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Entrevista

Dá para ter orgulho de ser pecuarista

Dá para ter orgulho de ser pecuarista

Marcio Caparroz, diretor institucional da Assocon

Por Vera Ondei
Edição 21/08/2015 - nº 128

No fim do primeiro semestre, o pecuarista Eduardo de Moura, presidente da Associação Nacional dos Confinadores (Assocon), com sede em Goiânia, apresentou em São Paulo as novas diretrizes da entidade. A Assocon está deixando de ser uma entidade exclusiva de empresários vinculados ao confinamento  e passa a agregar todos os agentes da cadeia pecuária que promovam a intensificação da criação e engorda de bovinos. O projeto é ambicioso e se espelha em modelos internacionais, como é o caso da NCBA americana, a ML&A australiana ou a Inta uruguaia. Para comandar esse processo, a Assocon criou um novo cargo, o de diretor institucional, para o qual convidou o médico veterinário Márcio Caparroz, 36 anos, especialista em negociações econômicas e relações internacionais. Caparroz já passou por empresas, como a Elanco Saúde Animal e a JBS. Na mesma ocasião, a Assocon apresentou a nova campanha da entidade, “Orgulho de ser pecuarista”. Para falar sobre este tema e os rumos da entidade, em meados de julho Caparroz recebeu a DINHEIRO RURAL.

DINHEIRO RURAL – O pecuarista perdeu o orgulho por sua atividade?
MARCIO CAPARROZ –
  Não, mas isso precisa ser reforçado. Há uma geração no campo que cresceu ouvindo bordões, tais como o de que a pecuária não dá dinheiro, de que pecuária é retrógrada, que é extrativista e insustentável. Mas essa não é a realidade do setor, nos dias atuais. A ideia da campanha, destinada à valorização da atividade e de recuperação da auto estima dos produtores, é amplificar as vozes daqueles que acreditam que dá para ter orgulho de ser pecuarista.

RURAL – Por que a Assocon quer ampliar sua esfera de atuação?
CAPARROZ –
A Assocon é uma fórmula implantada em 2007. Até os anos 2000, o Brasil confinava pouco gado. Neste ano, o País vai confinar cerca de cinco milhões de animais e a entidade representa 90% desse setor. Mas, intensificar a pecuária está dentro de um leque de tecnologias que vão além do confinamento. É nesse movimento que a entidade quer se apoiar e ser a voz dessa pecuária intensiva.

RURAL – A entidade não corre o risco de perder o foco, já que foi criada para um nicho de mercado?
CAPARROZ –
  Isso não vai acontecer, porque tudo o que visa a uma maior produtividade e eficiência, tudo que diz respeito a abater um animal mais jovem e com maior peso é uma preocupação comum aos associados da Assocon. Eles já utilizam outros instrumentos para melhorar a produção de gado, além do confinamento como estratégia de terminação na engorda.


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RURAL – O discurso, então, é “faça o que quiser e no fim das contas confine”?
CAPARROZ –
Exato. Um produtor pode intensificar seu sistema, diminuir o tempo de recria, e lá na frente confinar o gado. Essa é uma decisão do pecuarista. Hoje, quando se fala em intensificação, o uso de tecnologias pode não acabar, necessariamente, em confinamento. O uso de tecnologias significa que o produtor está buscando por eficiência.

RURAL – Quais tecnologias são essas que a Assocon está encampando?
CAPARROZ –
  Produzir bezerros mais pesados é uma delas. O próprio semi-confinamento é uma ferramenta que estava fora da nossa política, mesmo sendo muito similar ao confinamento. Nele, o animal recebe o alimento no pasto, tem um final de engorda mais intenso e isso encurta o período de abate. Ao abrir o leque, a Assocon amplia o seu propósito.

RURAL – A intensificação também passa pelo rastreamento total da cadeia?
CAPARROZ –
Precisamos pensar no tipo de tecnologia que é adequada para nós. Por exemplo, cuidar de animal por animal, como se faz hoje para exportar para a Europa, é inadequado para o nosso sistema. O rastreamento por animal é questionável. O que precisamos é pensar em controles, em monitoramento via satélite. Uma novidade é a utilização de drones para monitorar o rebanho. Devemos desenvolver modelos de controle.Os Estados Unidos, por exemplo, sabem o que está acontecendo na sua pecuária porque têm o controle total da cadeia. O americano não está interessado com o que acontece com cada boi, mas como o rebanho é alimentado, quais os medicamentos usados e quais ferramentas de bem estar são aplicadas.

RURAL – Qual é a agenda de reestruturaçãoda entidade, daqui para a frente?
CAPARROZ –
Até o final deste ano, uma equipe de quatro profissionais irá elaborar nosso plano estratégico. Vamos analisar a National Cattlemen’s Beef Association (NCBA), nos Estados Unidos, a Meat & Livestock Australia (M&LA), da Austrália, e Instituto Nacional de Investigación Agropecuaria (Inia), do Uruguai, e ver no que podemos nos espelhar. Vamos estudar o que ocorre nessas entidades e o que pode ser adaptado à nossa realidade.

RURAL – Há uma ideia do que vão encontrar, já que são entidades reconhecidas mundialmente?
CAPARROZ –
  São entidades que possuem uma estrutura robusta. Dominam desde as informações de referência sobre o setor, com dados de censos e da economia de seus países, até informações científicas aplicadas ao campo. São instituições procuradas pelos produtores quando precisam tomar decisões ou capacitar um funcionário. Elas também têm foco no que deseja o consumidor de carnes,  e possuem muitas pesquisas.

RURAL – Essas instituições são prósperas, bancadas pelo próprio setor e por seus governos. Onde a Assocon vai buscar recursos para áreas críticas como a pesquisa? 
CAPARROZ –
Funcionar no mesmo padrão dessas três entidades é um sonho para nós. Por isso, contratamos uma consultoria internacionalcom a meta de identificar quais são os passos que precisamos dar, quais as estruturas iniciais e quais devem ser as nossas prioridades. Sabemos que, num curto espaço, digamos que daqui há três anos, não chegaremos nem perto do que elas fazem, hoje, porque são instituições que têm pelo menos meio século de história. Mas, potencial para chegar lá o Brasil possui.

RURAL – Em que medida esses modelos podem ajudar a pecuária brasileira, já que esses países praticamente não abatem bovinos fora dos confinamentos? 
CAPARROZ –
O Brasil tem um rebanho de 200 milhões de bovinos. No entanto, não acredito e nem aposto que um dia o País vá se equiparar ao sistema de produção de carne de Estados Unidos, Austrália e Uruguai. Mas é bom nos espelharmos na estrutura que eles construíram. A Austrália, que tem um sistema mais parecido com o nosso, de criação a pasto e terminação intensiva, está muito à frente do Brasil. É preciso analisar os exemplos e adaptar para nós as boas lições de casa.


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RURAL – A Assocon pretende atuar junto ao governo federal, como fazem essas entidades em seus países?
CAPARROZ –
Elas são bons exemplos de como essa aproximação ocorre. A NCBA discute com Washington todas as demandas do setor. Seus diretores têm um relacionamento muito estreito com o governo americano. Nós não temos isso, no Brasil, ainda mais porque há uma bagunça institucional em termos de representatividade. Por isso, se tivermos uma atuação mais proativa nas discussões de normas para o setor, poderemos ajudar o ministério da Agricultura (Mapa) a trabalhar melhor. O Mapa faz um bom trabalho, mas há questões burocráticas que não andam como esperamos.

RURAL – O que poderia ter sido diferente em relação ao Mapa?
CAPARROZ –
Nos últimos anos, tivemos impasses, como a proibição do uso de produtos beta-agonistas, que melhoram a eficiência alimentar dos animais, como o uso de avermectinas de longa duração contra parasitas (nesse caso, proibida e depois liberada), que são claramente de organização de cadeia. Nosso ativo é essa discussão de para onde a pecuária está caminhando e o Mapa será fundamental. Há interesses de todos nesse processo. Não por acaso, os três grandes grupos industriais do setor, JBS, Marfrig e Minerva, estão juntos com a Assocon. Interessa a eles gado de qualidade, mas sem a coordenação da cadeia, o setor trava.

RURAL – Como atender aos vários nichos de mercado, com uma pecuária tão heterogênea como a brasileira?
CAPARROZ –
Temos de aprender a trabalhar com as diferentes  realidades. A Europa, por exemplo, cada vez mais perde importância no mercado. Por outro lado, os Estados Unidos, ao abrir as portas para a carne in natura brasileira, nos leva a um outro ciclo de demandas. A Abiec tem, hoje, um mapeamento espetacular de como agir nesses mercados. O mercado chinês, pode ser usado como metáfora. Antes, eles só produziam produtos de baixo custo. Hoje, a indústria chinesa trabalha em vários setores, incluindo os de alta tecnologia. Na pecuária, o Brasil precisa parar de brigar com a Índia e buscar os mercados que melhor remuneram. Temos de competir com o Uruguai,com os Estados Unidos e com a Austrália, por mercados de valor agregado.

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