Edição nº 172 03.09 Ver ediçõs anteriores

Entrevista

Entrevista – Andrea Illy

Entrevista – Andrea Illy

Andrea Illy, presidente da Illycaf fè

Darlene Santiago
Edição 01/02/2014 - nº 111

Os italianos não dispensam um bom café espresso e são grandes fabricantes de blends apreciados em todo o mundo.  Mesmo sem produzir o grão, a itália também consegue vender café ao Brasil. uma das responsáveis por essa proeza é a Illycaffè, de Trieste, fundada pelo italiano Francesco Illy, em 1933. hoje, a empresa comandada por Andrea Illy, da terceira geração da família, fatura E 360 milhões por ano, exportando para 140 países. o Brasil é peça-chave para a Illy porque, além de ser um grande produtor, é um grande consumidor, que poderá ajudar a companhia a superar a retração dos mercados envolvidos. Com um português pausado, o presidente da Illy concedeu entrevista à dinheiro rural, pouco antes da cerimônia de entrega de prêmios aos cafeicultores brasileiros que participaram do “23o Prêmio Ernesto Illy de Qualidade do Café para espresso”, em São Paulo, no mês passado. “o café é como uma orquestra que tem muitos instrumentos”, diz Illy.

“Acreditamos num blend que beire a perfeição”

DINHEIRO RURAL – Qual é o grão de café perfeito para a Illy?
ANDREA ILLY – Um grão sem defeitos. A primeira definição de qualidade é a conformidade. A segunda é o nível de sabor na xícara. O café perfeito deve ter um sabor excelente e aroma equilibrado. Esse é o motivo pelo qual produzimos um blend, porque a excelência na gastronomia vem da complexidade. O café é como uma orquestra que tem muitos instrumentos. Por isso, preferimos não falar em grão perfeito, porque, na verdade, ele não existe. Acreditamos num blend que beira a perfeição.

RURAL – Qual é a principal característica do café brasileiro?
ILLY – Fazer um espresso é a maneira de extrair o melhor do café para ter uma bebida muito aromática e cremosa. As melhores características do espresso são um bom corpo e aroma de chocolate, típicos do café brasileiro.

RURAL – Qual é a participação do Brasil na Università del Caffè, montada pela empresa para aumentar a qualidade?
ILLY – Mais de 50% dos participantes da universidade são brasileiros. O padrão do grão no País melhorou muito. Antes, conseguíamos aprovar apenas 10% das amostras analisadas. Hoje, cerca de 70% são aceitas.

RURAL – Na sua visão, o que ainda falta para a cafeicultura brasileira?
ILLY – O desafio é preparar-se para as mudanças climáticas. O café brasileiro é sustentável do ponto de vista econômico e social. As comunidades de agricultores são organizadas. O café seca sob o sol e não utiliza tanta água, o beneficiamento é sustentável. Uma xícara de café precisa de 140 litros de água ao longo de toda a cadeia. É um volume baixo, que chega a apresentar apenas um décimo do consumo de água de outras culturas, como, por exemplo, o trigo, que gasta 1,3 mil litros para cada quilo.

RURAL – É possível alguma ação para minimizar os efeitos dos fenômenos climáticos?
ILLY – Observamos excesso de chuvas na América Central e a seca no Brasil. Haverá uma alternância desses fenômenos nos próximos anos, com efeitos irreversíveis provocados pelo aquecimento global. Por isso, precisamos de soluções para o sequestro de carbono, como os grandes programas de reflorestamento. No futuro, acho que será possível desenvolver uma tecnologia para sequestrar carbono de maneira sintética, mas, por enquanto, só nos resta plantar árvores.

RURAL – Como o sr. avalia o início de 2014, em que os pre- ços subiram mais de 50% nas bolsas de valores?
ILLY – O mercado é cíclico. Geralmente, a cada dez anos se dá uma inversão das médias de preços, causada pelos efeitos climáticos, como secas e geadas. Se os estoques estão baixos, a alta é acentuada.

RURAL – Isso afeta em que grau os negócios da Illy?
ILLY – Cada vez que os preços sobem, precisamos renegociar todos os contratos. Isso afeta toda a estrutura financeira e reduz a rentabilidade no curto prazo. Com uma alta de 60% nos preços em apenas um mês, a situação é de choque.

RURAL – Quantos contratos a Illycaffè tem com produtores no Brasil?
ILLY– Temos cerca de 600 produtores fidelizados, dos quais 100 estão com a Illy nos últimos quatro anos. Desses, 25 vendem café para a empresa há mais de dez anos consecutivos. Em muitos países, nós temos parceiros, mas no Brasil o relacionamento é mais intenso e consolidado, uma paixão latina.

RURAL – Na Colômbia, famosa no mundo todo por seu café, também não é assim?
ILLY– Não. Fazemos um ótimo trabalho na Colômbia, mas muitos produtores são bem pequenos. Não temos um relacionamento direto com todos, lidamos com associações. No Brasil, compramos diretamente do produtor.

RURAL – Qual é a participação atual do café brasileiro no blend Illy?
ILLY– É de cerca de 50%. Nossa fórmula não muda por acreditarmos que ela tem um equilíbrio que consideramos perfeito e é apreciado pelo consumidor.

RURAL – Se mais de 50% do blend é composto por café brasileiro, por que a empresa não abre uma processadora de grãos no Brasil?
ILLY– No momento, nem pensamos nisso. Mas poderia ser um discurso para o futuro. Uma condição indispensável seria conseguir importar café verde da Etiópia e de outros países para produzir o nosso blend no Brasil. Mas importar café verde a partir do Brasil seria muito difícil. O fato é que não desejamos produzir um café 100% brasileiro, porque isso qualquer um poderia fazer. A composição do blend é a nossa vantagem competitiva número um, representa uma constância de sabor, que corresponde à receita fabricada na Itália. As condições de produção do Brasil são diferentes do padrão da África, da Índia e da Etiópia, um país muito especial. Então, não é possível replicar o mesmo sabor sem o grão de outras origens.

RURAL – O que o café da Etiópia tem de tão especial?
ILLY – A característica principal é a presença de um aroma muito floreado e valorizado pelo mercado. Esse país é a fonte da maior biodiversidade do planeta para a produção de café. A Etiópia produz cerca de seis milhões de sacas, das quais 1,5 milhão de sacas são desse café lavado muito fino.

RURAL – E na Índia, um país gigante como o Brasil, quais os atributos do café?
ILLY – Compramos na Índia muito arábica fino, chamado de Plantation A. Mas esse país tem mais problemas climáticos do que o Brasil, com temperaturas mais altas. Por isso, o café é plantado em área sombreada, em um sistema agrícola integrado com outras culturas, como a macadâmia. Isso ajuda a ter uma temperatura mais baixa e mais umidade. Mas a Índia não está investindo no aumento da qualidade do grão.

RURAL – Do ponto de vista do consumo, quais são os mer- cados mais importantes?
ILLY – O mercado europeu já é muito maduro. Fora da Itália, o maior consumidor são os Estados Unidos. Na China, o consumo aumentou proporcionalmente à renda da população. Não significa que o comportamento do chinês vá ser o mesmo do europeu. O chinês bebe chá e é um consumidor ocasional de café. Mas o número de habitantes é tão grande que, mesmo com um consumo per capita baixo, a China é um dos mais importantes países consumidores de café do mundo. O Brasil, por sua vez, está crescendo como consumidor de café de qualidade. Em 2013, por sua vez, vendemos 8,1 milhões de xícaras de café no País, 12,5% a mais que no ano anterior. Vender café espresso italiano no Brasil é como vender gelo para os esquimós

RURAL – Por que essa analogia?
ILLY – O Brasil é o maior produtor de café do mundo e tem um alto consumo. Importar café torrado da Itália comporta custos mais altos, então o brasileiro se pergunta por que deveria beber o café italiano se ele já tem um bom café. Mas importa porque o blend Illy é especial e montamos um ótimo serviço de atendimento ao cliente.

RURAL – Daqui para a frente, como será a evolução do café?
ILLY – Há boas notícias do café para a saúde. Pesquisas mostram que a bebida alonga a vida e pode prevenir doenças cardiovasculares. Há mais prazer em desfrutar da bebida, graças à melhor preparação e à melhor qualidade do café, resultado de práticas agronômicas mais sofisticadas e novas variedades. No mundo do vinho, por exemplo, houve diferenciação e os preços subiram, mas o consumo caiu. Há duas décadas se falava em vinho tinto ou branco. Hoje, já se conhece as variedades, o que é um cabernet sauvignon ou merlot. No café, também estamos explicando para o consumidor as origens do grão e as diferentes variedades. Haverá um percurso similar, mas, ao contrário do vinho, a evolução do café terá um impacto muito positivo no consumo.

 

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