Edição nº 172 03.09 Ver ediçõs anteriores

Entrevista

Pedro Gustavo Novis, presidente da Associação de Criadores de Nelore do Brasil

Pedro Gustavo Novis, presidente da Associação de Criadores de Nelore do Brasil

“O nelore pode ter carne tão macia quanto a de angus”

Fábio Moitinho
Edição 01/10/2014 - nº 119

Produto de qualidade, macio e suculento sempre foi uma exigência dos consumidores de carne bovina. No Brasil, somente nos últimos tempos o consumidor começou a ganhar poder de compra para ter acesso a cortes mais sofisticados, apesar de ser um dos maiores apreciadores globais com 37 quilos per capita ao ano. Com mais dinheiro e informação nas mãos, os consumidores estão indo com mais frequência às butiques de carne, procurando por marcas e por selos que atestem sua excelência. Os criadores de nelore, donos da raça mais numerosa do País, querem uma fatia maior desses consumidores exigentes, porque acreditam que seu gado tem condições de competir de igual para igual com variedades de muito mais prestígio no mercado mundial de carnes, como é o caso da britânica angus. Para falar sobre esses e outros temas ligados à criação de nelore, DINHEIRO RURAL esteve com o pecuarista Pedro Gustavo de Britto Novis, presidente da Associação de Criadores de Nelore do Brasil (ACNB ), entidade que representa os produtores da raça, estimada em 96 milhões de animais no País.

DINHEIRO RURAL – A ACNB promoveu no mês passado a Expoinel, o principal evento anual do nelore. Qual a avaliação que o sr. faz sobre a pecuária de corte no País?
PEDRO GUSTAVO NOVISEla sofre com as ineficiências da política econômica do governo brasileiro e pela falta de capacidade de gerenciamento do capital disponível para investimentos. Mas esse é um quadro que vale para todos os setores da economia. Na pecuária, o desafio é melhorar a aplicação das tecnologias que permitem ganhos de produtividade mais altos. Uma tarefa do próprio pecuarista, mas claro que o governo federal pode e deve ter ações que incentivem o setor, como as medidas anunciadas no Plano Agrícola e Pecuário 2014/2015.

RURAL – Qual a tarefa mais importante sinalizada pelo Plano Pecuário?
NOVIS – Uma das principais metas do produtor é aumentar a lotação das pastagens. Pelo plano, com o incentivo da integração lavoura-pecuária, por exemplo, o Brasil sairia da média de uma unidade animal
(UA) por hectare, que equivale a um animal de 450 quilos de peso, para 1,4 UA. Acredito que poderíamos chegar a duas UA, por hectare. 

RURAL – A ACNB tem condições de encarar esse desafio?
NOVIS – Se tomada toda a pecuária nacional, diria que é um imenso trabalho. Hoje, o número de associados é de cerca de 500 produtores de gado puro e de 1,6 mil produtores de gado comercial. É por esse caminho que podemos ganhar musculatura. No País, 80% do rebanho de corte, que corresponde a 120 milhões de animais, tem sangue zebu. É nesse contingente de animais que precisamos melhorar a performance do nelore. Para isso, no campo da pesquisa, o programa de qualidade de carne Nelore Natural e o Circuito Boi Verde vêm nos dando subsídios para melhorar a raça. Esses trabalhos impactam diretamente a carne que vai para o consumidor.

RURAL – Como o programa Nelore Natural tem ajudado na tarefa de propagar as qualidades da raça?
NOVIS – O programa Nelore Natural, que era uma marca de carne da ACNB, desde 2001, foi transformadinheiro rural/119-outubro-2014 21 do em selo de qualidade, há alguns anos, e hoje é utilizado 
pelo grupo Marfrig. Foi uma mudança de conceito. Os produtores cujos bois são abatidos nos frigoríficos Marfrig e que atendem às exigências para utilizar o selo recebem uma bonificação de 2% no preço da arroba. Isso melhora a rentabilidade do negócio. O abate tem ficado em torno de 370 mil animais nos últimos dois anos e a expectativa para 2014 é encostar em 400 mil animais. 

RURAL – E quanto ao Circuito Boi Verde?
NOVIS – O circuito sempre foi um meio para identificarmos as regiões do País que produzem os melhores animais. Os abates técnicos têm mostrado esse mapa. Em 2013, foram realizadas sete etapas em seis Estados, e uma etapa internacional, no Paraguai. Participaram do abate 6,6 mil animais e, neste ano, devemos fechar com 7,2 mil. Cada um desses abates se constitui um aprendizado sobre as qualidades e o que precisa ser melhorado na carcaça do nelore.

RURAL – Em que medida esses trabalhos da ACNB têm garantido a projeção da raça no mercado?
NOVIS – Os programas têm contribuído para divulgar a raça, especialmente em relação à qualidade da carne. No caso do Nelore Natural, duas unidades da Marfrig que não participavam ainda do programa passaram a abater nelore para o selo de qualidade, no mês passado. Isso significa maior abrangência do programa e oportunidades ao produtor. Precisamos abrir mais espaço ao produtor, com mais frigoríficos para receberem animais de qualidade certificada. Hoje, sete unidades da Marfrig estão aparelhadas para o Nelore Natural.

RURAL – Mas ainda é difícil ver alguma marca de carne com o selo Nelore Natural…
NOVIS – Esse é o desafio: expandir o uso do selo. Com a atual quantidade de animais abatidos, o selo serve para fortalecer um nicho de mercado, assim como ocorre para todas as marcas de carne no País. Boi ainda é commodity e tem preço tabelado. Por isso precisamos de exposição nas prateleiras de supermercados e nos restaurantes.

RURAL – Como criar essa demanda? 
NOVIS – O ideal seria contar com a parceria de outras processadoras de carne bovina, além da Marfrig. Mas, infelizmente, há dificuldades de toda ordem nessa tarefa e a ACNB, que vive basicamente da mensalidade de seus associados e da oficialização de leilões da raça, não dispõe de recursos para investir pesado em marketing. 

RURAL – A angus, que conta com a adesão de algumas marcas de carne e também possui um selo da associação de criadores, poderia servir de exemplo?
NOVIS – Não há como comparar as duas raças. Os Estados Unidos e a Inglaterra injetaram muitos recursos para fazer do angus uma raça mundialmente aceita. Houve um investimento brutal de muitas décadas no marketing global da carne de angus e isso ajudou os criadores de outros países, como o Brasil, por exemplo. O trabalho foi bem-feito e temos de aprender com eles. O nelore, criado com tecnologia, pode ter carne tão macia quanto a de angus. Isso é fato. Além disso, sua carne é magra, como o mundo está buscando.
 

RURAL – Incomoda os criadores o fato de o angus competir fortemente com o nelore, ficando, inclusive, em primeiro  lugar na quantidade de sêmen vendido em 2013?
NOVIS – Incomoda, à medida que tira uma parte de nosso mercado de sêmen. O nelore vendeu 2,8 milhões de doses de sêmen e o angus, 3,4 milhões. Por outro lado, o uso dessa genética angus no cruzamento industrial sempre vai ser em cima da fêmea nelore. É fato que, com o cruzamento das duas raças, o produtor busca ganhos de produtividade em carne e precocidade de abate. Essa carne vai para os programas de qualidade, nos quais o produtor tem a possibilidade de ganhar mais. Só que nessa história não há como o angus ficar sem o nelore, enquanto o nelorre pode ficar sem o angus, pensando na escala de produção que o Brasil necessita. O nelore tende a melhorar cada vez mais e em grande volume.

RURAL – Mas isso leva tempo. Não é uma demonstração de fragilidade que o nelore necessite de cruzamentos para ser uma raça provedora de carne de qualidade?
NOVIS – Vivemos um momento interessantíssimo para a raça nelore, de um avanço muito grande no manejo, na genética e na nutrição. Em relação à genética, é clara a preocupação de nossos pecuaristas em empregar nas vacas um sêmen de melhor qualidade, quando o material genético é do próprio nelore. O uso de sêmen de animais avaliados é um caminho sem volta. Hoje, o produtor de carne da raça só quer saber de touros inscritos em programas de melhoramento genético. Até pouco tempo atrás não era bem assim.

RURAL – Nessa busca pela melhor genética ainda há uma distância grande entre o tipo de animal avaliado nas exposições agropecuárias e aquele que está no pasto. Quando esses dois tipos vão se encontrar numa mesma avaliação?
NOVIS – Esse é um assunto de extrema importância para a ACNB. A pista de julgamento precisa ser um referencial para o produtor de carne. Nela, busca-se um animal de exceção, que transmita aos seus descendentes um bom rendimento de carcaça. Por isso, não se pode ficar elegendo o melhor animal na pista, que não vai necessariamento ser o melhor no pasto. Se isso acontece, está errado. Mas o movimento precisa ser dos dois lados. O animal criado no pasto também tem de se aproximar do padrão daquele que vai para a pista, através do engajamento do produtor em programas de melhoramento genético. 

RURAL – Criadores como Jonas Barcelos e José Carlos Prata Cunha, entre outros, importaram genética da Índia, nos últimos anos. Mesmo com o patrimônio construído pelo nelore brasileiro, ainda há necessidade de animais daquele país?
NOVIS – Sim. O gado nelore no Brasil está baseado em algumas linhagens da Índia, que foram introduzidas na década de 1960. Dificilmente se encontram animais registrados que não tenham essa genética. Isso fez com que o grau de consanguinidade do rebanho aumentasse muito ao longo dos anos. A importação vai levar a um refrescamento do sangue da raça, mantendo as duas maiores
qualidades do nelore, a rusticidade e a fertilidade. É com essas duas qualidades que podemos tudo.
     

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