Entrevista

Bruno de Jesus Andrade, principal executivo da Associação Brasileira de Confinadores

Bruno de Jesus Andrade, principal executivo da Associação Brasileira de Confinadores

Se tem algo que orgulha o zootecnista Bruno de Jesus Andrade, gerenteexecutivo da Associação Nacional dos Confinadores (Assocon),

Bruno Santos
Edição 01/11/2014 - nº 120

são os cursos de capacitação de peões e técnicos que trabalham nas unidades de engorda intensiva de gado, projeto que nasceu em 2010. Esses cursos da Assocon, na verdade, são apenas a ponta do iceberg nas discussões sobre um setor que movimenta R$ 5 bilhões por ano. Nesta safra, a previsão é colocar nos frigoríficos 4,2 milhões de bois confinados. Segundo Andrade, por pressão do mercado, o confinamento no País se aproximará do modelo americano. O gerenteexecutivo da Assocon esteve com a DINHEIRO RURAL para falar sobre esse e outros temas importantes do setor.

RURAL – O que as pesquisas de intenção de confinamento realizadas pela Assocon têm mostrado ao mercado?
BRUNO DE JESUS ANDRADE – Elas têm mostrado que existe, por parte do pecuarista, uma vontade de apostar no sistema de engorda intensiva de bovinos. Neste ano, as pesquisas apontam um crescimento de 5% na intenção de confinamento dos associados à Assocon, em relação a 2013. Extrapolando para toda a pecuária, porque nem todo confinador está associado à entidade, são 4,2 milhões de animais nesta safra. Para ter uma ideia, somente em 1994 o País chegou à casa de um milhão de bovinos confinados.

RURAL – E o que esperar para 2015?
ANDRADE – O próximo ano será um período de muitas incertezas. Por isso, seria bom o produtor não se endividar, independentemente do que ocorra. Para 2015, há elementos indicando que pode ser um ano bom para os confinadores, por conta de uma maior oferta de milho. O cereal é o principal insumo na alimentação do boi, o que reduz o custo da criação. Mas também pode ser um ano ruim, por conta do mercado consumidor de carne bovina, que pode vir abaixo, da inflação em alta e da competição com a carne de frango.

RURAL – Como negócio, o modelo de confinamento seguido pelo Brasil está com o foco bem ajustado?
ANDRADE – É preciso reflexão sobre esse tema. A pecuária extensiva no País, com seus 200 milhões de animais, não deve crescer em área, podendo até perder espaços já consolidados por pressão dos grãos e por  exigências ambientais. Nos confinamentos, todas as tecnologias utilizadas têm origem americana. Porém, o modelo de pecuária dos Estados Unidos, fortemente verticalizada e concentrada, não é o mesmo da pecuária brasileira, no qual os elos da cadeia produtiva não estão integrados. Aqui, cada um produz por si. Mas é preciso aprimorar o nosso sistema de engorda de animais. Por pressão do mercado, o confinamento no País se aproximará do modelo americano. Não que o Brasil vá abater 90% de seus animais oriundos de confinamento, mas o uso do dinheiro rural/120-NOVEMBRO-2014 19 sistema como forma de integrar a cria à engorda cada vez mais vai se assemelhar ao modelo americano.

RURAL – Em que base esses modelos se aproximariam?
ANDRADE – Isso já acontece à medida que se estruturam no Brasil as unidades de prestação de serviços de engorda. Nos Estados Unidos são os grandes confinamentos que engordam a totalidade dos animais abatidos. Por aqui, os serviços de engorda surgiram como uma oportunidade de negócio, em meio à descapitalização de boa parte dos produtores de bois que não tinham condições de construir seus próprios confinamentos. Hoje, a terceirização da engorda não tem mais esse viés. Ela passou a ser parte da estratégia de gestão de muitos pecuaristas. 

RURAL – Mas confinar no modelo americano não contradiz o marketing que o Brasil sempre fez no mundo, ao vender o conceito de boi de pasto, ou o chamado boi verde?
ANDRADE – A pecuária brasileira está numa fase de transição. Não temos ainda um caminho certo definido. O fato é que não se tem hoje um sistema de produção totalmente sustentável e valorizado na pecuária. Ainda estamos tentando criar um sistema que agregue produtividade à sustentabilidade. O gado de pasto sempre vai ser parte desse sistema, sem dúvida nenhuma, mas no atual cenário é inegável a capacidade de maior produção de carne no sistema confinado. Hoje, ele responde por 10% dos cerca de 40 milhões de animais abatidos, mas pode chegar a 30% nas próximas décadas. O confinamento só não cresce mais rapidamente porque há entraves de mercado, como, por exemplo, um padrão definido para a qualidade da carcaça bovina e a sua consequente valorização. 
 

RURAL – De quem é a responsabilidade pelo fato de o Brasil ainda não ter tipificação e classificação de carcaças, medidas que levariam a separar o joio do trigo, após o abate?
ANDRADE – Quem tem poder para colocar alguma coisa no papel, com força de lei, é o governo federal. Mas a pressão para que isso ocorra deve vir da agroindústria. É ela que tem o contato com o varejo e sabe quais são as demandas do consumidor. Claro que os produtores devem se envolver numa possível definição das regras que norteiem a classificação e a tipificação do boi abatido, mas quem vai fazer essa roda girar é a indústria frigorífica. 

RURAL – Se isso ocorrer, consequentemente haverá mais gado confinado no País?
ANDRADE – Sim, com certeza esse é um caminho. Se todos os frigoríficos pagassem mais por um determinado animal, o produtor iria produzir esse animal. Embora hoje tenhamos  programas de qualidade muito bons, como Swift Black, da JBS, o programa Angus Certificado e o Carne Braford, ambos de associações de criadores, além de butiques de carne que abatem um determinado tipo de animal, falta a segurança de um programa nacional que valorize as qualidades da carne. 

RURAL – O preço do milho sempre foi um divisor de águas na decisão do pecuarista de confinar ou não o seu gado. Em que medida o cereal ainda tende a afetar essa decisão?
ANDRADE – O preço do milho pode afetar pontualmente. Hoje, por exemplo, há uma oferta muito grande de milho no mercado. Mas a integração lavoura-pecuária tende a minimizar o impacto do cereal no custo do  confinamento. Existem ainda muitas áreas de pecuária degradada que podem ser utilizadas para a agricultura. Assim, mesmo numa situação de mercado não interessante para o grão, a agregação de valor poderia ser realizada com a pecuária. Além disso, a integração melhora a qualidade do solo, que posteriormente pode se transformar em pasto de mais qualidade. É uma roda virtuosa.

RURAL – O produtor brasileiro consegue enxergar com nitidez essa tecnologia?
ANDRADE – Infelizmente boa parte deles não. Acredito que dois grandes problemas do pecuarista brasileiro, ainda, são sua cultura e a falta de conhecimento. Boa parte dos produtores não sabe como fazer um confina mento nem conhece seus processos. Por exemplo, comercializar o animal de forma antecipada através de contrato a termo com o frigorífico é outro importante recurso, mas ainda pouco utilizado.

RURAL – Em que medida essa falta de cultura e de conhecimento do pecuarista se torna uma trava ao confinamento?
ANDRADE –
Quando falo em cultura, me refiro ao medo. O produtor mais tradicional prefere não se arriscar, pois consegue segurar o animal no pasto quando o preço da arroba está ruim. Já no confinamento, após colocar o gado no cocho, o prazo para a venda se esgota em cerca de 100 dias. A mudança para uma atividade como o confinamento, que requer investimento e risco, o deixa receoso.

RURAL – Só quem está bem capitalizado pode se tornar um confinador? 
ANDRADE –
Não necessariamente. Uma estrutura completa de confinamento custa, em média, R$ 700 por animal. Porém, há casos de produtores que montaram unidades de engorda gastando R$ 185 por animal. Muitos produtores aproveitam os recursos já existentes na fazenda, como galpões ou piquetes, e fazem adaptações que funcionam bem. 

RURAL – Improvisações não podem colocar em xeque o bem-estar dos animais, um tema central numa pecuária que deseja ser moderna?
ANDRADE – No confinamento, a discussão gira em torno do número de animais alojados por metro quadrado. O recomendado é de até 12 metros quadrados por animal. Mas isso pode ser mais espaçado ou condensado, dependendo das condições climáticas do local. Discute-se muito, também, a influência do clima no momento que é feito o confinamento. No Centro-Oeste, entre junho e outubro, o pó da terra pode causar um estresse no animal por ser um período muito seco e quente. Já no confinamento feito na época de chuva, o grande problema é a lama. Ela influencia diretamente no rendimento do animal. Qualquer que seja o projeto do pecuarista, esses pontos devem ser estudados. Sem dúvida, é preciso conciliar produtividade com sustentabilidade e bem-estar animal.

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