Edição nº 172 03.09 Ver ediçõs anteriores

Entrevista

Alan Kardec

Alan Kardec

O presidente da recém-inaugurada Petrobras Biocombustíveis diz que investirá pesado em pesquisas de novas teconologias

IBIAPABA NETTO
Edição 23/10/2008 - nº 48

 

é o homem que comandará os destinos dos biocombustíveis no Brasil. Com um orçamento inicial de R$ 1,5 bilhão, ele vai chefiar o braço “agrícola” da Petrobras, responsável por desenvolver tecnologias tanto para o biodiesel quanto para o etanol.

No horizonte estão países como Estados Unidos e Canadá, espécie de “líderes” nas pesquisas para a produção do etanol de segunda geração.

“Perdemos algum tempo, mas vamos alcançá-los e quem sabe ultrapassa-los até 2015”, disse em entrevista exclusiva à DINHEIRO RURAL. Os objetivos e o posicionamento dessa nova gigante, você confere a seguir

 

 

DINHEIRO RURAL – Em quais áreas a Petrobras Biocombustível vai atuar?

ALAN KARDEC – A nova subsidiária vai atuar nos negócios de produção de biodiesel e etanol para os quais estão previstos investimentos de US$ 1,5 bilhão no período de 2008 a 2012. Vale ressaltar, no entanto, que este número pode mudar, já que estamos em fase de revisão do planejamento estratégico. Estamos muito animados com as possibilidades e pretendemos ter uma atuação sólida no setor.

RURAL – Qual o papel da nova estatal ante as empresas de etanol existentes no mercado? Será de concorrente?

KARDEC – Muito pelo contrário, a entrada da Petrobras Biocombustível no mercado de etanol abre novas perspectivas e oportunidades para os produtores nacionais. O objetivo é fomentar e fortalecer o mercado externo. Prova disso é o modelo de parcerias que a empresa adotou e que pretende replicar pelo Brasil. Os Complexos Bioenergéticos (CBios) têm como política a busca de parcerias com empresas internacionais que garantam mercado no Exterior e produtores nacionais de etanol. Se continuarmos produzindo apenas o etanol de primeira geração seremos ultrapassados em breve, principalmente pelos Estados Unidos e pelo Canadá. Mas vamos empatar e quem sabe até virar este jogo.

RURAL – Mas ainda há alguns problemas técnicos com esse produto, não há?

KARDEC – Sim. Mas por enquanto. Tecnicamente a produção desse etanol a partir de resíduos, como o próprio bagaço de cana, é viável, porém não é economicamente atrativa. Partindo do bagaço de cana será possível produzir 60% mais etanol na mesma área. Acredito que até 2015 estaremos com essa tecnologia plenamente viabilizada, seja no como produzir, seja na viabilidade econômica.

RURAL – Essa nova estatal nasce com qual objetivo de mercado?

KARDEC – A meta é atingir em 2012 a produção anual de 4,75 bilhões de litros de etanol destinados ao mercado externo. De um lado será uma empresa internacional, que garante mercado, e, de outro, um produtor brasileiro de etanol, que tem a expertise e a tecnologia. Somamos a isso a imagem institucional da Petrobras, sua logística e sua rede de comercialização nacional e internacional. O objetivo é que todos ganhem com esse modelo de parcerias.

RURAL – Mas existem dúvidas se o mercado mundial vai mesmo decolar…

KARDEC – A demanda mundial por biocombustíveis é uma grande oportunidade empresarial que se abre para o Brasil. A primeira parceria foi fechada com a japonesa Mitsui e a brasileira Itarumã Participações para a implementação de um CBio no município de Itarumã, em Goiás, com capacidade de produção anual de 200 milhões de litros de etanol. Como o próprio nome sugere, os Complexos Bioenergéticos têm mais de uma função. Além do etanol, os CBios produzirão energia elétrica a partir do bagaço de cana, gerando renda adicional.

RURAL – Mas o foco parece estar mais voltado para a agricultura familiar, não?

KARDEC – Na realidade, sim. Somos uma empresa que, além de produzir energia, se preocupa com a responsabilidade social. Isso porque o projeto das usinas da Petrobras Biocombustível para produção de biodiesel está diretamente atre lado à parceria com a agricultura familiar, buscando sempre a sustentabilidade econômica, social e ambiental. Todas as usinas da nova subsidiária estão equipadas para processar diversos tipos de oleaginosas de origem vegetal, sebo bovino e óleos e gorduras residuais. Para tanto, apenas nesta primeira etapa, com foco no abastecimento das três usinas, estão sendo investidos R$ 27 milhões em iniciativas visando a assistência técnica e distribuição de sementes de oleaginosas para incentivar, fortalecer e viabilizar o projeto da agricultura familiar.

RURAL – Mas “só” a agricultura familiar será o bastante para as ambições da empresa?

KARDEC – A empresa prioriza a compra de oleaginosas oriundas da agricultura familiar e conta com uma rede de 55 mil agricultores familiares, atuando como fornecedores de matéria-prima. Adicionalmente, está sendo estruturado o modelo de parceria com cooperativas de catadores e organizações não-governamentais no meio urbano, para viabilizar o uso de óleos e gorduras residuais provenientes dos processos de fritura de alimentos na produção de biodiesel. Este modelo está sendo testado no Estado da Bahia, onde já foram recolhidos 10.200 litros de óleos e gorduras residuais.

“O presidente Lula é o grande embaixador do etanol no mundo, sempre com uma mensagem positiva”

RURAL – Como o presidente Lula tem se portado em relação à nova empresa?

KARDEC – O presidente Lula é o maior embaixador do etanol no mundo. Onde ele vai, há sempre uma mensagem positiva sobre o álcool brasileiro. Ele sabe que essa nova empresa possui um papel estratégico muito importante e a produção de energia limpa é um assunto que está na agenda do presidente. Temos certeza de que ele dará todo o apoio necessário para que a Petrobras Biocombustível seja mais um sucesso.

RURAL – Há alguma previsão sobre o volume de biocombustíveis destinado para novas plantas?

KARDEC – Estamos em fase de revisão do planejamento estratégico, que será divulgado em breve, após a sua aprovação, conforme procedimentos da Petrobras. Após está fase teremos uma definição da priorização dos projetos, estratégias, metas, investimentos e resultados esperados do negócio de biocombustíveis.

RURAL – A busca por lucros, tão presente na Petrobras, estará no DNA da nova empresa?

KARDEC – Sim, a busca da rentabilidade e sustentabilidade do negócio está presente em todos os projetos da Petrobras, e não é diferente no caso dos biocombustíveis. A Petrobras Biocombustível nasce com a premissa de buscar continuamente a otimização e melhoria dos seus processos operacionais e administrativos, seja por meio da inovação tecnológica, seja do modelo de gestão do negócio, visando: rentabilidade, produtividade, confiabilidade, com segurança, saúde e respeito ao meio ambiente.

RURAL – E as pesquisas para novas tecnologias?

KARDEC – As pesquisas para o desenvolvimento de novos produtos, tecnologias e processos continuarão sendo realizadas pelo Centro de Pesquisas e Desenvolvimento (Cenpes) da Petrobras, através dos seus núcleos de P&D, que é uma referência internacional em Petróleo, gás e biocombustíveis.

RURAL – Mas há como antecipar de que forma acontecerão essas pesquisas para o aumento de produtividade?

KARDEC – As pesquisas desenvolvidas pela Petrobras abrem perspectivas para a produção de biodiesel com a utilização mais intensa de oleaginosas abundantes na flora brasileira. Essas cultivares estão sendo testados em duas usinas experimentais do Núcleo Experimental de Energias Renováveis, vinculado ao Centro de Pesquisas & Desenvolvimento da Petrobras (Cenpes), situado em Guamaré, no Rio Grande do Norte. A Petrobras, por meio do Cenpes, também investe no desenvolvimento de biocombustíveis de 2ª geração – aqueles que têm como matéria-prima os resíduos, como o bagaço e a palha de cana e a torta de mamona. É o caso do etanol de lignocelulose, que utiliza enzimas no processo de obtenção de açúcares a partir da celulose existente. O desafio técnico já foi vencido. A corrida agora é tornar o processo economicamente viável, desenvolvendo industrialmente enzimas mais baratas. A planta protótipo está prevista para 2010.

RURAL – Até por carregar o nome Petrobras, não se corre o risco de haver uma atuação demasiadamente forte no mercado e criar patamares artificiais de preços?

KARDEC – Com certeza não. Os nossos parceiros serão os produtores nacionais e as empresas internacionais que tragam o mercado externo. Com a criação da Petrobras Biocombustível, a Petrobras se prepara para atender parte da demanda mundial crescente por biocombustíveis, além de reforçar seu compromisso com o meio ambiente e com o desenvolvimento social de forma sustentável. A produção de biocombustíveis também permitirá maior autonomia no suprimento de óleo diesel, e reduzindo a dependência do mercado externo e o volume de importações, o que contribui para melhorar o resultado da balança comercial brasileira. O mercado de biocombustíveis está aquecido, existem diversas empresas vinculadas à iniciativa privada atuando e todo esse processo é regulado pela ANP.

RURAL – Por falar em ANP, como se dará essa relação, visto que ambas empresas poderão influenciar o mercado?

KARDEC – A relação da Petrobras Biocombustível com a ANP não será diferente da com outras empresas que participam desse mercado. A Petrobras Biocombustível nasce com o conceito de parceria. Vamos realizar grande parte dos nossos negócios com parceiros. O modelo criado para os CBios prova isso. Portanto, acreditamos que a ANP continuará com o seu papel de regulamentar esse mercado.

 

“Vamos incentivar a agricultura familiar para a produção de biodiesel em regiões mais pobres”

RURAL – E no mercado global?

KARDEC – Para atuar no mercado global de etanol a empresa adotou o modelo de parcerias com empresas internacionais que tenham garantia de mercado no Exterior e produtores de cana-de-açúcar nacionais. Com este modelo, a meta é produzir 4,75 bilhões de litros anuais de etanol em 2012, destinados ao mercado externo.

RURAL – Qual a configuração inicial da empresa em número de usinas e qual sua meta de crescimento?

KARDEC – A Petrobras Biocombustível inaugurou recentemente duas usinas de biodiesel nos municípios de Candeias (BA) e Quixadá (CE). Uma terceira, localizada em Montes Claros (MG), será inaugurada em breve. A capacidade total de produção de biodiesel das três usinas será de 170 milhões de litros por ano, com investimento de R$ 295 milhões. A meta estratégica da empresa é chegar a 2012 com uma produção anual de 938 milhões de litros de biodiesel e se tornar líder no mercado nacional. Enquanto no etanol o foco é ampliar a participação no mercado internacional. A meta para 2012 é de produzir 4,75 bilhões de litros de etanol, destinados ao mercado externo.

 

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