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Entrevista

O Brasil não tem mais políticas públicas para o agronegócio

O Brasil não tem mais políticas públicas para o agronegócio

Alysson Paolinelli, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho)

Marcela Caetano
Edição 01/03/2016 - nº 134

No próximo dia 10 de julho, o mineiro Alysson Paolinelli completará 80 anos de idade. Para quem é do agronegócio, Paolinelli dispensa apresentação. A lista de serviços ao campo é imensa, começando pela década de 1970, quando o agrônomo formado na Escola Superior de Agricultura de Lavras (Esal) liderou a implantação do que hoje é a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a mais respeita instituição pública do setor. Paolinelli foi ministro da Agricultura (1974 a 1979), deputado constituinte e diretor de diversas instituições. Recebeu, em 2006, o World Food Prize, considerado o Nobel da Alimentação, criado pelo pai da Revolução Verde, o americano Normam Borlaug. Hoje, Paolinelli é o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho), emprestando a voz ao setor que produz o grão mais cultivado do mundo. Em entrevista à DINHEIRO RURAL, o executivo solta o verbo e critica a política agrícola do governo: “Temos um seguro rural que consiste em jogar dinheiro pela janela”, reclama. “Faltam seriedade e competência na administração do dinheiro.”

DINHEIRO RURAL – O que impede o País de ter um melhor desempenho no campo?
ALYSSON PAOLINELLI  –
O Brasil não tem mais políticas públicas para o agronegócio. Nas décadas de 1960 e 1970, o Brasil foi o país que melhor fez política pública. E não estou puxando a brasa para minha sardinha. Recebíamos missões de todo o mundo para aprender com o exemplo brasileiro. Hoje, acabou tudo. Por que não financiar mais adequadamente os médios e pequenos, em detrimento dos grandes, que poderiam estar crescendo em produtividade, com assistência técnica e crédito orientado? Meia dúzia de produtores têm acesso ao crédito rural. Temos um seguro rural que consiste em jogar dinheiro pela janela. Não houve nenhum efeito sobre o produtor. A política de preço mínimo não funciona, porque não há dinheiro suficiente.

RURAL –Mas o problema é somente falta de dinheiro?
PAOLINELLI  –
Não. Faltam seriedade e competência na administração do dinheiro. O crédito rural, por exemplo, tem de ser oportuno, suficiente e adequado. Nenhum desses itens está sendo cumprido.

RURAL – Por que os atuais gestores oficiais das políticas agrícolas não estão cumprindo os seus papeis?
PAOLINELLI  –
Minha crítica remonta desde os anos 1980. Não é de agora. Hoje, ainda temos uma ministra da agricultura que conhece o setor. Mas ela não está conseguindo fazer o que é preciso. Torço para que Kátia Abreu seja ouvida, mas, há uma grande diferença entre saber o que precisa ser feito e de fato fazer. 

RURAL – O Brasil poderia, um dia, exportar mais milho do que soja?
PAOLINELLI  –
No futuro, é natural que isso aconteça, se o País continuar a busca por novos mercados. Mas, mais do que exportar o grão, meu sonho é exportar um milho cuja espiga tenha uma crista, duas asas, duas coxas e um peito bem bonito. Ou, então, que tenha um focinho, duas orelhas e quatro belos pernis. É assim que o Brasil precisa exportar milho: de preferência, embalado e temperado. Isso [a exportação de aves e suínos]está valendo US$ 4 mil, por tonelada, no mercado internacional.

RURAL – Por que o Brasil ainda não consegue exportar o grão para a China, como ocorre com a soja?
PAOLINELLI  –
A China está falando para o mundo inteiro que é, ou será, autossuficiente no cultivo de milho. Informa que tem 100 milhões de toneladas em estoque, mas compra muito milho em todo o mundo. Essa é a realidade. E assim como a China, o resto do mundo demanda esse produto, mesmo não admitindo.

RURAL – Quais outros mercados utilizam argumentos inconsistentes, como fazem os chineses?
PAOLINELLI  –
Na Europa, por exemplo, Organizações Não Governamentais (ONGs) são muito fortes politicamente, trabalhando e realizando campanhas contra o milho transgênico. Mas não há razão científica que justifique essa posição. As campanhas são puramente ideológicas. Por isso, criamos uma agência chamada Maizall, formada por associações que representam os produtores de Brasil, Estados Unidos e Argentina, para divulgar o cereal. Esses três países produzem a metade do milho mundial e detêm cerca de 70% do mercado exportador. No Brasil, cerca de 95% do milho é geneticamente modificado. Há quanto tempo estamos alimentando milhões de aves, suínos e bovinos com esse cereal? Nossos filhos e netos se alimentam desse milho e nunca tivemos um caso sequer que levantasse suspeita sobre a qualidade do produto.


“Temos um seguro rural que consiste em jogar dinheiro pela janela” Kátia Abreu, ministra da agricultura: Ela conhece o setor, mas não consegue fazer o que é preciso

RURAL – Mas isso não deixa de ser uma barreira comercial, como sempre se esperou desses mercados…
PAOLINELLI  –
Não tenho dúvida. No caso do Brasil, até a década de 1970 o País importava 30% do alimento que consumia. Era uma vergonha. Mas depois passamos a confiar no profissional brasileiro, na pesquisa, nos técnicos e a dar condições para que ele trabalhasse. Foi criada a Embrapa e nós descobrimos a chamada agricultura tropical. Essa agricultura está mostrando que é muito melhor que a milenar agricultura de clima temperado. E o mundo está vendo que ela é uma opção bem mais sustentável. A agricultura tropical é capaz de produzir sem degradar, com resultados muito mais favoráveis. O mundo teve que confiar no Brasil.

RURAL – Mas o Brasil confia no Brasil?
PAOLINELLI  –
Depende do que estamos falando.A logística é um problema. É onde o produtor brasileiro perde hoje, já que em custo de produção o País é melhor que os demais. Mas o esforço para estimular o escoamento pelos portos do Norte tem sido muito bom. Aliás, os portos são ótimos. Agora, é preciso avançar com as rodovias, porque ainda há muita dependência desse modal de transporte. Na produção, o Matopiba, região formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, será o grande cinturão do milho tropical, no mundo. Mas é preciso meios para escoar essa produção.

RURAL – Qual é o nível de confiança dos produtores para a safra 2015/2016?
PAOLINELLI  –
Entre maio e julho do ano passado, período de tomada de decisão do plantio do milho, o preço não estava bom, embora remunerasse o produtor. Na ocasião, a soja pagava muito mais e com maiores perspectivas de rendimento na lavoura. Então, o agricultor dedicou mais áreas do plantio de verão para a soja, que cresceu 6%, ao passo que a área de milho caiu 4,5%. A safrinha, porém, deverá ser maior que a de 2014/2015, com crescimento de 7%, no mínimo, em função do aumento do preço do milho, de R$ 43 a saca, de acordo com o Cepea. O agricultor que teve a chance de plantar milho e não o fez já se arrependeu.

RURAL – Diz-se que “quanto melhor para o produtor, pior para avicultores e suinocultores”. Como equacionar isso?
PAOLINELLI  –
Concordo que, para esses produtores de proteína animal, o preço do milho está em um limite que não é bom. Para resolver essa demanda, é preciso produzir mais milho, já que o preço é controlado pela oferta. A Abramilho encomendou um estudo sobre o desenvolvimento da produção, realizado pela Embra-pa, em colaboração com a Fundação Dom Cabral e com a participação de produtores. Para atender os mercados interno e externo, precisaríamos  aumentar 2,5 vezes a produção, nos próximos três anos, o que é impossível. O Brasil está sendo visto pelo mundo como um país capaz de produzir 40% da demanda futura do cereal. O cálculo é de 380 milhões de toneladas. Portanto, o Brasil teria de produzir 120 milhões de toneladas a mais, até 2050. O Brasil tem que se preparar para ocupar esse espaço. Assim teríamos milho também para abastecer a demanda nas criações de aves e suínos.


“O Matopiba será o grande cinturão do milho tropical,no mundo” Nova fronteira: Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia produzem milho, mas é preciso melhorar o escoamento

RURAL – Como o senhor avalia o desempenho da Argentina?
PAOLINELLI  –
Nós, da Abramilho, acompanhamos muito a Argentina durante o governo de Cristina Kirchner, por meio da Maizall. Tínhamos pena dos produtores. Quando iam exportar milho, o tributo para o cereal sair do país chegava a 30%. É um crime. Cristina Kirchner quebrou os seus agricultores. Agora, há uma esperança grande de melhorias com o presidente eleito, Mauricio Macri, que já começou a ouvir a demanda dos produtores rurais. Meu medo é que as mudanças negativas promovidas pelo governo Kirchner ainda cheguem por aqui. No mês passado, o governo de Goiás tentou tributar a venda de milho para fora do Estado. 

RURAL – Qual seria o impacto de uma medida dessas?
PAOLINELLI  –
O governo voltou atrás, mas alegava se tratar apenas de um controle para não faltar o cereal para os produtores goianos. Na verdade, propunha uma tributação. É um grande erro um governo achar que pode dirigir o mercado. Sempre digo: respeite o mercado que o resto se ajeita.


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