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Pastagem soberana

Como a tecnologia brasileira em forragens tropicais pode ajudar a criar mais gado e abrigar a produção de grãos no mesmo espaço

Pastagem soberana

Fotos: Kelsen Fernandes

O País tem 167 milhões de hectares de pastagens, a maior parte destinada à criação de gado para a produção de carne e leite. A novidade dos últimos tempos é que 120 milhões de hectares, 72% dessa área, que constituem as chamadas pastagens cultivadas, representam uma oportunidade para impulsionar de vez a produção de alimentos, sejam de origem animal, sejam de origem vegetal, ou ainda criar um mercado cada vez mais diversificado de produtos florestais. O caminho mais curto para aproveitar essa oportunidade é a integração, hoje concebido como sistema ILPF (Integração Lavoura-Pecuária-Floresta). “Em todo caso, definitivamente, as pastagens precisam ser vistas como uma cultura, como acontece com o milho, a soja ou o feijão”, diz a engenheira agrônoma Cacilda Borges do Valle, da Embrapa Gado de Corte, em Campo Grande (MS), pioneira no estudo de braquiárias adaptadas ao solo basileiro e uma das mais importantes cientistas do mundo nessa área. “Foi criando boi a pasto que chegamos à posição de maior exportador mundial de carne bovina, agora é preciso dar um salto de qualidade nessa criação.”

A pecuária nos dias atuais tem dois grandes desafios: ceder parte de sua área para a agricultura e tornar as áreas exclusivas para pastagens em lavouras de capim e de gramíneas. No primeiro caso, a tarefa cabe exclusivamente aos produtores. No segundo, os produtores precisam da ajuda da ciência e das empresas de tecnologia que desenvolvam sementes com alto poder produtivo.

Segundo Jorge Matsuda, pecuarista e presidente do Grupo Matsuda, de São Paulo,  uma das mais importantes sementeiras do País, com receitas anuais de R$ 600 milhões, a ciência hoje é uma corrida contra o tempo. “Nosso crescimento tem ficado acima de 20% ao ano, muito em função da demanda por sementes aptas aos sistemas de integração”, diz Matsuda.  “Nos nossos campos de testes, grande parte das novas cultivares são para atender a esse mercado.” Esse fenômeno, tem se acelerado nos últimos cinco anos, observa o agrônomo Gustavo Silva, responsável pela linha de forrageiras da americana Dow Agroscience, no Brasil. “Hoje, o produtor está em busca de um pacote mais completo de tecnologias”, afirma Silva. “Elas precisam render mais por área plantada e serem mais resistentes a pragas, o foco é a produtividade.”


“Foi criando boi a pasto que chegamos a posição de maior exportador mundial de carne bovina” Cacilda do Valle, pesquisadora da Embrapa

Nas últimas décadas, foi o uso excessivo e sem técnicas adequadas de manejo e recuperação do solo que levou grande parte das pastagens à degradação e a níveis baixíssimos de produtividade. De acordo com o agrônomo Manuel Claudio Macedo, que também é pesquisador da Embrapa Gado de Corte, a produtividade média da pecuária é de seis arrobas por hectare por ano, mas há quem indique quatro arrobas por hectare ou até menos nas áreas muito degradadas. “Com pastagens de alto valor nutritivo, a produtividade poderia triplicar, indo a 18 arrobas”, diz Macedo. Numa conta simples, é como se o Brasil deixasse de produzir,  anualmente, cerca de 24 milhões de toneladas de carne bovina em função de pastos deficientes. Isso é mais do que o dobro da produção brasileira, que foi de dez milhões de toneladas, em 2014.

No País não há dados únicos que apontem de forma categórica quanto das áreas de pastos precisam de recuperação, mas, em todos os levantamentos essas áreas são gigantescas (confira entrevista na pág. 54). Macedo, da Embrapa, diz que há 30 milhões de hectares que são considerados prioritários para serem recuperados nos próximos dez anos, principalmente, em regiões que se tornaram polos de produção, nos Estados de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais. “Com a integração, assim que essas áreas forem recuperadas, teremos um impacto fantástico na produção de carne e de grão”, diz Macedo.

O pesquisador João Kluthcouski, conhecido como João K, da Embrapa Arroz e Feijão, há mais de três décadas estuda sistemas de integração e já criou alguns modelos que são referência, como o Santa Fé e o Santa Brígida. Nas suas contas, haveria, atualmente, 103 milhões de hectares de pastagens com baixa produção. “Esses pastos estão no limite: ou são recuperados através da integração com a lavoura ou quebram de vez”, afirma Kluthcouski. Só em solos arenosos há 50 milhões de hectares de pastos ruins, parte deles em Estados ricos, como São Paulo e Paraná. “Em São Paulo, são pelo menos oito milhões de hectares, e no Paraná dois milhões.” Mas, no topo da lista estão Goiás, com 12 milhões de hectares, Mato Grosso com dez milhões, e Mato Grosso do Sul com nove milhões.

As áreas já consolidadas com projetos de integração somam dois milhões de hectares. Há quatro tipos de projetos de integração que podem ser implantados: lavoura-pecuária, lavoura-floresta, pecuária-floresta e lavoura-pecuária-floresta. Para a agrônoma Cacilda, da Embrapa Gado de Corte, quanto mais produtivas forem as cultivares utilizadas nos sistemas pecuários, que representam a maior parte dos projetos de integração, mais as pastagens abrem espaço para a diversidade na produção. “O desafio da pesquisa é, justamente, aprimorar ainda mais as cultivares, atribuindo características que casem perfeitamente com a integração”, diz a pesquisadora. “Entre elas, estão a adaptação à maior incidência de sombra e à menor competição por nutrientes.”


Demanda: para o agrônomo Gustavo Silva, da Dow Agroscience, o produtor quer tecnologias mais completas

Também há consenso de que é possível manter o atual rebanho bovino em uma área de cerca de 90 milhões de hectares de pastagens. Com isso, seriam liberados 70 milhões de hectares para outras atividades, área superior aos 57 milhões de hectares atualmente destinados à produção de grãos e fibras. “Parte dessas terras, ao serem convertidas pelos sistemas de integração, formam um patrimônio de tecnologias tropicais que nenhum país do mundo possui”, diz Kluthcouski, da Embrapa Arroz e Feijão. “Não a toa, tem até pesquisador dos Estados Unidos, onde a princípio seria impossível fazer integração, de olho nas nossas tecnologias.”


Em alta: para Jorge Matsuda, presidente do Grupo Matsuda, a ciência é hoje uma corrida contra o tempo