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Entrevista

A carne brasileira vai se tornar mais competitiva

A carne brasileira vai se tornar mais competitiva

O presidente do frigorífico Minerva, Fernando Galletti de Queiroz, diz que a participação do País no mercado internacional vai aumentar e sua empresa deve crescer sem a ajuda do governo

por Carlos Eduardo Valim
Edição 01/10/2011 - nº 84

O Minerva, terceiro maior frigorífico brasileiro, com faturamento de R$ 3,4 bilhões em 2010, é bem menor que seus rivais, o JBS e o Marfrig, cujas receitas chegam a R$ 55 bilhões e R$ 15,8 bilhões. Mas, ao contrário deles, não recebeu o apoio do BNDES para crescer. No primeiro semestre de 2011, a empresa da família Queiroz foi a única do setor a ter resultado positivo. Agora, ela enfrenta os efeitos de uma recaída da economia mundial. Em entrevista à DINHEIRO RURAL, Fernando Galletti de Queiroz, presidente do Minerva, diz que esse cenário vai levar a um posicionamento privilegiado da carne brasileira, a médio e longo prazo.

DINHEIRO RURAL – Nos últimos anos, houve um fortalecimento global das grandes empresas do País. Com o real valorizado e a crise externa não dando trégua, depender das exportações pode ser prejudicial?

FERNANDO GALLETTI DE QUEIROZ – O Brasil representa cerca de 25% da produção e 20% do comércio mundial de carne bovina. Acreditamos que, juntamente com o restante da América do Sul, o País representa uma plataforma competitiva para a produção de proteína bovina, dada a vasta riqueza natural do continente, com disponibilidade de terras e abundância de água. É inegável que o mundo continuará demandando por carne bovina, principalmente os países emergentes, nos quais as taxas de câmbio também têm se apreciado diante do dólar americano. Fatores climáticos e de ciclo pecuário, que prejudicam os nossos principais competidores, os Estados Unidos e a Austrália, influenciarão significativamente sobre a oferta de carne bovina no mercado. Além disso, a crise europeia tenderá a diminuir os subsídios destinados aos produtores locais.

DINHEIRO RURAL – Essa redução de subsídios pode criar uma dificuldade mundial de produção?

Queiroz – A redução de subsídios deverá reorganizar a produção mundial de carne, podendo favorecer o Brasil, pois temos uma estrutura de custos extremamente favorável, comparada à dos países desenvolvidos. A carne bovina brasileira se tornará ainda mais competitiva.

DINHEIRO RURAL – O País deve ganhar ainda mais participação no mercado global?

Queiroz – Em um primeiro momento, em que existe uma grande oferta de carne bovina dos Estados Unidos, a tendência é de que a participação de mercado brasileira permaneça estável. Mas, no longo prazo, o Brasil deve aumentar a sua participação no comércio mundial.

“Alguns ativos da BR Foods são interessantes. Estamos analisando”

DINHEIRO RURAL – Como evitar que fatos como a barreira sanitária levantada pela Rússia prejudiquem o setor?

Queiroz – O Brasil tem investido muito nos controles fitossanitários e, principalmente, na vacinação contra a febre aftosa. Hoje, exportamos nosso know-how para países vizinhos, como Paraguai, Colômbia e Bolívia. Tem havido uma conscientização maior dos pecuaristas em relação aos controles de seus rebanhos. O Minerva tem propagado iniciativas para a melhoria do rastreamento e da qualidade dos animais que chegam para abate. Além disso, temos uma presença geográfica bastante diversificada e pulverizada, o que mitiga o risco sanitário. Por esse motivo, não figuramos na lista divulgada pelo último embargo russo.

DINHEIRO RURAL – Quais condições levaram o preço do boi gordo a se manter firme nos últimos dois anos?

Queiroz – Após o abate mais acentuado de matrizes, ocorrido nos anos de 2005 e 2006, os produtores iniciaram uma fase de retenção de fêmeas para que os plantéis fossem recompostos e voltassem a produzir mais bezerros. Por isso, o ano passado foi atípico para a oferta de boi gordo, com recorde histórico para o preço da arroba. Além da retenção de matrizes, houve uma seca perversa provocada pelo efeito do La Niña, que degradou as pastagens. Os preços de grãos também foram muito pressionados em virtude de quebras de safra de trigo na Rússia e de milho nos Estados Unidos, impactando os custos dos confinadores de gado. E, por último, em virtude de um aumento expressivo dos custos de produção, aconteceu uma queda no volume de gado confinado, se comparado com 2009.

DINHEIRO RURAL – Esse cenário já começou a se reverter?

Queiroz – Observamos, ao longo do primeiro semestre, uma safra bastante normal, com regime de chuvas bem regular, favorecendo a recomposição das pastagens e a oferta de gado. Além disso, pesquisas de campo mostram que a intenção dos confinadores é oferecer volumes cerca de 20% maiores que no ano passado. A produção de 2011 já está em níveis iguais aos de 2005 e 2006, antes do abate de matrizes. Portanto, esperamos que o segundo semestre deste ano seja o início da inflexão da oferta de boi gordo no mercado, com bons volumes sendo ofertados pelos anos seguintes.

 

DINHEIRO RURAL – Diante disso, pode-se esperar que os preços da arroba de boi gordo caiam a curto prazo?

Queiroz – Se tomarmos como balizador o mercado futuro, podemos observar que os preços não devem sofrer grandes alterações até o fim deste ano. Continuamos em um cenário desafiador do lado da oferta de boi gordo.

DINHEIRO RURAL – Por estar num ciclo da pecuária diferente dos outros grandes produtores, o Brasil tem melhor condição para captar a demanda mundial?

Queiroz – Os Estados Unidos, o maior produtor mundial de carne bovina, está em uma fase de abate intenso de matrizes, o que deverá impactar a oferta pelos anos seguintes. O rebanho americano já é o menor dos últimos 50 anos. Além disso, observamos uma migração dos criadores de gado para as culturas de grãos, diminuindo ainda mais a oferta. A Austrália também tem abatido enormes quantidades de fêmeas. O grande problema do território australiano é o processo de desertificação, sendo que a água é um fator limitante para a expansão da produção. Já o Brasil encontra- se justamente em um momento contrário. Começamos a reconstituição do rebanho em 2007 e estamos em um momento favorável para a ampliação da produção.

DINHEIRO RURAL – O País deve ampliar a participação do gado confinado no total do abate para aumentar a produção geral?

Queiroz – O confinamento é muito importante para o suprimento durante a entressafra do boi. Mas a grande característica de competitividade da pecuária brasileira é o custo da criação extensiva. É difícil imaginar que o Brasil se tornará um país com produção essencialmente intensiva, como é o caso de Estados Unidos, Austrália e Europa.

“Os produtores começaram a reter as fêmeas para que os plantéis fossem recompostos”

DINHEIRO RURAL – Ainda há oportunidades de aquisições importantes ou o período de consolidação do setor de proteína, no País, está chegando ao fim?

Queiroz – Como o setor tem passado por problemas de integração das últimas fusões e aquisições, acreditamos que ainda há espaço para futuras consolidações. O próprio acordo da Brasil Foods com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) representa outra grande oportunidade no setor de proteínas.

DINHEIRO RURAL – O Minerva tem interesse nos ativos da BRFoods?

Queiroz – Estamos analisando o assunto. Alguns ativos da BR Foods são interessantes, mas não temos um posicionamento final. Não queremos entrar em abate de frango e suíno, mas podemos comprar áreas de processamento e distribuição. O nosso foco é a carne bovina.

DINHEIRO RURAL – A empresa tem crescido sem tomar grandes empréstimos do BNDES. Quais as vantagens dessa estratégia?

Queiroz – O Minerva tem expandido sua base produtiva para locais onde ele considera ideal para a produção de proteína bovina, que é a América do Sul: neste ano, adquirimos o frigorífico Pul, no Uruguai. Optamos por fazer investimentos em plantas greenfield, ou seja, a partir do zero. Para isso, alavancamos nosso balanço patrimonial para sustentar os investimentos. À medida que esses vão maturando, a geração operacional de caixa aumenta, desalavancando a companhia.

DINHEIRO RURAL – Qual o potencial de se explorar a expansão da alimentação fora de casa, no Brasil?

Queiroz – O potencial é enorme. O food service no Brasil é ainda incipiente e carece de grandes fornecedores que entreguem volumes com boa qualidade e que obedeçam aos mais rígidos padrões sanitários. Há oportunidades nas pequenas e grandes redes de restaurantes e nas cadeias de fast-food. Por meio da nossa unidade de processados, a Minerva Dawn Farms – joint venture com a irlandesa Dawn Farms -, estamos preparados para aproveitar esse aumento no consumo de produtos desenvolvidos especialmente para cada cliente.

 

 

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