Edição nº 169 15.05 Ver ediçõs anteriores

Entrevista

A próxima revolução é transformar o produtor rural em empresário

A próxima revolução é transformar o produtor rural em empresário

Fábio Moitinho
Edição 01/07/2016 - nº 138

Desde que o presidente Michel Temer assumiu a presidência interina do Brasil, o setor do agronegócio voltou a discutir uma questão que vinha sendo relegada a segundo plano diante da crise política: como o produtor pode produzir mais, com menos, e ser eficiente na gestão de sua fazenda? A safra 2016/2017, que começa a ser semeada em dois meses, pode marcar o início de um severo processo de ajustes no financiamento da produção. O governo Temer se comprometeu a manter os R$ 202,88 bilhões orçados por Dilma Rousseff, para a safra que começou no dia 1º de julho (leia mais na pág. 30), mas, para as próximas temporadas, o dinheiro pode minguar. “O cenário não é mais o mesmo”, afirma Gustavo Diniz Junqueira, 43 anos, presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB). “Acho que chegamos à exaustão dos recursos governamentais para o agronegócio”. Desde 2014 no comando da entidade quase centenária, Junqueira é considerado uma das forças jovens do setor e pretende quebrar paradigmas. Para ele, o agronegócio deve se preocupar menos com o volume de recursos e concentrar esforços na gestão das propriedades. “Essa, sim, será a próxima revolução do agronegócio brasileiro.”

DINHEIRO RURAL – O presidente Temer e o ministro da Agricultura Blairo Maggi anunciaram a realocação de recursos do Plano Safra original, a pedido de setores do agronegócio. A medida é positiva?
GUSTAVO DINIZ JUNQUEIRA  –
  De certa forma, ela é positiva porque o governo ouviu os pedidos do setor e fez ajustes. Por exemplo, com a mudança do programa de financiamento de máquinas agrícolas, o Moderfrota, que foi de R$ 5 bilhões para R$ 7,5 bilhões. Era o que esse segmento almejava. No entanto, o que me preocupa é que muito do que foi prometido poderá não ser cumprido. Mesmo considerando a agricultura como um negócio que tem dado o maior retorno para o capital investido nos últimos 13 anos, o País trabalhou como se o dinheiro não fosse acabar. Claro, isso estava alinhado com os próprios anseios do setor. Sempre pressionamos o governo federal por mais recursos para o agronegócio. Mas essa época acabou, o cenário não é mais o mesmo. Acho que chegamos à exaustão dos recursos governamentais para o agronegócio. Agora, precisamos administrar muito bem o que podemos dispor, e isso vai acontecer com a melhoria da gestão das fazendas.

DINHEIRO RURAL – Como o sr. vê a atuação dos bancos privados no financiamento do agronegócio?
JUNQUEIRA –
Para eles entrarem com mais força, é preciso criar o ambiente favorável para que sejam competitivos. Isso começa com a segurança jurídica do próprio negócio. Quanto maior o risco, maior será o custo do capital. E isso força o governo a gastar mais, porque a taxa Selic tem de ser mais alta, hoje fixada em 14,25%, o que leva à necessidade dos subsídios. O segundo ponto é trabalhar para a melhoria das demonstrações financeiras dos empreendimentos rurais, facilitando a análise de crédito. Além, é claro, de limitar as vantagens do Banco do Brasil, que possui acesso a uma poupança rural, com recursos vindos do próprio crédito rural. Com isso, pode-se pressionar os bancos privados.

RURAL – É possível pressionar os bancos privados?
JUNQUEIRA –
Uma reestruturação desse porte não vai acontecer com boa vontade. Demanda um trabalho microeconômico pesado, mas que poderá influenciar o setor de forma positiva. Por exemplo, financiamentos via Cédula de Produto Rural (CPR), via Letra de Crédito do Agronegócio (LCA), podem levar à entrada de produtores no mercado de capitais, abrindo capital na bolsa.


TRANSPARÊNCIA: o produtor deve gerir sua produção com eficiência e conseguir empréstimos privados mais baratos

RURAL – Quais as forças que farão isso acontecer?
JUNQUEIRA –
Está na mão de várias, porque é preciso uma ação em conjunto. Acho que cabe aos ministérios da Fazenda e da Agricultura. O Banco Central também deve estar envolvido e, em alguns casos, até o próprio Congresso Nacional. É um trabalho longo e difícil, de desregulamentação do mercado como ele funciona hoje, para que o sistema financeiro seja cada vez mais eficiente. O fato é que, mais do que angariar fundos para o Plano Safra, o Ministério da Agricultura tem de atuar como um agente de planejamento de longo prazo.

RURAL – Que papel deve ser o Ministério da Agricultura?
JUNQUEIRA –
Nos últimos anos, a função do Ministério da Agricultura parecia ser prioritariamente aumentar os recursos de financiamento. Não precisamos de um ministro para isso, porque o Banco do Brasil tem esse papel há 40 anos. Acho que o comandante da pasta, hoje na figura do senador Blairo Maggi, deve olhar quais são as oportunidades de mercado que podem se abrir ao produtor rural.

RURAL – A China, por exemplo, é um caso para se repensar e traçar planos mais robustos?
JUNQUEIRA –
Com certeza. O governo precisa definir melhor as pautas com esse país. A China é o maior parceiro comercial do Brasil e podemos nos firmar como o provedor da segurança alimentar dos chineses. Precisamos fazer a seguinte conta: quantas pessoas têm de ser alimentadas lá e quantos bilhões de dólares a China está disposta a pagar por isso. Feita a conta, o governo brasileiro pode elaborar um cardápio com o melhor resultado de investimento de dólar por proteína animal para o país asiático. Mas isso com contrato firmado de, por exemplo, 20 anos. Só então podemos entrar numa negociação, abrindo concessões de um lado e do outro. No final, vamos ter um projeto de longo prazo, que vai nos beneficiar muito. Mas o País não pode aumentar a sua produção em 40%, sem contrapartida, para que o mundo possa ter comida. Tenho escutado isso em várias palestras, baseadas no relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês). Discordo disso, completamente.

RURAL – Qual o perigo dessa ideia?
JUNQUEIRA –
O perigo está em depreciarmos nossa produção no campo. O agronegócio precisa se planejar baseado em geração de riqueza e não no atendimento a uma demanda mundial por alimentos, indiscriminadamente. Pergunto: “o que acontece se você sair com a mentalidade de que é melhor vender o que você produz e não produzir para aquilo que há demanda?” A tendência é gerar uma superprodução, em algum momento. Nessa hora, haverá uma queda de preços que leva à quebra do sistema. Temos de fazer o contrário. O produtor precisa produzir para ganhar dinheiro. O Brasil não pode simplesmente fazer um trabalho para o mundo, sem que seja recompensado por isso.

RURAL – Como o sr. vê os avanços do agronegócio?
JUNQUEIRA –
Passamos por revolução essencialmente tecnológica. Nos últimos 40 anos, foi a decisão pela inovação que levou o agronegócio a uma situação tão diferenciada, produzindo cada vez mais. Deixamos de copiar a agricultura em outras partes do mundo e inventamos o nosso próprio jeito de cultivar. Isso é o que chamamos hoje de agricultura tropical. A inovação levou a nossa produção a ganhos de mercado consideráveis, que representaram no ano passado 22% do Produto Interno Bruto do País, com R$ 1,27 trilhão. Produzíamos uma safra por ano, agora são duas e logo podem ser três para muitas culturas. Houve também uma grande melhoria de máquinas agrícolas, herbicidas e fertilizantes e o início da integração da lavoura com a pecuária.


Mascate: o ministro da Agricultura tem viajado para países como a China para vender os alimentos brasileiros

RURAL – Qual a próxima revolução no campo, do porte dessa das últimas décadas?
JUNQUEIRA –
Apesar de já contarmos com inúmeras agroindústrias no País, em que há uma gestão mais evoluída sob o ponto de vista financeiro, de análise de risco e de planejamento na produção, essas empresas ainda representam uma minoria no setor. Portanto, ainda vai levar muito tempo para que mais empresas engrossem esse grupo. Esse é, de fato, o atual grande gargalo. Creio que nem demos ainda o pontapé inicial, mas a próxima revolução do setor é transformar o produtor rural em empresário rural. Vai ser nesse momento que o País poderá ter maior domínio do comércio internacional. Essa sim será a próxima revolução do agronegócio brasileiro.

RURAL – E como começar essa revolução?
JUNQUEIRA –
O caminho mais eficaz é atrelar o desenvolvimento da gestão da propriedade com a oferta de linhas de financiamento. O governo federal poderia garantir mais recursos, quanto melhor fosse a gestão do produtor rural. É através do canal de financiamento que é possível traçar estratégias para influenciar que os melhores no setor do agronegócio sejam cada vez mais privilegiados.

RURAL – Mas o sr. mesmo disse que daqui para a frente os recursos ao produtor serão mais escassos.
JUNQUEIRA –
Mas não serão necessários tantos recursos, com a melhoria da gestão. O custo de operações de empréstimo e do próprio seguro rural, por exemplo, tende a se tornar mais barato, caso o produtor tenha a sua operação mapeada. Quando o produtor passa a contratar as melhores equipes para trabalhar em sua atividade, ele passa a aplicar as melhores tecnologias em sua produção. Quando há uma gestão financeira mais eficiente, ela leva o negócio a ter um menor risco na sua operação. Com um sistema operacional menos arriscado, menor é a chance de esse produtor sofrer por um problema climático, por exemplo. Bem paramentado, o produtor pode antever o negócio e se adaptar. Quer dizer, sua operação passa a ser muito mais conhecida e isso tem grande influência na contratação de um seguro rural, por exemplo. É mais fácil para uma instituição financeira liberar recursos para um negócio que ela sabe bem como realmente está.

 

Política Externa

FPA e Itamaraty vão intensificar ações de promoção da imagem do agronegócio

Céleres mantém previsão de produção em 2,6 milhões de toneladas

Algodão

Algodão

Céleres mantém previsão de produção em 2,6 milhões de toneladas


Brasil aciona OMC contra barreiras impostas pela Indonésia

Carne de frango

Brasil aciona OMC contra barreiras impostas pela Indonésia

ANP define critérios para metas compulsórias de redução de emissões

RenovaBio

ANP define critérios para metas compulsórias de redução de emissões

USDA

EUA vendem 75,1 mil fardos de algodão da safra 2018/19 na semana

IBGE

Aquisição de leite sobe 3,0% no 1º trimestre ante 1º tri de 2018

Ovos de galinha

Produção cresce 6,0% no 1º trimestre ante 1º tri de 2018

Órgãos reguladores pretendem flexibilizar regras para fintech

Nova Economia

Nova Economia

Órgãos reguladores pretendem flexibilizar regras para fintech

Recursos

Contratação de crédito rural até maio chega a R$ 158,7 bilhões

Caminhoneiros

Petrobras vai rever periodicidade de reajustes de diesel

Pequenos

Relatório de crédito extra eleva em R$ 80 milhões recursos ao Pronaf

Bayer anuncia investimento de US$ 5,64 bilhões para desenvolvimento de herbicidas

Internacional

Internacional

Bayer anuncia investimento de US$ 5,64 bilhões para desenvolvimento de herbicidas

JBS ampliará em 50% capacidade produtiva da unidade de Ituiutaba

Agroindústria

JBS ampliará em 50% capacidade produtiva da unidade de Ituiutaba

Santos Brasil

Empresa ultrapassa marca de 100 mil contêineres em terminal em maio

Impasse

Mercado não acredita em capacidade de defesa da Bayer, diz executivo do Berenberg

CNA, Abiec e Abrafrigo assinam memorando de compra de carnes no Bioma Amazônia

Regras

Regras

CNA, Abiec e Abrafrigo assinam memorando de compra de carnes no Bioma Amazônia


Importância do agronegócio brasileiro marca abertura da Digital Agro 2019

Paraná

Importância do agronegócio brasileiro marca abertura da Digital Agro 2019

Girolando fará promoção para novos associados

Megaleite 2019

Girolando fará promoção para novos associados

Inovações na Digital Agro ampliam produção

Digital Agro apresenta:

Digital Agro apresenta:

Inovações na Digital Agro ampliam produção

Tour DSM de Confinamento comprova rentabilidade deste sistema em 2018

Tortuga apresenta:

Tortuga apresenta:

Tour DSM de Confinamento comprova rentabilidade deste sistema em 2018

As 11 etapas da 4ª edição do Tour DSM registram 2,5% de retorno ao mês de rentabilidade no confinamento e confirma decisão pelo investimento em tecnologia

“Jovens brasileiros, preparai-vos!”

Luiz Tejon Megido

“Jovens brasileiros, preparai-vos!”

A importância da alimentação balanceada

Prevenção de doenças

A importância da alimentação balanceada

A tecnologia salva o produtor e o ambiente

Leandro Aranha

A tecnologia salva o produtor e o ambiente

X

Copyright © 2019 - Editora Três
Todos os direitos reservados.

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicaçõs Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.