Edição nº 170 20.06 Ver ediçõs anteriores

Entrevista

Quem fuma não deixará de fumar porque o tabaco não é produzido no Brasil

Quem fuma não deixará de fumar porque o tabaco não é produzido no Brasil

Iro Schünke, presidente do Sinditabaco, fala sobre os desafios do setor, a queda de consumo e a guerra contra a indústria

Marcela Caetano
Edição 01/10/2016 - nº 141

OBrasil é o maior exportador global de tabaco e o segundo maior produtor, atrás apenas da China. No entanto, a posição de destaque está longe de garantir tranquilidade ao setor. Além de lidar com a opinião pública, que condena o consumo de cigarros, atualmente de 6,5 trilhões de unidades anuais no mundo, produtores e indústria têm como desafio serem ouvidos pelos signatários da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (CQCT), tratado que entrou em vigor no ano de 2005 para reduzir o consumo do produto. A pouco mais de um mês de mais uma reunião dos países membros, da qual devem participar 192 nações, o setor produtivo nacional ainda não sabe qual será a posição do governo brasileiro no encontro. “A cadeia produtiva do tabaco, atingida pelas medidas determinadas na Convenção-Quadro, não participa de suas decisões”, diz Iro Schünke, presidente do Sindicato Interestadual da Indústria do Tabaco (Sinditabaco). “Isso não é justo.” Há dez anos, Schünke está à frente da entidade que representa 15 empresas gaúchas que industrializam a produção do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. No ano passado, o País exportou 517 mil toneladas de tabaco, por US$ 2,2 bilhões.

DINHEIRO RURAL – O que a cadeia do tabaco está fazendo para se posicionar em relação às críticas da sociedade ao consumo de cigarro e à produção da matéria-prima?
IRO SCHÜNKE –
O que temos feito é mostrar a importância social e econômica da cadeia produtiva do tabaco. São 154 mil produtores, 615 mil pessoas envolvidas e R$ 5 bilhões em receita para o agricultor, que tem no tabaco a sua principal fonte de renda. Nosso desafio é buscar um equilíbrio entre as questões de saúde e as do produtor que depende dessa atividade. Hoje, a balança pende muito para o lado da saúde. Por exemplo, o Brasil tem adotado muito antes de outros países as medidas propostas pelos membros da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (CQCT), tratado assinado por 192 países. Mesmo que, produtores importantes, como o Zimbábue e os Estados Unidos, por exemplo, sequer tenham ratificado a convenção em vigor desde 2005.

RURAL – Qual é a expectativa do setor para a 7ª Conferência das Partes (COP7) da Convenção-Quadro, que acontece em novembro, na Índia?
SCHÜNKE –
Ainda não sabemos qual será a posição do governo brasileiro no evento e isso nos preocupa. A cadeia produtiva do tabaco, atingida pelas medidas determinadas na Convenção-Quadro, não está nem perto de suas decisões. A convenção é antidemocrática. No Brasil, a Comissão Nacional para Implementação da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (Conicq) não permite o nosso acesso às reuniões, nem à conferência das partes. Formada por 15 ministérios e coordenada pelo Ministério da Saúde, ela discute as demandas da Comissão-Quadro e toma posições a partir delas. Em outros países até existe contato, mas não no Brasil.

RURAL – Do ponto de vista de sustentação da cadeia, o que tem mantido ela de pé?
SCHÜNKE –
O ministro Maggi disse algo interessante quando nos reunimos. Ele lembrou que a sociedade urbana, que adora os impostos pagos pela indústria do tabaco, é a mesma que condena o cigarro. É uma contradição. A cadeia contribui com US$ 12,8 bilhões anuais em tributos. E poderia ser muito mais se o setor não perdesse R$ 6 bilhões anuais por causa do contrabando de cigarros, principalmente de produtos de péssima qualidade vindos do Paraguai.


Lucros: a área média das propriedades que trabalham com fumo é de 15 hectares. O tabaco ocupa 17% e, na última safra, respondeu por 51,4% da renda do produtor

RURAL – O senhor diz que a indústria de tabaco gera receita de US$ 12 bilhões. Mas o SUS gasta R$ 23 bilhões por ano em decorrência de doenças causadas pelo cigarro…
SCHÜNKE –
É preciso ter equilíbrio ao contrapor saúde e força econômica. Se o Brasil deixar de produzir tabaco, os seus concorrentes o farão, como EUA ou os africanos Zimbábue, Malaui, Moçambique e Tanzânia. A lógica do consumo versus demanda não deixará de existir. Quem fuma não deixará de fumar porque o tabaco não é produzido no Brasil. O que se conseguirá nesse caso não será um benefício à saúde dos brasileiros, mas um prejuízo social imensurável, com a transferência da produção, da renda e dos empregos que o tabaco gera para milhares de pessoas e um caos econômico para os quase 600 municípios que têm no tabaco a mola propulsora de seu desenvolvimento.

RURAL –  Mas, segundo o Ministério da Saúde, o cigarro mata 200 mil pessoas por ano. Como defender a indústria?
SCHÜNKE –
O cigarro é um produto legal, regulamentado e voltado para maiores de 18 anos no Brasil. A informação sobre os riscos associados ao consumo de tabaco é amplamente divulgada, inclusive nas embalagens do produto.

RURAL – Como o Sinditabaco avalia a Resolução 4.483 do Banco Central, que restringe o financiamento a produtores rurais que não comprovarem a redução da dependência financeira do plantio de tabaco?
SCHÜNKE –
A resolução trata de financiamentos do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) para todas as culturas que o produtor mantém e não para a produção de tabaco. Ela permite investimento em melhorias na propriedade. Então, restringir esse recurso é um tiro no pé. Ao penalizar o produtor por produzir tabaco, o governo deixa de estimular a diversificação da produção. Neste ano, por pressão da cadeia produtiva, o governo chegou a informar que pretendia revogar a medida. Mas ela apenas foi postergada para a safra 2017/2018 e o setor se mobilizará contra outra vez.

RURAL – É possível fazer a reconversão nas áreas de tabaco, como vem sendo sugerida pelo governo?
SCHÜNKE –
É um delírio, algo totalmente infundado e sem nexo. Um hectare de tabaco proporciona uma renda equivalente a cerca de oito hectares de milho. Quem vai pagar essa conta? O produtor já diversifica a sua produção. A área média das propriedades que trabalham com fumo é de 15 hectares. O tabaco ocupa apenas 17% dessa área e, na última safra, respondeu por 51,4% da renda do produtor. A pergunta é: como substituir algo que representa metade da receita de uma propriedade?

RURAL – Mas há uma queda no consumo de cigarro. Essa diversificação não é prudente para o produtor ?
SCHÜNKE –
Houve uma pequena queda no consumo mundial nos anos de 2014 e 2015, de aproxmadamente 3% no período. Foi o resultado  de campanhas antitabagistas, como a restrição ao fumo em locais públicos fechados, que entrou em vigor em 2014, e também à entrada de outros produtos no mercado, como o cigarro eletrônico, por exemplo. É provável que o consumo caia ainda mais, por algum tempo, mas não se sabe até que ponto. Hoje, o consumo mundial é de cerca de 6,5 trilhões de cigarros por ano e isso representa uma produção de até 5,5 milhões de toneladas de tabaco.


Queda: as vendas de cigarro nos anos de 2014 e 2015 caíram entre 1% e 3%

RURAL – A redução na área de produção brasileira se deve a esta queda de consumo?
SCHÜNKE –
O Brasil reduziu a área em 9,4%, para 315 mil hectares, por problemas de competitividade. No ano passado exportamos 75% da produção, mas a média dos anos anteriores era de cerca 85%. A taxa cambial é fundamental para sermos competitivos no preço, principalmente com os países africanos, que são os nossos maiores concorrentes.

RURAL – Que respostas o setor têm dado à sociedade, em relação ao uso correto de práticas agronômicas?
SCHÜNKE –
Um estudo feito pela Esalq/USP, a partir de dados do IBGE e do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg), mostra que o tabaco é a cultura que utiliza a menor quantidade de agroquímicos por área, entre todos os cultivos comerciais no País. É de 1,1 quilo de ingrediente ativo por hectare, enquanto o tomate, por exemplo, chega a utilizar 36 quilos por hectare.

RURAL – Mas há críticas em relação à saúde do produtor, que pode ser comprometida pelo manejo da planta.
SCHÜNKE – 
Neste caso estamos falando da doença da folha verde do tabaco, provocada pelo manejo inadequado. Se uma folha estiver molhada e o produtor  estiver com a pele suada, na qual os poros ficam abertos, pode haver uma migração da nicotina da folha para a pele no momento da colheita. Por isso, buscamos orientação de especialistas para o desenvolvimento de uma vestimenta que permite uma colheita segura, com eficácia de 98%. Todos os produtores recebem a roupa a preço de custo das empresas de processamento de tabaco, que é de cerca de R$ 35 por unidade. Hoje, o produtor só não se protege se não quiser.

RURAL – Qual a previsão para a atual safra 2016/2017?
SCHÜNKE –
A área cultivada deve se manter estável em 300 mil hectares. A produtividade ainda dependerá do clima. Em 2015/2016, o Brasil produziu 540 mil toneladas, ante 692 mil toneladas no ciclo anterior, em razão do El Niño que reduziu a produtividade das lavouras. Mas já chegamos cultivar 700 mil toneladas, equivalentes a 15% da produção mundial.

Tereza Cristina admite preocupação com embargos por queimadas na Amazônia

Mapa

Mapa

Tereza Cristina admite preocupação com embargos por queimadas na Amazônia

Fogo

Acre decreta estado de emergência por causa dos inúmeros incêndios nas florestas

Mídia externa

Macron, na França, se opõe a acordo Mercosul-UE por questão ambiental

Energia

Produtor de Santa Catarina deve fazer recadastramento para garantir tarifa rural

Pecuaristas fundam associação GPB, para maior representatividade

Entidade

Entidade

Pecuaristas fundam associação GPB, para maior representatividade

Glifosato

Bayer pede anulação de veredicto que concede indenização de US$ 2 bi

BNDES prorroga prazo para renegociação de dívida do produtor e inclui fornecedor

Crédito

Crédito

BNDES prorroga prazo para renegociação de dívida do produtor e inclui fornecedor

A inovação da moeda no campo

Fintechs

Fintechs

A inovação da moeda no campo

As fintechs chegam ao agronegócio e revolucionam a forma com que trabalhadores rurais lidam com o dinheiro


Programa  abre inscrições para jovens líderes do agronegócio brasileiro

NUFFIELD 2020

Programa abre inscrições para jovens líderes do agronegócio brasileiro

Cresce a procura por profissionais mais sêniores no agronegócio

Michael Page

Cresce a procura por profissionais mais sêniores no agronegócio

Consultoria aponta alta de 40% por executivos capazes de liderar grandes projetos


Só na DINHEIRO RURAL


Só na DINHEIRO RURAL

Inovações na Digital Agro ampliam produção

Digital Agro apresenta:

Digital Agro apresenta:

Inovações na Digital Agro ampliam produção



Grandes Feiras do Agronegócio


Grandes Feiras do Agronegócio


Compliance no agronegócio: a importância de incentivar boas práticas

Vitor Pedrozo

Compliance no agronegócio: a importância de incentivar boas práticas

“O agronegócio e a conservação ambiental  precisam andar juntos”

Marcelo Brito

“O agronegócio e a conservação ambiental precisam andar juntos”

“Otimismos à parte, não dá para ignorar os obstáculos do nosso setor”

X

Copyright © 2019 - Editora Três
Todos os direitos reservados.

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicaçõs Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.