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Entrevista

Os olhos do mundo estão voltados para o Brasil

Os olhos do mundo estão voltados para o Brasil

Dono da São Martinho diz que argumentos dos ambientalistas que apontam a ameaça de uma mono cultura canavieira no País são uma falácia

LÍVIA ANDRADE
Edição 01/06/2007 - nº 32

João Guilherme Ometto

Quem vê a simplicidade de João Guilherme Sabino Ometto não imagina o poder que ele concentra em suas mãos. Dono da Usina São Martinho, uma das maiores do País, ele também coordena o Comitê de Agronegócio na Federação das Indústrias de São Paulo. Dias atrás, quando recebeu na sua empresa o presidente do Panamá, Martin Torrijos, Ometto falou com exclusividade à DINHEIRO RURAL. Ele comentou as perspectivas de crescimento do setor e criticou os ambientalistas que atacam a suposta “monocultura” da cana. “A expansão da cultura é coordenada e limitada, uma vez que depende da implantação de indústrias”, disse ele.

DINHEIRO RURAL – A São Martinho é hoje a empresa do setor com a ação mais valorizada, quando se mede a relação preço/tonelada. A abertura de capital é um exemplo a ser seguido por outras empresas?

JOÃO GUILHERME OMETTO – Eu não tenho condição de fazer esta recomendação. Cada caso é um caso, mas para quem pode fazer é um caminho importante. O Brasil está se internacionalizando. Temos produtos que são vendidos lá fora e 60% do nosso açúcar é exportado, estamos inseridos nesse mundo do combustível renovável e o álcool se sobrepõe como um combustível de sucesso, tanto no Brasil como no cenário internacional. Então, tudo isso é um conjunto de coisas que nos remete para um IPO, uma internacionalização da companhia.

RURAL – Vocês esperavam esta valorização em tempo recorde das ações da São Martinho?

OMETTO – Nós sempre somos otimistas. Toda a carreira, a história dessa companhia foi de grande otimismo, confiança no nosso Brasil, confiança na cana como uma cultura forte, nós sempre investimos em tecnologia… Eu acho que o lançamento foi um reconhecimento, uma resposta a este trabalho de anos, que nós do grupo estamos fazendo.

“A descoberta dos efeitos do clima, depois do Al Gore, fez do Brasil o celeiro da energia”

RURAL – O mercado de energia brasileiro tem atraído muitos fundos estrangeiros. Como o sr. vê isso?

Ometto – É um reflexo da confiança internacional. A gente nota os países olhando o Brasil como um grande produtor de energia renovável. Isso quer dizer que o olho do mundo do agronegócio está se virando para o Brasil. O fato de os estudiosos e analistas dos fundos focarem no Brasil é uma grande notícia para nós.

RURAL – Falando de Brasil, há espaço para todas essas usinas, estes projetos que estão surgindo?

Ometto – O espaço que se abriu com a descoberta do mundo de como os combustíveis fósseis mexem no clima e agridem a natureza, depois do Al Gore, colocou o Brasil na posição de grande celeiro do mundo e também um celeiro de criações de energia renovável. Então, nós temos campo para isso. Temos campo para tudo, sem mexer em Floresta Amazônica, só mexendo com tecnologia, melhorando a produtividade da cana, dos nossos produtos vegetais. Nós conseguimos com isso ter uma produção grande e colaborar com a melhoria do clima no mundo. A conscientização no mundo sobre energia renovável, sobre os prejuízos que os combustíveis fósseis causam, essa descoberta de que podemos melhorar o clima do planeta, isso cria condições para o Brasil se posicionar no mercado mundial.

RURAL – Mas há uma queixa muito grande sobre falta de profissionais qualificados para o setor sucroalcooleiro. Isso não é um entrave?

Ometto – Olha, quando começou a industrialização do Brasil, nós criamos o Senai para treinamento. Naquela época era muito difícil ter pessoas qualificadas. Hoje, o Brasil está mais equipado, nós temos Senai, nós temos universidades e uma mobilização maior para educação. Acho que isso vai se resolver com o tempo, com a qualificação de pessoas, o treinamento de pessoas. Nós hoje temos muito mais capacidade de resolver este problema do que antes.

RURAL – E a parte de infra-estrutura logística para escoamento?

Ometto – Vamos otimizar a logística. Seja por hidrovias, seja por alcoolduto, melhorando os portos. Quando nós começamos a exportar açúcar, eu lembro que tínhamos uma cota mundial de 2,7 milhões toneladas de açúcar e não tínhamos portos equipados. Hoje, o Brasil vai para quase 20 milhões de toneladas de açúcar exportadas, nós temos vários portos para isso, foi se resolvendo tudo.

Acho que logo vamos nos mobilizar para ter alcoolduto, terminais para álcool, assim como fizemos com o açúcar. Eu sou otimista, acho que isso vai se resolver.

Mas é claro que o Brasil tem que trabalhar mais em logística. Temos que melhorar nossas ferrovias, ter alcoolduto, um bom sistema hidroviário. Costumamos fazer grandes barragens, mas não fazemos eclusas. Um grande mérito do Estado de São Paulo é que, quando foi feita a barragem do rio Tietê, em todas as barragens fizeram eclusas. O que a gente fica assustado é que as grandes barragens deste país não estão sendo feitas com eclusas.

E, depois que as barragens estão prontas, fica muito mais caro fazer as eclusas.

RURAL – As PPPs não seriam uma forma de agilizar este processo?

Ometto – Nós achamos que esta questão das PPPs deveria ser resolvida mais rapidamente, pois estamos adiando a resolução de um problema que é fundamental. Não adianta você produzir barato na porteira, mas chegar no porto, no consumidor final, e estar caro. O Brasil produz barato os produtos porteira adentro, mas ele tem que ser barato lá no consumidor, lá fora. E a logística está ficando muito cara. Ainda mais agora com os pedágios.

RURAL – Há muitos estudiosos que não acreditam que o etanol possa substituir o petróleo, já que os fertilizantes usados na lavoura são de origem fóssil…

Ometto – Primeiramente é o seguinte: é interessante o cultivo da cana, pois nele você tem três grandes fertilizantes: o nitrogênio, o fósforo e o potássio. No caso da cana, ela é uma gramínea e tem uma capacidade muito grande de absorção de matéria orgânica. Quando você faz o álcool, sobra o vinhoto, que é muito rico em potássio.

Isso retorna ao solo. Então, na parte de potássio, nós seríamos independentes. No nitrogênio, ele agrega muita matéria orgânica no solo. Principalmente agora com a colheita mecanizada, a massa de matéria orgânica é muito grande. Temos a entrega ao solo de muita matéria orgânica que alimenta a planta com nitrogênio. Nós teríamos a falta de fósforo. O Brasil tem um problema sério de abastecimento de fertilizantes. Nosso fósforo é mais pobre que o de outros países, mas o Brasil tem que ter uma certa independência em fertilizantes. O caminho é descobrir novas jazidas. Agora, o impacto ambiental é facilmente removido, pois você só extrai do solo, você não queima.

RURAL – O Brasil não está se focando muito no aumento da produção de cana-de-açúcar? O País não ganharia mais exportando a tecnologia de produção em vez do etanol em si?

Ometto – O Brasil é interessante. Nós temos a tecnologia tropical. A cana é uma planta tropical. No mundo, só a encontramos em países de clima tropical. Podemos citar Austrália, África do Sul… O Brasil desponta como um país que tem o centro de tecnologia mais avançado. Na parte industrial, além de termos dominado a tecnologia de produção de álcool e açúcar, temos grandes fábricas de produção de máquinas para isso localizadas em Piracicaba e Sertãozinho. O Brasil tem as duas condições: condição de ser um campeão nessa parte de produção e também de vender a nossa tecnologia para os países tropicais; tanto a tecnologia de produção como a de maquinários.

RURAL – Mas o Brasil está preparado para fazer esta transferência?

Ometto – Sempre se vendeu. Agora há pouco, venderam- se moendas para os EUA. Foram vendidos maquinários para a Bolívia, para os países da América Central, para a África, sempre se vendeu. Na época do Pró-álcool, fizeram até projeto de usinas de açúcar e álcool no Irã. O Brasil está há anos vendendo tecnologia para outros países.

RURAL – Ambientalistas estão erguendo a bandeira da monocultura…

Ometto – Não podemos seguir os exemplos dos países que têm uma limitação de área. O Brasil ê muito grande. A cultura da cana nunca vai ser uma cultura de expansão rápida como foi a da soja porque ela é limitada à implantação de uma indústria. A cana não suporta transporte acima de 25 quilômetros. Ela não é como a soja, uma cultura de prazo curto, que tendo logística você implanta em qualquer lugar. É uma expansão mais coordenada e limitada. Por enquanto, a área de cana é 1% do território nacional. Não podemos pensar que, ao se plantar uma área, vamos coibir o desenvolvimento de outra planta. Mesmo porque, no meio da cana, se podem plantar outras culturas. Então, dizer que a cana segura outras culturas é uma falácia.

RURAL – E a questão dos empregos que são tirados pela colheita mecânica… Para onde vão estes cortadores de cana?

Ometto – Por isso que houve uma grande discussão no estado de São Paulo sobre como fazer esta substituição do corte mecânico para o manual. No Estado de São Paulo há um programa para isso, seguindo a legislação estadual, que dita que isso aconteça aos poucos, sem impacto.

“O Torrijos já fala até num alcoolduto para bombear o etanol do Atlântico ao Pacífico”

RURAL – O presidente do Panamá visitou a São Martinho e demonstrou interesse pela tecnologia nacional de produção de álcool…

Ometto – O Panamá é um país tropical e que pode ter uma sinergia grande com o Brasil, pois o Brasil é um País voltado para o Atlântico. Nós temos as cordilheiras dos Andes, que é uma barreira para chegarmos ao Pacífico. E hoje o Pacífico, com o grande avanço das economias asiáticas, a China e o Japão são grandes mercados. O Panamá é a porta de entrada para o Pacífico através do Canal do Panamá e agora eles estão com um projeto de alargar este canal, permitindo que navios de maior porte façam a transferência de carga do Atlântico para o Pacífico. Por outro lado, eles querem incentivar a indústria local. Eles têm regiões onde se planta cana e também há uma indústria açucareira. Mas, pelo volume, eles não têm condições de ter tecnologia, variedades. Isso seria um mercado para nós. Eles também estão fazendo um acordo com os EUA de livre-comércio. Ali, surgem oportunidades para o Brasil. Eles têm um grande interesse pelo álcool, pensam até em um alcoolduto para ligar com o Pacífico. Você chegaria com um navio de álcool no Atlântico e bombearia para chegar ao Pacífico.

RURAL – Isso seria um ótimo negócio para o Brasil, não?

Ometto – Seria uma rota para atingirmos os países asiáticos e a costa oeste dos EUA, a Califórnia, uma das regiões que mais defendem o clima no mundo e que quer aumentar o uso dos combustíveis renováveis.

RURAL – Você é um dos porta-vozes do agronegócio na Fiesp. No momento, qual é a principal reivindicação ?

Ometto – Na última reunião, a discussão foi em torno dos defensivos genéricos. A Kátia Abreu está levantando esta bandeira. Precisamos da liberação deles logo.


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