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Entrevista

Jônadan Hsuan Min Ma, presidente da Associação Brasileira de Criadores de Girolando

Jônadan Hsuan Min Ma, presidente da Associação Brasileira de Criadores de Girolando

Vera Ondei e Darlene Santiago
Edição 04/05/2015 - nº 125

RURAL – Como a desaceleração da economia vai afetar o setor de lácteos, que é sempre muito atrelado à renda do consumidor?
Jônadan Hsuan Min Ma – As proteínas em geral, tanto as carnes quanto os produtos lácteos, têm uma demanda muito elástica. De fato, os derivados do leite, em especial os iogurtes e queijos, têm uma demanda atrelada à renda do consumidor. Mas, por outro lado, o leite in natura, que responde pela maior parte do mercado, não sofre tanto com a oscilação de renda e isso compensa possíveis perdas com os derivados.

RURAL – Mesmo com inflação na média de 8% ao ano?
Ma – Essa é uma situação que nos deixa apreensivos e preocupados. Ainda não percebemos nenhum sinal de crise na pecuária leiteira, mas, no médio prazo, pode ser que a inflação comece a interferir no mercado. No entanto, por enquanto permaneço otimista.

RURAL – Por que o Brasil não tem peso no mercado global, mesmo sendo um grande produtor de leite?
Ma – O Brasil produziu 36,8 bilhões de litros de leite em 2014, e está entre os três maiores mercados do mundo. O que está faltando para ser um grande ator global é termos uma política mais clara de exportação. Além disso, outro gargalo é a qualidade do leite. A nossa produção apresenta uma quantidade de gordura e de proteína ainda muito deficiente. Esses sólidos são importantes na industrialização de queijos e iogurtes, por exemplo. Outro dado é que, infelizmente, ainda existem problemas de fraude no leite, como a que ocorreu no Rio Grande do Sul, em 2013. Isso desprestigia o setor.


CUSTEIO: os investimentos em tecnologia para a pecuária leiteira levam no mínimo quatro anos para serem amortizados

RURAL – O que deve ser feito para mudar essa realidade?
Ma – Acredito que as grandes empresas do setor vão controlar com mais eficiência a qualidade da matéria-prima e, assim, contribuir para melhorar nossa imagem lá fora. Mas, de modo geral, para melhorar a qualidade do leite é preciso investir em quatro pontos: raças especializadas, alimentação, sanidade e encarar a atividade leiteira como um negócio.

RURAL – O sr. pode explicar melhor esses quatro pontos?
Ma – O produtor brasileiro tira leite de pedra, como diz o ditado. Ou seja, ordenha-se qualquer tipo de animal. É preciso promover o avanço genético do rebanho com raças específicas para a produção de leite. O uso da terra precisa ser melhorado, desfrutando de todo o potencial agrícola do País, com pastagens mais nutritivas. Além disso, é terrível ainda falar em febre aftosa, brucelose e tuberculose, doenças que já deveriam estar erradicadas do rebanho. Isso segura demais o avanço da produção. E, por fim, é preciso utilizar todas as ferramentas possíveis de gestão para buscar melhores resultados nas propriedades leiteiras.

RURAL – Qual parte cabe ao governo federal?
Ma – A atividade leiteira não pode viver de Plano Safra. Precisamos de políticas de médio prazo. Qualquer investimento na pecuária leiteira leva pelo menos quatro anos para ser amortizado, seja na compra de equipamentos, de animais ou de material genético. Para uma fêmea se tornar um animal produtivo são necessários três anos, no mínimo, que é o tempo entre o seu nascimento e a primeira prenhêz.

RURAL – Por que produzir leite ainda é uma atividade tão problemática? 
Ma – Porque nós temos safra todo dia e isso torna o custeio pesado. Nas fazendas mais estruturadas, as ordenhas acontecem duas vezes ao dia, consumindo os ativos. As máquinas se depreciam e exigem manutenção constante. Há, ainda, a necessidade constante de investimento em genética, nutrição, formação de pastagem e adubação para que o produtor cresça na atividade. 

RURAL – É difícil, então, prever algum salto na produção brasileira de leite?
Ma –  Acredito que a pecuária possa dar saltos nos próximos anos, porque a produção de leite ainda é menor que a demanda. A expansão se dará em novas regiões de fronteira agropecuária, principalmente no Norte e no Nordeste do País. São regiões com um crescimento orgânico, que estão sendo alvo de grandes projetos nacionais e também de grupos estrangeiros.

RURAL – As triangulações comerciais no Mercosul ainda prejudicam o setor?
Ma – As triangulações ainda são um problema que interfere no mercado interno. Há empresas brasileiras lá fora e empresas do Uruguai e da Argentina instaladas no Brasil, que trazem de outros países leite em pó, soro e o próprio leite in natura, mas que atravessam a fronteira como fluxo de mercadorias sem se configurar como importação direta. No entanto, com a valorização do dólar as triangulações tendem a se reduzir, o que favorece a produção interna.

RURAL – Como o sr. avalia a situação das cooperativas leiteiras? 
Ma –  A situação de parte das cooperativas leiteiras não é boa. Muitas vêm de um histórico de endividamento, de problemas sérios de gestão e de falta de governança. O cooperativismo também está fragilizado, devido ao maior poder de influência das grandes empresas do setor e da perda de competitividade. Mas o pequeno produtor ainda se ancora na cooperativa, porque esse é o único caminho para que ele continue na atividade. O médio e o grande produtor estão preferindo atender aos laticínios particulares, onde há maior liberdade para a formação de preços do leite.

RURAL – No que apostaram as cooperativas de sucesso?
Ma – Apostaram e investiram em fazer o dever de casa. Estão firmes, principalmente aquelas que conseguiram manter médios e grandes produtores como seus fornecedores de leite. São eles que dão viabilidade econômica ao negócio. Essas cooperativas também se estruturaram, criando governança e mecanismos modernos de gestão, principalmente de remuneração ao produtor.

RURAL – A agricultura familiar, que se dedica ao leite, vai desaparecer?
Ma – Não, 58% da produção de leite vêm de pequenos produtores. Enquanto couber uma vaca numa propriedade e ela produzir leite, o pequeno produtor vai continuar trabalhando. Mas ele vai complementar sua renda com outras atividades. Em Rondônia, por exemplo, muitos pequenos pecuaristas, com áreas de até dois hectares, estão se profissionalizando, investindo em inseminação e produzindo 300 litros de leite por dia. São eles, por exemplo, os grandes demandadores de touros do Pró-Genética para melhorar o gado local.

RURAL – A remuneração ao produtor é satisfatória?
Ma – O leite deve ser sempre remunerado de acordo com o volume e a qualidade. Mas, não é isso que acontece, no Brasil.Na quase totalidade dos casos, o produtor é remunerado apenas pelo volume entregue na indústria ou na cooperativa. Na Europa e nos Estados Unidos é diferente, porque lá a qualidade tem um peso muito maior. De modo geral, o setor primário ê apenas um tomador de preços. Atualmente, o litro de leite custa cerca de R$ 2,80 ao consumidor, em média, enquanto o produtor recebe R$ 0,90. Dessa diferença, um terço fica com a indústria, o que leva a concluir que a maior margem fica com o distribuidor.

RURAL – O que mais pesa para a indústria do leite?
Ma – A logística é o grande gargalo nas contas dos laticínios. Hoje, o custo do combustível é muito pesado. Por isso, a logística vem sendo configurada para coletar mais leite no menor tempo possível, sempre buscando a redução do custo do quilômetro por litro de leite coletado. Uma linha com dez produtores de mil litros de leite é muito mais viável do que coletar de 100 produtores com 100 litros. Isso é uma das razões pelas quais o médio e o grande produtor têm hoje uma remuneração diferenciada.

RURAL – De modo geral, é possível remunerar melhor a cadeia do leite?
Ma – Acredito que sim, desde que o consumidor esteja disposto a pagar mais por qualidade. O leite pasteurizado e fresco, por exemplo, é mais saudável que o leite esterilizado, porque conserva melhor as propriedades nutritivas e, por isso, vale mais. Mas há outros nichos de mercado que remuneram muito bem, entre eles o do leite sem lactose.


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