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Entrevista

A agricultura não se resume em jogar uma semente no chão e entregar um grão lá na China

A agricultura não se resume em jogar uma semente no chão e entregar um grão lá na China

Almir Dalpasquale, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja

Vera Ondei, de Campo Grande (MS)
Edição 02/10/2015 - nº 130

D esde que assumiu a presidência da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil), em maio do ano passado, a vida do agricultor Almir Dalpasquale tem sido pautada por uma intensa agenda de viagens. A principal rota percorrida é uma espécie de ponte área particular, entre a região Norte do Estado de Mato Grosso do Sul, onde cultiva grãos e cria gado, desde 1988, e Brasília, onde está localizada a sede da entidade. Somente com a ministra da Agricultura, Kátia Abreu, Dalpasquale já se encontrou uma dezena de vezes. Sem contar os inúmeros eventos e reuniões do setor. No início de setembro, durante a Bienal dos Negócios da Agricultura – Brasil Central, realizada na capital sul-mato-grossense, Dalpasquale falou com exclusividade à DINHEIRO RURAL. “Nós não somos os salvadores do planeta porque produzimos alimentos, mas não negamos esse legado”, diz o atual presidente da Aprosoja, que também é presidente da Comissão de Grãos da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). “A agricultura não se resume a jogar uma semente no chão e entregar um grão lá na China”

DINHEIRO RURAL – A agricultura está preparada para atravessar esse período de turbulências da economia brasileira? 
ALMIR DALPASQUALE –
A maior parte dos agricultores vem se preparando há algum tempo, porque a economia vive de ciclos. Quem não se preparou para as turbulências deve pagar bastante caro por isso. Mas, mesmo para o grupo de agricultores que faz a gestão de risco empresarial do negócio, a intensidade da crise assusta. Ninguém esperava ou acreditava que iríamos chegar a um enorme problema de crédito, de descontrole total da economia e também de descontrole político.  Não sabemos aonde tudo isso vai chegar.

RURAL – Em que medida o legado dos bons números do agronegócio, colhidos na última década, consegue segurar essa onda?
DALPASQUALE –
Nós vínhamos crescendo num ritmo bastante forte, impulsionado pelas baixas taxas de juros para investimentos e pelas condições de mercado muito boas, um cenário muito diferente do que se apresenta  hoje. Ao buscarem resultados para os investimentos feitos, os agricultores fizeram uma poupança rural em suas propriedades. Mas nós não somos os salvadores do planeta porque produzimos alimentos, porque tiramos do buraco a balança comercial do Brasil. No entanto, não negamos esse legado. O que precisa ficar claro é que o nosso compromisso é obter resultado, pensando no nosso negócio. A agricultura cresceu 50% em área e 250% em produção na última década. É inegável que temos uma história para contar e mostrar que, nos últimos anos, quem fez acontecer foram os agricultores.

RURAL – Por quanto tempo essa poupança pode segurar o setor? 
DALPASQUALE –
Espero que os negócios no campo continuem a dar independência ao produtor. Mas, o Brasil é muito grande e eu não sei até onde o agronegócio pode sustentar a economia, caso a política não se acalme. É preciso colocar o País no eixo e pensar no seu crescimento. Nós, agricultores, vamos continuar plantando, apesar do risco de perda de produção por causa do baixo índice de investimento no cultivo, ou de investimento no próprio negócio.


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RURAL – Um momento como o atual obriga o produtor a uma gestão mais refinada de seu negócio?
DALPASQUALE –
Em um momento de escassez de crédito, para não errar, o produtor tem de se preocupar com o refinamento de sua gestão. Essa é a grande pegada. A Aprosoja tem enfatizado aos seus associados que detalhes, tais como olhar o custo de produção e a reação do mercado, são importantes e fundamentais. Os produtores estão em busca de produtividade nas lavouras, há exemplos de resultados por hectare altíssimos, mas eles devem ser buscados com base na sustentabilidade econômica. Caso contrário, nós não conseguiremos manter o produtor vivo dentro de sua propriedade.

RURAL – É uma mudança em relação aos últimos anos, nos quais a orientação era de que o produtor precisava olhar para fora da porteira? 
DALPASQUALE –
Precisamos olhar a construção do negócio como um todo. Olhar para fora da porteira, para o que ocorre no mercado, foi um aprendizado desafiador. Agora, neste momento, voltamos, sim, a olhar para dentro da porteira, visando programas mais refinados de administração. O agricultor que procura pelos melhores insumos e pelas matérias primas que podem fazer a diferença no resultado da produção  sabe que está construindo um negócio baseado na qualidade de suas terras, e que isso pode levar anos. Uma fazenda não fica pronta de um dia para o outro.

RURAL – A produção por hectare pode crescer quanto?
DALPASQUALE –
Na agricultura empresarial, as fazendas saltaram para altas produções, muitas acima de quatro mil quilos de soja por hectare. Antigamente, nós não tínhamos uma uniformidade no plantio e uma janela adequada, e ficávamos tentando adivinhar as especificidades de cada região. Hoje, os produtores são mais assertivos no plantio da soja, e também no do milho e do algodão. Eu sempre digo que precisamos agradecer muito aos pesquisadores e também às empresas que investiram em bancos de germoplasma, em sementes melhoradas. Os desafios são gigantescos na agricultura tropical. Mas, crescemos muito e, nos últimos quatro anos,  demos um salto enorme na produção por hectare.  Lógico que em um contexto mais amplo, que englobe as pequenas propriedades, que não utilizam tecnologia adequada, a produção ainda é limitada.

RURAL – A tecnologia ainda pode ser colocada como um insumo caro para o produtor?
DALPASQUALE –
A ciência humana, por exemplo, nunca vai ter dinheiro suficiente para as suas demandas. Com o desenvolvimento da tecnologia para o campo, acontece o mesmo. Mas ela não é cara, se for vista como conhecimento que nos dá resultado. A tecnologia é o melhor investimento que podemos fazer dentro das nossas propriedades. É com máquinas, sementes, fertilizantes, agroquímicos e tecnologia da informação, cada vez mais eficientes, que avançamos na produção. Atualmente, há uma complexidade na agricultura de precisão que leva ao equilíbrio do meio ambiente, do qual não podemos abrir mão.

RURAL – Qual é a principal bandeira do campo, hoje?
DALPASQUALE –
Ter os seus direitos respeitados e reconhecidos. O Brasil cobrou do campo um alto grau de normatização da atividade agropecuária, nos últimos anos. Por outro lado, o governo falha porque faz pouco na hora de devolver ao setor a contrapartida em segurança jurídica, seguro agrícola, acesso fácil a financiamento e logística. Há um desequilíbrio nessa relação, porque o produtor não para de querer produzir cada vez mais.

RURAL –  Qual o modelo de seguro rural que funcionaria no País?
DALPASQUALE –
É preciso deixar o mercado se regular, se normatizar. Evidentemente, o Banco Central deve estabelecer regras, mas não pode enfiar qualquer coisa goela abaixo. Hoje, o Banco do Brasil trabalha com uma taxa única de até 8%, avaliando o risco produtor por produtor. Mas o sistema não permite ao produtor submeter-se a outras avaliações de risco. É preciso abrir essa função aos demais bancos e seguradoras, e colocar o agricultor como o responsável pelas informações que repassa. E se ele der informação errada para o seguro, que seja penalizado por isso. Assim, o mercado começa a ficar normatizado.


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RURAL – Ainda há resquício de uma época em que o campo era considerado um setor que dava calote, como ocorreu nas décadas de 1980 e 1990?
DALPASQUALE  –
  Isso existiu no passado, e por um fator muito ruim, que foram os sucessivos planos econômicos desastrosos daquela época. Hoje, o agronegócio é empresarial e um setor de altos investimentos, que não enxerga mais o governo como pai eterno. Mas, de fato, a nossa imagem no meio urbano é ruim quando o cidadão que tem problema com saúde,  transporte e moradia vê o governo atendendo o campo, mesmo se for com um mínimo de recursos. E ele pensa: ah, mais  uma vez estão socorrendo os barões do Brasil, o que não é verdade.

RURAL – Existe uma voz no campo para responder a esse sentimento enviesado? 
DALPASQUALE –
Nós temos dificuldade de comunicação com o meio urbano, porque sempre deixamos que a sociedade nos olhasse e tirasse as suas conclusões. Hoje, o principal papel dos nomes respeitados  do setor deveria ser o de ajudar a criar novas lideranças, para mostrar que a agricultura é uma peça importante no contexto da construção do País e que ela não se resume em jogar uma semente no chão e entregar um grão lá na China. O que fazemos é um trabalho que importa para o cidadão brasileiro, basta ver seu peso nas contas do País.

 


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