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Entrevista

Carlos Henrique Fávaro, vice-governador de Mato Grosso

Carlos Henrique Fávaro, vice-governador de Mato Grosso

Bruno Santos, Tapurah (MT)
Edição 01.06.2015 - nº 126

Na década de 1980, a família do agricultor paranaense Carlos Henrique Fávaro deixou o município de Bela Vista do Paraíso, no Paraná, e foi tentar a vida no Centro-Oeste, na região de Lucas do Rio Verde, em Mato Grosso. Cerca de 45 anos depois, bem sucedido produtor de soja, milho, sorgo, peixe e gado, com propriedades nos municípios de Vera e Guarantã, no Norte do Estado, Fávaro tornou-se uma liderança do agronegócio, como dirigente cooperativista e presidente da influente Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT). A atuação no setor foi decisiva para pavimentar uma carreira na política. Filiado ao PP, desde janeiro ele é o vice-governador do Estado, eleito na chapa capitaneada pelo ex-senador Pedro Taques, do PDT. Com um PIB de US$ 80 bilhões, Mato Grosso é o maior produtor de commodities agrícolas do País, com 50 milhões de toneladas colhidas na última safra. Em entrevista exclusiva à DINHEIRO RURAL, Fávaro diz que encara o novo cargo como o maior desafio de sua carreira. “Nossa missão é fazer com que o Estado retome o crescimento”, afirma.

DINHEIRO RURAL – Como está o realinhamento político do novo governo estadual com a oposição,  liderada pelo senador Blairo Maggi (PR), derrotada por sua chapa?
CARLOS HENRIQUE FÁVARO – Nossa relação com o ex-governador Blairo Maggi é amistosa, conversamos toda semana e ele está nos ajudando muito na esfera federal e estadual. Mato Grosso não começou no dia primeiro de janeiro deste ano, então vamos dar sequência ao trabalho que já estava em andamento. A questão política se encerrou após as eleições. O governador Pedro Taques tem adotado a linha de diálogo com todos os setores políticos, não olhando para  sua bandeira partidária. A ideia é convergirmos para ter um Estado melhor.

RURAL – Qual é o maior desafio do governo que comanda o principal produtor brasileiro de grãos?
FÁVARO – Nosso maior desafio é revigorar o ânimo da sociedade e fazer com que Mato Grosso volte aos trilhos e retome o crescimento. Hoje,  nossa economia se encontra estagnada. Passamos por um momento difícil, assim como todo o Brasil. Mato Grosso é um Estado pujante e muito forte, mas que está adormecido nas suas potencialidades. Somos os maiores produtores de soja, milho, pescados de água doce, algodão e girassol do País. Além disso, temos o maior rebanho bovino e estamos crescendo na criação de aves e suínos.

RURAL – Com uma possível retomada, o Estado conseguirá produzir 68 milhões de toneladas de soja, até 2022, como prevê um estudo realizado pelo Instituto Mato-grossense de Economia Aplicada?
FÁVARO –
Esse estudo é ainda pouco ambicioso,  diante do potencial do Estado. Atualmente, estamos produzindo cerca de 50 milhões de toneladas, entre todas as commodities. Podemos crescer em tonelagem e em área, pois ainda contamos com 15 milhões de hectares passíveis de serem incorporados ao sistema produtivo. Só por essa conta, já teríamos condições de triplicar nossa produção de commodities e chegar a 150 milhões de toneladas, sem contar com o aumento de produtividade e incremento tecnológico. No caso da soja, a partir das atuais 28 milhões de toneladas produzidas, chegar até 68 milhões de toneladas é fácil, desde que haja avanços que nos dêem condições de competitividade.

RURAL – É a falta de infraestrutura logística que barra a utilização desses 15 milhões de hectares aptos à produção?
FÁVARO – Esse é o maior agravante. Mato Grosso tem a pior malha rodoviária do Brasil e, com isso, deixa a desejar em  termos de estrutura logística adequada. Para se ter uma ideia, somente dez mil quilômetros, do total de 135 mil quilômetros, entre vias federais, estaduais e municipais, são pavimentados.

RURAL – O governo tem verba para pavimentar essas vias?
FÁVARO – Não será apenas com recursos do Estado que vamos construir mais dez mil quilômetros de rodovias nos próximos anos. O custo atual é de R$ 1 milhão por quilômetro, ou seja, serão necessários R$ 10 bilhões para essa obra. O governo estadual tem um orçamento de R$ 15 bilhões, com déficit de R$ 1,7 bilhão, que estamos corrigindo. Não se pode esperar que, em quatro anos, o governo, sozinho,  consega os recurso para fazer rodovias.


“A questão política se encerrou após as eleições” Parceria: Pedro Taques (à esq), atual governador de Mato Grosso, mantém diálogo com o senador Blairo Maggi

RURAL – Quanto o Estado perde devido a essa ineficiência?
FÁVARO – Em moeda forte perdemos, por ano, um terço do PIB mato-grossense, que hoje é de US$ 80 bilhões, em função da falta de infraestrutura logística. Isso significa que o agronegócio deixa de receber cerca de US$ 26 bilhões. Produzimos em menos de 10% de todo o nosso território, temos outros 20% de áreas abertas, prontas para produzir, mas que não estão incorporadas por essa falta de infraestrutura. Esse é o nosso grande desafio: reverter as perdas acumuladas a cada ano.

RURAL – Qual a estratégia que vem sendo adotada?
FÁVARO – O primeiro passo é revigorar a parceria com a iniciativa privada. Com isso, todos serão beneficiados com a construção de rodovias, que trarão desenvolvimento, oportunidades e ganhos imobiliários. Tenho certeza de que todos empresários e produtores vão nos apoiar, através de suas associações. É assim que vamos transformar as rodovias de Mato Grosso.

RURAL – A concessão da BR-163 para a construtora Odebrecht é um bom modelo de parceria?
FÁVARO – Tenho certeza de que a população está feliz com o trabalho que a Odebrecht vem realizando na Rota Oeste, que é o trecho da BR-163 entre Sinop, no norte do Estado, até a divisa com Mato Grosso do Sul. Essa obra servirá de exemplo a outras empresas que virão num futuro próximo. No mundo inteiro as rodovias são operadas pelo regime de concessão e o Brasil não pode descartar esse modelo. O pior pedágio é a falta de rodovias, estradas esburacadas e vias que causam mortes. Faremos contratos com empresas sérias que cumpram o seu papel.

RURAL – Isso também ocorrerá com as ferrovias?
FÁVARO – Sem dúvida, buscaremos parceiros para viabilizar nossos projetos. O meio mais utilizado no mundo para transportar commodities é o ferroviário e o Brasil desperdiça seu potencial, ao ficar somente no modal rodoviário. Não podemos deixar de investir em ferrovias, que são ambientalmente corretas, além de levarem uma grande quantidade de carga. 

RURAL – Qual é a situação da malha ferroviária do Estado?
FÁVARO –
Temos diferentes situações. Atualmente, o projeto da Ferrovia de Integração do Centro-Oeste (Fico) está parado. Ela é uma importante linha, indo da divisa com Goiás, na região Leste, até Lucas do Rio Verde, no Médio-Norte do Estado. Vamos buscar investimentos para viabilizar essa ferrovia porque, com certeza,  vai trazer grande desenvolvimento ao Médio-Norte do Estado. Há, também, uma ferrovia em nossos planos para ligar Sapezal, no Oeste, até Porto Velho, em Rondônia. Mas há rotas que já estão em andamento, como a ferrovia de Sinop até o porto fluvial de Miritituba, no Pará, e a expansão da ferrovia de Rondonópolis, onde está instalado um terminal de transbordo. Esse é o melhor desenho para a nossa malha ferroviária e não temos dúvidas de que traria muita competitividade a Mato Grosso e ao Brasil.

RURAL – E em relação às hidrovias?
FÁVARO – Esse é outro modal mundial, mas que no Brasil ainda desperdiça. No mandato do governador Pedro Taques vamos fazer um grande esforço nesse setor. O principal projeto será a hidrovia do rio Paraguai, integrando os países do Mercosul, a partir de Cáceres. Essa, sim, é uma obra que depende do governo do Estado e incentivaremos a iniciativa privada a operar nessa rota. É uma obra de peso para Mato Grosso, que está adormecida.


“Podemos chegar a150 milhões de toneladas de commodities agrícolas”  Safra turbinada: Com 28 milhões toneladas de soja, Mato Grosso é o maior produtor da oleaginosa do Brasil
 

RURAL – Como será a organização da produção no Estado, quando ficarem prontas as saídas através dos portos do Norte do País?
FÁVARO – Essa saída será fundamental para o Mato Grosso ganhar competitividade, mas cada região tem de seguir a sua vocação. O Sul do Estado deve manter a saída da produção pela ferrovia de Rondonópolis. O Norte sairá pela BR-163, o Oeste por Porto Velho e o Leste pela ferrovia Norte-Sul, até o terminal Tegram em São Luís, no Maranhão. O que precisamos incentivar é a instalação de indústrias e de empresas de transporte de cargas nessa
s rotas.

RURAL – Mato Grosso é um gigante na produção de grãos, algodão e carne bovina. Entre os outros setores, como os de suínos, aves e peixes, qual exige mais estímulos para crescer?  
FÁVARO – Nós já somos grandes produtores de pescados de água doce, com 60 mil toneladas por ano, mas ainda estamos engatinhando em alguns pontos. Temos água em abundância e matéria-prima barata, mas mesmo assim não conseguimos engrenar de vez o setor.

RURAL – O que falta para a atividade decolar?
FÁVARO – Uma série de regulamentações ambientais e tributárias como, por exemplo, a isenção do PIS e do COFINS, nas rações de peixes. A ração é responsável por 70% do custo de uma tonelada de pescado. Para isso, precisamos convencer o governo federal da importância da piscicultura para Mato Grosso e também para o País.

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