Edição nº 172 03.09 Ver ediçõs anteriores

Entrevista

Bruno de Jesus Andrade, principal executivo da Associação Brasileira de Confinadores

Bruno de Jesus Andrade, principal executivo da Associação Brasileira de Confinadores

Se tem algo que orgulha o zootecnista Bruno de Jesus Andrade, gerenteexecutivo da Associação Nacional dos Confinadores (Assocon),

Bruno Santos
Edição 01/11/2014 - nº 120

são os cursos de capacitação de peões e técnicos que trabalham nas unidades de engorda intensiva de gado, projeto que nasceu em 2010. Esses cursos da Assocon, na verdade, são apenas a ponta do iceberg nas discussões sobre um setor que movimenta R$ 5 bilhões por ano. Nesta safra, a previsão é colocar nos frigoríficos 4,2 milhões de bois confinados. Segundo Andrade, por pressão do mercado, o confinamento no País se aproximará do modelo americano. O gerenteexecutivo da Assocon esteve com a DINHEIRO RURAL para falar sobre esse e outros temas importantes do setor.

RURAL – O que as pesquisas de intenção de confinamento realizadas pela Assocon têm mostrado ao mercado?
BRUNO DE JESUS ANDRADE – Elas têm mostrado que existe, por parte do pecuarista, uma vontade de apostar no sistema de engorda intensiva de bovinos. Neste ano, as pesquisas apontam um crescimento de 5% na intenção de confinamento dos associados à Assocon, em relação a 2013. Extrapolando para toda a pecuária, porque nem todo confinador está associado à entidade, são 4,2 milhões de animais nesta safra. Para ter uma ideia, somente em 1994 o País chegou à casa de um milhão de bovinos confinados.

RURAL – E o que esperar para 2015?
ANDRADE – O próximo ano será um período de muitas incertezas. Por isso, seria bom o produtor não se endividar, independentemente do que ocorra. Para 2015, há elementos indicando que pode ser um ano bom para os confinadores, por conta de uma maior oferta de milho. O cereal é o principal insumo na alimentação do boi, o que reduz o custo da criação. Mas também pode ser um ano ruim, por conta do mercado consumidor de carne bovina, que pode vir abaixo, da inflação em alta e da competição com a carne de frango.

RURAL – Como negócio, o modelo de confinamento seguido pelo Brasil está com o foco bem ajustado?
ANDRADE – É preciso reflexão sobre esse tema. A pecuária extensiva no País, com seus 200 milhões de animais, não deve crescer em área, podendo até perder espaços já consolidados por pressão dos grãos e por  exigências ambientais. Nos confinamentos, todas as tecnologias utilizadas têm origem americana. Porém, o modelo de pecuária dos Estados Unidos, fortemente verticalizada e concentrada, não é o mesmo da pecuária brasileira, no qual os elos da cadeia produtiva não estão integrados. Aqui, cada um produz por si. Mas é preciso aprimorar o nosso sistema de engorda de animais. Por pressão do mercado, o confinamento no País se aproximará do modelo americano. Não que o Brasil vá abater 90% de seus animais oriundos de confinamento, mas o uso do dinheiro rural/120-NOVEMBRO-2014 19 sistema como forma de integrar a cria à engorda cada vez mais vai se assemelhar ao modelo americano.

RURAL – Em que base esses modelos se aproximariam?
ANDRADE – Isso já acontece à medida que se estruturam no Brasil as unidades de prestação de serviços de engorda. Nos Estados Unidos são os grandes confinamentos que engordam a totalidade dos animais abatidos. Por aqui, os serviços de engorda surgiram como uma oportunidade de negócio, em meio à descapitalização de boa parte dos produtores de bois que não tinham condições de construir seus próprios confinamentos. Hoje, a terceirização da engorda não tem mais esse viés. Ela passou a ser parte da estratégia de gestão de muitos pecuaristas. 

RURAL – Mas confinar no modelo americano não contradiz o marketing que o Brasil sempre fez no mundo, ao vender o conceito de boi de pasto, ou o chamado boi verde?
ANDRADE – A pecuária brasileira está numa fase de transição. Não temos ainda um caminho certo definido. O fato é que não se tem hoje um sistema de produção totalmente sustentável e valorizado na pecuária. Ainda estamos tentando criar um sistema que agregue produtividade à sustentabilidade. O gado de pasto sempre vai ser parte desse sistema, sem dúvida nenhuma, mas no atual cenário é inegável a capacidade de maior produção de carne no sistema confinado. Hoje, ele responde por 10% dos cerca de 40 milhões de animais abatidos, mas pode chegar a 30% nas próximas décadas. O confinamento só não cresce mais rapidamente porque há entraves de mercado, como, por exemplo, um padrão definido para a qualidade da carcaça bovina e a sua consequente valorização. 
 

RURAL – De quem é a responsabilidade pelo fato de o Brasil ainda não ter tipificação e classificação de carcaças, medidas que levariam a separar o joio do trigo, após o abate?
ANDRADE – Quem tem poder para colocar alguma coisa no papel, com força de lei, é o governo federal. Mas a pressão para que isso ocorra deve vir da agroindústria. É ela que tem o contato com o varejo e sabe quais são as demandas do consumidor. Claro que os produtores devem se envolver numa possível definição das regras que norteiem a classificação e a tipificação do boi abatido, mas quem vai fazer essa roda girar é a indústria frigorífica. 

RURAL – Se isso ocorrer, consequentemente haverá mais gado confinado no País?
ANDRADE – Sim, com certeza esse é um caminho. Se todos os frigoríficos pagassem mais por um determinado animal, o produtor iria produzir esse animal. Embora hoje tenhamos  programas de qualidade muito bons, como Swift Black, da JBS, o programa Angus Certificado e o Carne Braford, ambos de associações de criadores, além de butiques de carne que abatem um determinado tipo de animal, falta a segurança de um programa nacional que valorize as qualidades da carne. 

RURAL – O preço do milho sempre foi um divisor de águas na decisão do pecuarista de confinar ou não o seu gado. Em que medida o cereal ainda tende a afetar essa decisão?
ANDRADE – O preço do milho pode afetar pontualmente. Hoje, por exemplo, há uma oferta muito grande de milho no mercado. Mas a integração lavoura-pecuária tende a minimizar o impacto do cereal no custo do  confinamento. Existem ainda muitas áreas de pecuária degradada que podem ser utilizadas para a agricultura. Assim, mesmo numa situação de mercado não interessante para o grão, a agregação de valor poderia ser realizada com a pecuária. Além disso, a integração melhora a qualidade do solo, que posteriormente pode se transformar em pasto de mais qualidade. É uma roda virtuosa.

RURAL – O produtor brasileiro consegue enxergar com nitidez essa tecnologia?
ANDRADE – Infelizmente boa parte deles não. Acredito que dois grandes problemas do pecuarista brasileiro, ainda, são sua cultura e a falta de conhecimento. Boa parte dos produtores não sabe como fazer um confina mento nem conhece seus processos. Por exemplo, comercializar o animal de forma antecipada através de contrato a termo com o frigorífico é outro importante recurso, mas ainda pouco utilizado.

RURAL – Em que medida essa falta de cultura e de conhecimento do pecuarista se torna uma trava ao confinamento?
ANDRADE –
Quando falo em cultura, me refiro ao medo. O produtor mais tradicional prefere não se arriscar, pois consegue segurar o animal no pasto quando o preço da arroba está ruim. Já no confinamento, após colocar o gado no cocho, o prazo para a venda se esgota em cerca de 100 dias. A mudança para uma atividade como o confinamento, que requer investimento e risco, o deixa receoso.

RURAL – Só quem está bem capitalizado pode se tornar um confinador? 
ANDRADE –
Não necessariamente. Uma estrutura completa de confinamento custa, em média, R$ 700 por animal. Porém, há casos de produtores que montaram unidades de engorda gastando R$ 185 por animal. Muitos produtores aproveitam os recursos já existentes na fazenda, como galpões ou piquetes, e fazem adaptações que funcionam bem. 

RURAL – Improvisações não podem colocar em xeque o bem-estar dos animais, um tema central numa pecuária que deseja ser moderna?
ANDRADE – No confinamento, a discussão gira em torno do número de animais alojados por metro quadrado. O recomendado é de até 12 metros quadrados por animal. Mas isso pode ser mais espaçado ou condensado, dependendo das condições climáticas do local. Discute-se muito, também, a influência do clima no momento que é feito o confinamento. No Centro-Oeste, entre junho e outubro, o pó da terra pode causar um estresse no animal por ser um período muito seco e quente. Já no confinamento feito na época de chuva, o grande problema é a lama. Ela influencia diretamente no rendimento do animal. Qualquer que seja o projeto do pecuarista, esses pontos devem ser estudados. Sem dúvida, é preciso conciliar produtividade com sustentabilidade e bem-estar animal.

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