios para a população, principalmente em educação e saúde”, afirma Eickhoff. Mas o prefeito acredita que a agroindústria no município pode crescer ainda  mais. “A criação de bovinos, por exemplo, vai se intensificar em função do uso dos dejetos suínos para a fertirrigação dos pastos”, diz. Atualmente, o rebanho de Tapurah é estimado em 52 mil bovinos. “Também vejo um grande potencial para a produção de leite.”  

LIÇÃO DE CASA – Como produtor, Eickhoff vem fazendo a lição de casa na Granja Asa Branca, de 286 hectares em Tapurah, na qual já investiu R$ 9 milhões para criar aves. No ano passado, a granja produziu 3,8 milhões de aves e faturou R$ 2,1 milhões. Para gerir os negócios, Eickhoff conta com a ajuda dos filhos Leonardo e André. De acordo com Leonardo, a área de apenas 24 hectares da fazenda, na qual está concentrada a atividade avícola, gera um faturamento correspondente a 700 hectares cultivados com soja. “No entanto, o investimento na granja é muito maior do que na soja, e o manejo exige muita dedicação”, diz Leonardo. Eickhoff afirma que, a diversificação é recompensadora nas propriedades que mantêm as finanças controladas rigorosamente. “É preciso ter todos os custos na ponta do lápis e melhorar sempre a produtividade.” 

Para o produtor Alessandro Dalmaso, 37 anos, da fazenda São Roque, de 620 hectares em Sorriso, o maior desafio na verticalização das propriedades é justamente monitorar a contabilidade do negócio. Dalmaso, que se associou à Appa por causa dos suínos, também cria gado nelore, cultiva soja e milho e ainda pretende plantar eucalipto e teca a partir de 2016. “A manutenção da estrutura física
da fazenda é o grande desafio”, diz Dalmaso. “No longo prazo, a remuneração pode não cobrir as perdas com a depreciação das instalações.” Para ele, é necessário conquistar uma melhor performance a cada ano. “Temos de investir sempre em tecnologia e no aumento da produtividade”, diz ele. “Em Mato Grosso, será possível produzir mais alimento por hectare do que em qualquer outro lugar do Brasil.” 

A exemplo de colegas como Dalmaso, Capeletti e Eickhoff, Júlio Cimpak, dono da fazenda Boa Esperança, de 3,5 mil hectares, em Lucas do Rio Verde, é um exemplo de associado da Appa que vem
se destacando. Economista de formação, Cimpak é um dos maiores produtores de ovos férteis da região. Com 120 mil galinhas poedeiras, no ano passado, ele entregou à encubadora da BRF 21,6 milhões de ovos. “Precisamos focar na proteína. Hoje o negócio é otimizar a fazenda”, diz Cimpak, 53 anos. “Se não fizermos isso, não seremos competitivos no futuro.” Cimpak mantém a mesma receita dos
demais, cultiva soja e milho, cria nelore, produz aves e está apostando na piscicultura desde 2013, com a criação de pintado. No ano passado, foram vendidas 120 mil toneladas, por R$ 840 mil. 

CADEIAS PRODUTIVAS De acordo com estudos do Imea, aos poucos Mato Grosso vai caminhando para uma organização sistêmica de suas cadeias produtivas. As projeções indicam que, em 2022, a agroindústria estará apta a processar três milhões de toneladas de carne, uma capacidade 57% superior ao patamar atual, de 1,9 milhão de toneladas. Na avicultura, o Imea prevê um crescimento de 82%,
saindo de 547 mil para 997 mil toneladas de carne. Hoje, são criados de carne processada para 373 mil toneladas em 2022. O atual rebanho de pouco mais de 2,3 milhões de animais gerou no ano passado um VBP de R$ 842 milhões. 

O desafio para os próximos anos é gigantesco, principalmente na industrialização da produção, já que a atual capacidade de abate de aves e suínos não atenderia a todo o potencial produtivo da região. De olho nisso, a BRF já tem um projeto de expansão para a unidade de Lucas do Rio Verde. Segundo Fabrício Delgado, diretor de agropecuária da BRF , a partir de 2017 a unidade estará apta a processar 500 mil aves e dez mil suínos por dia, 66% acima da atual capacidade para aves e de 122% para os suínos. “Estamos satisfeitos com os resultados em Mato Grosso”, afirma Delgado. “É um projeto consolidado, bem-sucedido e vai continuar crescendo.”

Do Brasil para o mundo

Produzir com valor agregado traz mais divisas para o País

Em 2014, o Brasil exportou 4,1 milhões de toneladas de carne de frango e 505,7 mil toneladas de carne suína. A receita foi, respectivamente, de US$ 7,9 bilhões e US$ 1,6 bilhão. Para o presidente
da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Francisco Turra, produzir carne é uma forma inteligente de gerar mais divisas. “O Brasil já passou por várias fases na agricultura. Agora, a grande
revolução é a agregação de valor”, diz Turra. Segundo estimativa da ABPA, se, em vez da carne de frango, fossem exportados o milho e a soja consumidos para alimentar as aves, o faturamento com os embarques desses grãos seria de apenas US$ 1,8 bilhão. “Temos de exportar um menor volume de produtos, mas que traga mais dólares para o País.” Tomando o preço médio das exportações, a comparação é ainda mais visível em favor da agregação de valor. Enquanto cada tonelada de carne de frango foi exportada por uma média de US$ 1,9 mil e a tonelada de carne suína foi vendida por cerca de US$ 3,2 mil, a tonelada dos grãos de milho e de soja saíram do País por preços médios de US$ 188 e US$ 509, de acordo com dados do Ministério da Agricultura. “Estamos crescendo, mas esse é um processo gradativo que requer investimentos, capacitação de mão de obra e inovação tecnológica”, diz Turra. 

Nós, os produtores, fizemos história

Além de ser conselheiro na diretoria da Vanguarda Agro, o produtor de origem gaúcha Otaviano Pivetta está em seu terceiro mandato como prefeito de Lucas do Rio Verde (MT). Os dois primeiros mandatos foram exercidos entre 1997 e 2004. Mas sua influência vai muito além dos limites do município. Nas últimas eleições, Pivetta foi o coordenador-geral da campanha do candidato vencedor Pedro Taques(PDT) ao governo do Estado e seu braço direito na formação do secretariado. Em entrevista exclusiva à DINHEIRO RURAL, ele conta como a avicultura e a suinocultura entraram em sua história, além de sua participação para levar a BRF para o município.

Desde quando o sr. cria suínos?
Meu avô e o meu pai criavam suínos. Em 1983, quando me mudei do Rio Grande do Sul para Mato Grosso, meu sonho era a suinocultura. Mas a realidade era bem diferente naquela época. A década de 1980 foi de muitas inseguranças e de metamorfose na agricultura. Só em 1989 comecei a criar suínos. Fui um dos primeiros, mas não havia frigorífico na região. Os animais eram abatidos em Belo Horizonte, Curitiba ou Salvador. Muitos produtores desistiram da atividade por causa dessa precariedade.

Como foi a chegada da BRF?
Foi um processo natural. Na época, a Sadia tinha interesse em fazer uma expansão de seus negócios e viu em Lucas um ambiente favorável. Houve benefícios fiscais do Estado, uma contrapartida do município, e os produtores se comprometeram a participar da iniciativa. Toda a implantação de granjas ocorreu em função da demanda da atual BRF por matéria-prima. 

Como o sr. avalia a região nos dias de hoje?
Se estou aqui até hoje, é porque deu certo. Acho que valeu a pena acreditar. Nós, produtores, fizemos história. Em 2014, produzi 160 mil suínos. Neste ano, espero produzir 260 mil animais. A região se tornou muito importante para o Brasil. 

Qual é a perspectiva de futuro?
Temos condições favoráveis para crescer muito na produção de carne. No futuro, haverá novos projetos e outras empresas nacionais e estrangeiras interessadas na região. A produção de alimentos é uma das atividades em que o Brasil é mais competitivo e essa importância vai aumentar. Mato Grosso pode oferecer muito mais para o País. O caminho é a verticalização da produção e sempre investir nas nossas safras. Só nos falta uma melhor infraestrutura e logística. 

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