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A Terra prometida

Saiba como os agricultores da pequena Chapadão do Céu, em Goiás, levaram o município a ser o número 1 do Brasil no recém-criado Índice de Desenvolvimento Rural

Olhando do alto, Chapadão do Céu é um minúsculo município no sul de Goiás, plantado nas cercanias do Parque Nacional das Emas, uma das principais unidades de Conservação do Cerrado, com área de 131 mil hectares de vegetação nativa. Para além do parque estão imensas plantações de soja, milho, algodão, feijão, sorgo e cana-de-açúcar, em outros 160 mil hectares de áreas agricultáveis totalmente planas que se perdem no horizonte. Vista de cima, Chapadão do Céu, que nasceu a partir de uma fazenda, mais se parece com um grão numa lavoura. Na verdade, uma plantação altamente produtiva. Um estudo inédito,encomendado pela Confederação Nacional da Agricultura (CNA) ao Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (IBRE/FGV), do Rio de Janeiro, mostra Chapadão do Céu como o município número 1 no Índice de Desenvolvimento Rural (IDR). O Índice considera quatro dimensões – a social, a econômica, a demográfica e a ambiental –, a partir de dados disponíveis de 5.489 municípios. Com um IDR de 0,843, o município goiano é seguido por Sapezal, em Mato grosso, com 0,834. Por sinal, dos dez municípios mais bem classificados, oito são do Centro-oeste e apenas dois do sul-sudeste (veja o quadro na página 40).

Uma simpática moradorada cidade, dona Nadyr Garcia Cunha, que neste mês completa 79 anos, tem uma resposta na ponta da língua para justificar o primeiro lugar alcançado no IDR. “O Alberto queria um lugar com qualidade de vida para morar e criar os filhos”, diz. O Alberto ao qual ela se refere é seu marido, Alberto Rodrigues da Cunha, fundador da cidade em 1982, produtor rural e técnico agrícola formado na universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais. Quando faleceu, em 2001, “Seu” Alberto, como os moradores da cidade o chamavam, cumpria o segundo mandato como prefeito. “Chapadão do Céu, para ele, era a sua casa”, lembra a viúva. Dona Nadyr diz que essa casa especial estava no sangue. E explica: a Fazenda Formosa, que deu origem ao município, tinha 125 mil hectares no final do século 19, quando passou à pertencer à família Garcia. Herdeira das terras, a mãe de “seu” Alberto, Amélia Garcia Cunha, deixou o patrimônio em nome dos netos. No caso de Alberto e Nadyr, cada um dos nove filhos herdou 420 hectares. Foi nas terras de um deles, Ronan, hoje com 46 anos e que não se tornou fazendeiro como os irmãos porque teve traumatismo durante o parto, que “seu” Alberto ergueu Chapadão do Céu. “Tenho muito orgulho do legado do meu filho especial”, diz dona Nadyr. Hoje ela dirige uma creche para 120 crianças, baseada na pedagogia Waldorf, do alemão Rudolf Steiner, que prega paciência, brincadeiras e liberdade na educação. “A teoria serve para o campo e para a cidade”, afirma dona Nadyr. Steiner também é o pai da medicina antroposófica e do conceito de agricultura biodinâmica, na qual o equilíbrio é a chave do negócio.

?Para se ter uma pequena amostra de como pensava o fundador da cidade, uma década antes da realização no Rio de Janeiro da RIO-92 – a conferência mundial patrocinada pela ONU, na qual as questões ambientais assumiram de vez um espaço não só econômico, como também político e social –, basta dar um pequeno passeio nos limites da cidade com as plantações. Nas regiões dos chapadões tropicais do Brasil Central, como o próprio nome sugere, não há morros ou montanhas que possam servir de barreiras naturais à agressão de fertilizantes espalhados nas lavouras. Por isso, para dar segurança e proteger os cerca de sete mil habitantes de Chapadão do Céu contra eventuais derivas de defensivos agrícolas (as chamadas perdas de produto provocadas pelo vento), a cidade é cercada por um cordão de 12 metros de largura de árvores nativas, formando um quebra-vento natural. A ideia inovadora do pioneiro Alberto foi tema de tese de mestrado defendida no instituto de urbanismo da universidade de Paris, em 1987, por uma de suas filhas, a arquiteta Marta Garcia Cunha. Foi ela quem planejou a cidade, quando tinha apenas 29 anos.

Seu irmão, o produtor e veterinário Paulo Rodrigues da Cunha, ex-prefeito da cidade como o pai, diz que Chapadão do Céu nasceu pronta para se integrar ao campo. “Sempre foi a vocação natural da região produzir alimento de forma sustentável”, afirma. Esse conceito está no DNA do município que atraiu agricultores do sul do País, dispostos a fazer a vida, e empresas como a Cargill, a Caramuru, a Louis Dreyfus, a Bunge e a Granol, com seus imensos silos à espera da produção. Nesta safra, o município deve colher cerca de 800 mil toneladas de grãos e fibras, além de 320 milhões de litros de etanol. Para 2012 e 2013, os valores da produção ainda não foram fechados. Segundo o IBGE, entre 2009 e 2011, a produção do município rendeu R$ 1,5 bilhão por ano aos agricultores. Os bons resultados não param por aí. No Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU, o município está em 18o lugar no estado e entre os melhores 800 municípios do País, com nota de 0,742.

Do pequeno grupo de sete famílias gaúchas do município de Panambi, que acreditaram no projeto de construir uma cidade, algumas ainda permanecem em Chapadão do Céu ou deixaram seus herdeiros no comando dos negócios. Entre eles estão as famílias Hoffmann, Schneider e Garcia. Rogério Hoffmann, dono da fazenda Maraney e herdeiro de Irineu Mário Hoffmann, é um deles. “Quando cheguei à cidade, aos 9 anos, havia cinco casas, um posto de gasolina e um mercadinho”, diz Hoffmann. “Vendemos um trator e 20 hectares de terras no sul para comprar os primeiros 40 hectares.” Hoje, aos 39 anos, ele produz 6,4 mil hectares de soja no verão e 6,2 mil hectares de milho na safrinha. Do total de terras cultivadas, 4,5 mil hectares são próprias, as demais são arrendadas. A média de produtividade da soja é de 60 sacas por hectare, mas o objetivo na próxima safra é chegar a 65 sacas. “Já fiz uma média de 64 sacas e hoje produzo talhões com até 72 sacas por hectare”, diz o produtor. “Na agricultura é preciso se reinventar sempre.” No estado, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), as produtividades médias na atual safra dessas duas culturas devem ficar em 50 sacas e 98 sacas, respectivamente.

Hoffmann é uma espécie de Professor Pardal de Chapadão do Céu. “Eu gosto de máquinas, e a nossa terra plana é um paraíso para elas”, diz. Não por acaso, ele é um frequentador assíduo da Agrishow, em Ribeirão Preto (SP). Na última edição da feira, em maio passado, Hoffmann adquiriu três colhedeiras e dois tratores. Pelas cotações de mercado, o valor desembolsado não fica abaixo de R$ 6 milhões. Mas, mesmo com máquinas supermodernas, ele não se dá por satisfeito. Quando acredita que alguma delas pode ser melhorada, o produtor põe logo a mão na massa. Uma de suas invenções é uma máquina de distribuição de fertilizantes, instalada em chassis de caminhões, que economiza o serviço de três tratores. Mas seu feito mais espetacular foi a transformação de 14 carretas de transporte de grãos em máquinas velozes no serviço de desembarque da carga. Com algumas adaptações, suas carretas dão conta em um minuto de tarefas que as demais levam meia hora para executar. “Com as adaptadas, faço de cinco a seis viagens por dia entre os silos e a lavoura”, diz Hoffmann. “Caso contrário seriam no máximo três viAgens.” a fazenda Maraney, que começou com um empregado, conta hoje com 60 pessoas para tocar a lavoura, uma transportadora e a armazenagem, que começou a funcionar em 2003. Atualmente, a fazenda pode estocar 18 mil toneladas de grãos.

A família da produtora Margot Schneider também estava na caravana de Panambi, junto com os Hoffmann. Ela chegou ao município aos 18 anos, com o pai Roland Wink, para cultivar soja. “Entramos na cidade um ano depois de sua fundação”, diz. Hoje, com o marido Renato Schneider e três filhos já integrados à produção rural, Margot está à frente do grupo Wink. Há oito anos a família faz a integração lavoura-pecuária, uma das poucas experiências do gênero, na região, além investir em armazenagem e transporte de grãos. Há uma década, os Wink iniciaram na agricultura de alta precisão e se transformaram em referência em Goiás. A gestão da lavoura é feita por talhão de cerca de 100 hectares cada um, nos 3,7 mil hectares de área cultivada. Nesta safra, a produtividade por hectare foi de 66,9 sacas de soja e 175 sacas de milho, entre as maiores de Goiás. Para o algodão, que divide espaço com o feijão, nos últimos 15 anos a produtividade média de suas lavouras tem sido de 95 arrobas de pluma por hectare. “A agricultura de precisão tem um apelo ambiental”, diz Margot. “Ela acaba com o desperdício de fertilizantes e defensivos, evita a saturação do solo e, o mais importante, não contamina o lençol freático”.

Na visão da filha de Margot e Renato, a veterinária Carine, que atualmente cursa MBA em agronegócio na Fundação Getulio Vargas, a família conseguiu sair da condição de colonos para a de empresários rurais. “Fizemos da terra um negócio sólido”, diz Carine, que cuida do RH e de parte da administração das lavouras. na época em que seu avô Roland desembarcou em Chapadão do Céu para cultivar um lote inicial de 250 hectares, o valor de cada um deles não passava de 200 sacas de soja. Atualmente, o preço da terra no município equivale ao de 800 sacas por hectare. “Ninguém vende nada por menos de R$ 40 mil o hectare”, diz Carine. “Mesmo assim, queremos expandir os negócios.” Para dar vazão a esse projeto, desde 2007 a família se dividiu entre Chapadão do Céu e Porto Nacional, no estado do Tocantins. “Vamos replicar o modelo de negócio que deu certo em Goiás”, diz Carine. Em cinco anos, a previsão é cultivar dez mil hectares de lavouras em áreas arrendadas, dos quais 3,5 mil hectares já estão em produção.

Primos de Margot, os irmãos Ronan Júnior, Sérgio e Fausto Garcia, do grupo Uniggel, embora estejam com os pés fincados no município, onde chegaram com o pai, o agricultor Ronan Garcia, mas ficam de olho nas oportunidades de negócios. Atualmente, o trio cultiva 40 mil hectares em Goiás, Mato Grosso do Sul e Tocantins, dos quais metade são terras próprias. Em Chapadão do Céu, cultivam 15 mil hectares, divididos em duas safras. No total são 1,3 milhão de sacas de soja, 800 mil de milho, 350 mil de arroz, 200 mil de sorgo e 22 mil arrobas de algodão em pluma. Os irmãos, que também investiram em silos para armazenar quase 50 mil toneladas de grãos, são concessionários da fabricante de tratores Case e ainda neste ano devem se tornar representantes da Bayer. Mas a menina dos olhos do grupo é a Uniggel Sementes, criada há 15 anos. “A fertilidade do solo você constrói e a tecnologia é imprescindível para isso”, diz Ronan Júnior, diretor de operações do grupo (Sérgio é diretor financeiro e Fausto é o presidente).

Para o agrônomo Evaldo Cervieri, doutor em sementes e dono da consultoria Vetor Seeds, de Serafina Correa (RS), os Garcia já começam a se posicionar entre os grandes vendedores do setor no País. “Se um bom produtor utiliza a sua semente e volta no ano seguinte, isso baliza preço e mercado”, diz Cervieri. “É o que tem acontecido com eles.” O grupo Uniggel, que emprega dez agrônomos e 15 técnicos agrícolas, multiplica semente de soja para a Bayer, Nidera, Monsoy e CTPA. O crescimento da safra atual para a próxima está previsto em 20%, passando dos atuais 950 mil sacos de 40 quilos de sementes para 1,1 milhão de sacos, entre Chapadão do Céu, mais Lagoa da Confusão e Campos Lindos, ambas no Tocantins.

Ronan Garcia Júnior, assim como Margot Schneider, sua prima por parte de mãe, diz que a expansão dos negócios para além das fronteiras de Chapadão do Céu foi estimulada pela chegada da cana-de-açúcar ao município, a partir de 2006. A usina Cerradinho Bio, que pertence à família do empresário paulista Luciano Sanches Fernandes, está produzindo nesta safra 320 milhões de litros de etanol e 191 mil megawatts de energia, quantidade suficiente para abastecer uma cidade de 200 mil habitantes. A lavoura de 40 mil hectares totalmente mecanizada, com moagem de 2,9 milhões de toneladas de cana, levou a empresa a um faturamento bruto de R$ 450 milhões e um Ebtida de R$ 110 milhões no ano passado. “Acreditamos que é possível chegar a 5,5 milhões de toneladas processadas por ano”, diz Walter Di Mastrogirolamo, gerente industrial da usina. Para crescer, a empresa já tem arrendados 12 mil hectares de pastos degradados na região. A equipe de dois mil funcionários pode aumentar ainda mais.

Segundo o produtor de soja e milho e atual prefeito Rogério Pianezzola (PP), mais conhecido como graxa, eleito com 70% dos votos em 2012, o desafio de Chapadão do Céu é conciliar o bem-estar social com a chegada em massa de trabalhadores rurais para trabalhar com a cana-de-açúcar. “Quando a usina foi implantada, a cidade tinha cinco mil habitantes”, diz. “É preciso reestabelecer o equilíbrio local entre serviços públicos e a qualidade de vida, que sempre foi muito boa para os seus moradores.” Nos últimos seis meses, a prefeitura recuperou 330 quilômetros de estradas vicinais por onde escoa a safra de grãos e está levantando do nível do solo a principal estrada municipal, que liga 20 importantes fazendas, para acabar com os atoleiros no tempo das chuvas. “A obra vem sendo feita com a contribuição financeira dos produtores.”

Chapadão do Céu conta com um orçamento de r$ 35 milhões por ano, dos quais 50% são de ICMS gerado pelo agronegócio. Pianezzola diz que o transporte e a saúde estão em sua agenda diária. Funcionários das duas secretarias confirmam: todos os dias, às seis da manhã, o prefeito passa pelas obras viárias e, às sete da manhã, pelo hospital. O secretário de saúde Rozenildo Apolinário lima afirma que Chapadão do Céu tem hoje um problema que é nacional: com o crescimento da cidade, faltam médicos. Apesar de contar com dez profissionais, ele se ressente das dificuldades para contratar mais um cardiologista. “Pagamos salários entre R$ 30 mil e R$ 40 mil, mas os únicos médicos que encontramos querem R$ 50 mil para vir para cá”, diz Lima. Para o único cardiologista da cidade, Silvestre Ribeiro Costa, que também é médico sanitarista e que está há seis meses em Chapadão do Céu, o trabalho, de fato, tem aumentado. “Além da população maior, a cidade atrai muitos pacientes de outros municípios”, diz. Lima confirma esse diagnóstico. Atualmente, 4,5 mil consultas são realizadas por mês, ante duas mil até poucos anos atrás.

Entre aqueles que não reclamam do acúmulo de gente em Chapadão do Céu estão os comerciantes, porque não são apenas pacientes do hospital que vão à cidade em busca de serviços médicos. O empresário Armando Vizzotto Júnior, há nove anos em Chapadão e dono dos dois melhores hotéis locais, já planeja o terceiro empreendimento. “Começamos com 14 apartamentos e atualmente temos 64”, diz. “Do total de hóspedes, 70% são ligados ao agronegócio.” A maior parte dos outros 30% é formada por turista estrangeiros (ingleses, alemães e italianos, notadamente) que desembarcam em Chapadão do Céu, entre julho e dezembro de cada ano, para visitar o Parque Nacional das Emas, um santuário da fauna e flora brasileiras.

Se visse gente como Vizotto Júnior circulando pelas amplas avenidas asfaltadas construídas na antiga fazenda da família, seguramente, “Seu” Alberto, o fundador da cidade, daria um largo sorriso. Dona Nadyr lembra que um dos motivos que o levou à visão de deixar uma marca urbana no Cerrado goiano era não ter, num raio de 150 quilômetros de suas terras, um lugar para comprar uma caixa de fósforo, uma lata de óleo ou um litro de combustível. “Tenho certeza de que ele estaria muito orgulhoso com nossa posição no IDR, apesar de termos muito trabalho para fazer nosso futuro acontecer”, afirma dona Nadyr . “Mas hoje, em Chapadão do Céu, é fácil ter uma caixa de fósforo sempre à mão.”