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Entrevista

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Entrevista

Por Eduardo Savanachi
Edição 01/11/2010 - nº 73

O representante da FAO no Brasil aponta os desafios para o aumento na produção de alimentos, defende a criação de políticas de segurança alimentar e afirma que o País é um modelo que deve ser seguido por outros países

 

Desde que desembarcou no Brasil, há pouco mais de dois meses, o moçambicano Helder Muteia divide seu tempo entre reuniões, palestras e visitas às principais regiões agrícolas brasileiras. O objetivo do representante da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO ) é conhecer de perto o potencial agrícola que pode consolidar o País como grande fornecedor de alimentos para o mundo. Em entrevista exclusiva à DINHEIRO RURAL , Muteia fala dos desafios para a produção de alimentos e o papel do agronegócio brasileiro no combate à fome mundial.

“A produção agrícola terá que crescer 70%”

Dinheiro Rural – Os últimos dados da FAO mostram redução no número de famintos no mundo. O que motivou essa redução?

Helder Muteia – De fato, do ano passado para cá, o número de subnutridos no mundo diminuiu efetivamente de 1,23 bilhão de pessoas para 925 milhões, uma redução de quase 100 milhões de pessoas. Essa redução aconteceu mais na Ásia. Na América Latina houve uma redução mínima. Enquanto alguns países, como o Brasil, tiveram uma redução grande, outros quase não diminuíram. Um dos motivos que contribuiram para essa redução foi a estabilidade econômica. É um dado positivo porque mostra que a fome pode ser derrotada, mas nós não estamos regendo isso com entusiasmo, porque sabemos que a situação é instável e depende de muitos fatores.

Dinheiro Rural – Quais são os principais desafios para consolidar esse quadro?

Helder Muteia – Na FAO temos vários desafios. Concordamos que a maior culpada pela insegurança alimentar é a pobreza, de um modo genérico. Mas, dentro dos desafios assumidos, uma coisa é muito óbvia. É preciso aumentar a produção e a disponibilidade de alimentos. A humanidade está crescendo e é preciso produzir alimentos para fazermos essa distribuição. No ano 2050 teremos no mundo nove bilhões de pessoas e, para que correspondamos a esse desafio, a produção alimentar terá que crescer 70%. Então, a produção de alimento é fundamental, e, para isso, pequenos desafios ligados ao grande desafio da alimentação devem ser solucionados.

 

O representante da FAO no Brasil aponta os desafios para o aumento na produção de alimentos, defende a criação de políticas de segurança alimentar e afirma que o País é um modelo que deve ser seguido por outros países

Dinheiro Rural – Quais são esses desafios?

Helder Muteia – Um deles é o acesso a recursos naturais, como água e terra, essencialmente. Mas há outras precondições para que possamos ter uma agricultura competitiva. Outro tem a ver com acesso à tecnologia, porque ela tem mostrado que pode fornecer instrumentos para que possamos aumentar a produtividade e corresponder ao aumento exponencial da população. E tecnologias diversas, que atendam aos pequenos, médios e grandes produtores.

Dinheiro Rural – Mas há outros desafios…

Helder Muteia – Sem dúvida. O terceiro desafio é o acesso aos mercados, porque o agricultor não está na produção agrícola só por razões morais. Ele tem que ganhar dinheiro, se integrar ao mercado e ter preços justos, que paguem os seus investimentos. Isso é extremamente importante e requer investimentos em infraestrutura, em estradas, transporte, armazenamento. Mesmo em países desenvolvidos na agricultura, como o Brasil, há um déficit na capacidade de armazenagem.

“O programa Mais Alimentos, do governo Lula, é um

exemplo de política de elevação da produção”

Dinheiro Rural – Mas para resolver isso são necessários investimentos…

Helder Muteia – Sim. O quarto desafio é o acesso aos pacotes financeiros, sendo que 90% em concessão de crédito. Essa é uma condição fundamental para que tanto o pequeno quanto o médio e o grande produtor possam investir. Isso acontece com as tecnologias, muitas delas são extremamente caras. Só com o acesso ao crédito será possível aos produtores terem essas novas tecnologias. Mas paralelamente a isso temos outras coisas, como seguros agrícolas, por exemplo, que ajudam o produtor a arriscar mais. Antes de encorajá-los a investir é necessário que existam essas garantias de proteção também.

Dinheiro Rural – Como é possível melhorar esses pontos que o sr. colocou?

Helder Muteia – Uma coisa que tem sido debatida na FAO é a necessidade de que haja uma política de segurança alimentar. Se tivermos políticas de proteção alimentar, que possam auxiliar as camadas mais vulneráveis, aí poderemos garantir que não haja fome. E essas políticas são fundamentais. O mesmo acontece com a tecnologia que é cara. Se não tivermos políticas concretas que permitam o acesso de forma justa a essas tecnologias pelo pequeno agricultor, elas nunca serão adotadas por eles e aí aumentaremos o fosso entre aqueles que podem e não os que não podem ter acesso a elas.

 

O representante da FAO no Brasil aponta os desafios para o aumento na produção de alimentos, defende a criação de políticas de segurança alimentar e afirma que o País é um modelo que deve ser seguido por outros países

Dinheiro Rural – O sr. diz que a produção de alimentos terá que ser elevada em 70%. Qual o papel da biotecnologia nisso?

Helder Muteia – A biotecnologia é uma possibilidade e uma oportunidade. Só que ela deve ser equacionada dentro de um contexto em que alguns princípios devem ser salvaguardados. Primeiro, de garantir que tudo o que venha a ser produzido a partir da biotecnologia seja testado para não oferecer riscos à humanidade. Segundo, não se pode perder de vista o potencial de a biotecnologia trazer coisas boas. Outra coisa: tem que se resolver o problema do acesso, já que a biotecnologia custa caro. E isso pode favorecer os agricultores mais ricos e os monopólios. Então é muito importante que essa abordagem da biotecnologia seja feita com muita ética e com todos os instrumentos científicos que nós temos, de forma que ela venha a desempenhar um ganho para a sociedade e não um fator complicador.

“Não adianta levar apenas tecnologia para a África. É preciso exportar um modelo rural completo”

Dinheiro Rural – Como o sr. avalia a posição do Brasil diante desses desafios?

Helder Muteia – O Brasil cresceu muito nos últimos anos, do ponto de vista do combate à fome, não só aumentou a produção, como introduziu políticas de segurança alimentar. O Programa Fome Zero, por exemplo, é tido pela FAO como uma política muito concreta e corresponde à realidade brasileira. O Brasil teve muito sucesso, do ponto de vista de uma política de agronegócio, no aumento de produção e de segurança alimentar.

Dinheiro Rural – O modelo brasileiro pode ser exportado para outros países?

Helder Muteia – Para nós o Brasil é um laboratório, mas não temos que copiar milimetricamente o que foi feito aqui. Porque em outros locais as realidades são diferentes, as necessidades são deferentes e o poder econômico também. Então, temos que adaptar o pacote para diferentes realidades.

Dinheiro Rural – De que forma é possível transferir experiências respeitando essas culturas?

Helder Muteia – Já existem algumas iniciativas de transferência de experiências, mas estão restritas ao campo da pesquisa. Falando especificamente da África, o que eles precisam é de um pacote e de um modelo mais completo. Eu me referi a quatro frentes fundamentais: terras, tecnologia, crédito e mercado, mas existem outras. Se a gente leva só tecnologia e ela requer maquinário e não há dinheiro para isso, fica complicado. Então, o que tem que ser transferido é um modelo de produção, que reúna todos esses elementos.

Dinheiro Rural – Teria que haver uma transferência de politicas…

Helder Muteia – Sem dúvida. Eu fiquei entusiasmado com o Programa Mais Alimentos, do governo Lula, porque esse programa traz todos esses elementos. Cria oportunidade de créditos, que geram acesso à terra e à água e ao mesmo tempo porque há o compromisso de compra, e finalmente fornece o pacote tecnológico. Essa experiência seria muito mais completa para levarmos para os países africanos, do ponto de vista de cooperação. Isso porque trata-se de algo muito mais completo do que levar só a tecnologia. Essa seria apenas uma etapa de muitas outras que precisariam ser cumpridas.

 

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