Entrevista

O futuro que vem do Sul

O futuro que vem do Sul

Ibiapaba Netto, de esteio (RS)
Edição 01/09/2009 - nº 60

Como os valores gaúchos se perpetuam na agricultura brasileira

e de que modo essa tradição rural influencia o resto do País

Felipe Souto: aos quatro anos, ele já sonha em ser um grande pecuarista

A os quatro anos de idade e com toda a segurança que lhe confere os belos trajes típicos do Sul, o pequeno Felipe Souto sonha em ser um grande pecuarista. Em seu plantel imaginário estão milhares de cabeças de carneiros da raça merino australiano, cujos fios dourados como ouro podem ser mais valiosos que a seda. Ao lado de seu avô José Octávio Silveira ele conduz seu animal com firmeza, um cordeiro de estimação, cujo destino será a venda para um outro rebanho. Tristeza por perder o animalzinho? Jamais…

Desde cedo o garoto é ensinado que dos animais vem o sustento da família e que o amor pela terra não pode ser confundido com o apego das coisas. Ao lado do avô e junto aos peões que cuidam das 1200 cabeças do rebanho familiar ele aprende o bê-ábá do campo, antes de mesmo de rabiscar o bê-á-bá das letras. Felipe é a quarta geração de camponeses em sua família, gente que trabalha o chão para produzir riquezas e que fez do Rio Grande do Sul sua parada. Talvez o pequeno garoto dê continuidade ao trabalho da família em suas próprias terras, ou faça como tantos outros gaúchos que deixaram sua gente em busca de novas oportunidades. “As fronteiras agrícolas dos últimos 100 anos foram todas abertas por gaúchos”, afirma o historiador Manoelito Carlos Savaris, autor de diversos livros sobre o tema. Para ele, a agropecuária brasileira tem sotaque sulista.

A caráter: peões que trabalham na lida do gado ainda se vestem com trajes típicos

“Essa característica de desbravar locais inóspitos é uma herança de italianos e alemães, que ajudaram a formar a cultura gaúcha”, explica. Segundo ele, o gaúcho típico, com sua vestimenta de lida é um personagem centenário. “A bombacha, calça usada para a lida do campo que virou símbolo desse povo, foi introduzida por volta de 1870, como consequência da guerra do Paraguai”, avalia. E os próprios cavalos, tão venerados no Sul, se tornaram parte da cultura. “A raça crioula tem tudo a ver com a cultura sulista, de pastoreio, e lida com o gado”, comenta o presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Cavalo Crioulo, Roberto Davis Junior.

Freio de ouro: uma das competições equestres mais tradicionais do País, em Esteio

Uma mostra dessa paixão arraigada está no Freio de Ouro, disputa equestre com ares de Copa do Mundo de futebol. Criadores do Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina competem durante todo o ano diversas seletivas em que os 18 melhores se encontram numa grande final. “Esses animais na verdade representam a região platina, que envolve esses três países, o que explica determinadas semelhanças entre os povos; é praticamente a mesma gente”, explica Davis. Mas o que faz do gaúcho um desbravador? “Desde cedo somos criados pensando em aumentar o patrimônio, plantando e colhendo, que é a mais nobre atividade do ser humano”, avalia o megaprodutor Otaviano Pivetta, que sonhava em ter 200 hectares de terra e hoje está montado num império de 300 mil hectares. Gaúcho de Caiçara, município localizado na região das Missões, próximo à Argentina, ele saiu jovem e fez fortuna, assim como tantos outros.

Um milhão de gaúchos já deixaram o Sul para desbravar fronteiras

Segundo estimativas do governo do Rio Grande do Sul, nos últimos 40 anos, cerca de um milhão de gaúchos deixaram os pampas em busca de novas fronteiras agrícolas. Isso representa aproximadamente 10% da população daquele Estado, num fluxo que ainda não cessou. “Enquanto houver fronteiras a serem exploradas, haverá migração de gaúchos”, diz Carlos Macchi, diretor da Safras & Mercado Consultoria. Bom para o pequeno Felipe, que tem pela frente um futuro cheio de aventuras e oportunidades. Vestido para isso ele já está.

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