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Entrevista

Hávia uma herança maldita na pecuária

Hávia uma herança maldita na pecuária

Líder ruralista, a senadora Kátia Abreu diz que o sistema de rastreabilidade estava falido e ataca os grandes frigoríficos

ADRIANA NICACIO
Edição 01/04/2008 - nº 42

Líder ruralista, a senadora diz que o sistema de rastreabilidade estava falido e ataca os grandes frigoríficosA senadora Kátia Abreu (DEM/TO) é uma das intransigentes defensoras do agronegócio, sem abrir mão da vaidade. Feminina ao extremo, ela encara o MST, briga com autoridades em defesa dos produtores e tem coragem de remar contra a corrente, quando é o caso. No momento em que vários ruralistas atacam o ministro Reinhold Stephanes, em função da crise das exportações de carne para a Europa, ela diz que o ministro não tem culpa. “Boa parte da responsabilidade é dos frigoríficos, que não premiaram a carne rastreada”, diz ela. A seguir, sua entrevista.

DINHEIRO RURAL – A sra. já fez as pazes com o ministro Reinhold Stephanes, depois da crise da carne?

Kátia Abreu – Eu não briguei com o ministro. Eu sou contra a lista que foi enviada para a União Européia. Eu achava que ele não deveria ter enviado a lista, deveria ter aguardado mais. Ficou um remendo e não uma solução.

RURAL – Foi um erro dele?

Kátia – De jeito nenhum. O que ele recebeu foi uma herança maldita, agora a lista ninguém podia aceitar, é ridículo. Mas, na questão do embargo da União Européia, culpado é o governo federal que não tem planejamento de defesa agropecuária. Culpados são os frigoríficos, que são praticantes de cartel e não moveram uma palha, não tiveram um pingo de ética comercial, no sentido de preservar a rastreabilidade e premiar a rastreabilidade. Eles ganharam toda a lucratividade e não dividiram com a cadeia. Essa é uma prática nociva. Eu sei que todo empresário tem que ganhar dinheiro, mas não pode ser a qualquer custo. A ética dos frigoríficos exportadores está muito comprometida.

RURAL – Os Estados exportadores também são responsáveis?

Kátia – Eles têm uma parcela de culpa. Os menos culpados somos nós, produtores. Nós vacinamos, pagamos do nosso próprio bolso a nossa parte. Toda a burocracia e a questão documental ficaram por nossa conta. O custo ficou por nossa conta. No Uruguai, na Argentina e na Austrália, o governo banca tudo. Não é brinco não, é chip dentro da orelha. Na União Européia, o produtor reza nove meses para a vaca parir gêmeos. Por quê? Por cabeça, ele ganha 267 euros e 0,87 euros por quilo vivo. Ele vai rastrear ou não? Claro. É subsídio. Assim é a perfeição. Temos um país com 850 milhões de hectares e temos um rebanho de 190 milhões de cabeças. Não podemos praticar uma modalidade como a deles. Só temos o ônus. Não há benefícios financeiros. E isso vale para o meio ambiente.

“Não briguei com o Stephanes. Só acho que ele não deveria mandar a lista para a Europa”

RURAL – Como o meio ambiente entra nesse raciocínio?

Kátia – Enquanto não houver ganho econômico na preservação ambiental, não adianta ter sonhos ou ilusões, porque o mundo funciona pela economia. Enquanto uma árvore deitada valer mais do que uma em pé, não ficará árvore em pé. Se observarmos a Amazônia, 24% estão nas mãos dos produtores rurais e 76% nas mãos da União. Quem será que tem mais culpa na devastação da Amazônia? Quem tem as terras públicas do Incra, quem controla as reservas indígenas e a quem pertence as unidades de preservação. Mas a ministra Marina Silva prefere proteger essa corja e dizer que nós somos os culpados pela devastação da Amazônia. A madeira saiu por onde, por qual estrada? Quem dá a guia para a madeira andar? É ela. Essa madeira não saiu voando. Cadê os fiscais? Então é muita graça, ela, que é responsável por dois terços da Amazônia, vir nos culpar.

RURAL – Como a sra. encara a questão do escoamento?

Kátia – De todos os problemas do campo, a logística é o mais grave. O Centro-Oeste está fadado ao fracasso se não resolver a logística. Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins e oeste da Bahia, sul do Maranhão, sul do Pará e sul do Piauí, idem. Há pontos importantíssimos a serem mudados. Um deles é obrigar que os projetos de hidrelétricas também tenham a construção de eclusas.

RURAL – Por quê?

Kátia – Porque o transporte de hidrovias é a opção mais barata para a produção agrícola. O custo do modal é um terço menor do que o do transporte rodoviário. Mas a cada hidrelétrica que se constrói sem eclusas, essa opção é vedada. Em Rondônia, por exemplo, se na construção das hidrelétricas do rio Madeira fosse prevista a eclusa, teríamos quatro hidrovias. Mas não há. Eles estão matando a possibilidade de quatro hidrovias. Vão fazer a eclusa de Tucuruí, mas só por causa do ferro-gusa, para escoar a produção. Eles não estão pensando na produção dos outros Estados.

Líder ruralista, a senadora diz que o sistema de rastreabilidade estava falido e ataca os grandes frigoríficos

RURAL – Não é muito dramático considerar que a região está fadada ao fracasso? Não há ferrovias na região?

Kátia – Há ferrovias. Mas por que não ter também a hidrovia, que é mais barato? É o transporte mais democrático que tem. A ferrovia é licitada e cobra frete. Não tem marco regulatório no País, portanto estão cobrando só um pouquinho menos do que as rodovias. Se nós conseguíssemos resolver o problema da logística, de defensivos agrícolas, nós estaríamos conseguindo lucrar . Mas estamos trabalhando no limite. Qualquer coisinha que acontece, hoje, só dá para pagar a conta.

RURAL – Como está a renda do produtor?

Kátia – A renda do produtor é preço mais custo. O que podemos fazer com o preço? Nada, isso são commodities, preço internacional. Ninguém pode fazer nada. Cabe a cada país mexer no custo. E o custo é logística, defensivos, fertilizantes. Ou melhoramos isso ou não teremos renda.

“A ministra Marina Silva defende uma corja e culpa o agronegócio pelo desmatamento”

RURAL – E qual é a situação?

Kátia – Um horror. A pecuária dá o seguinte: se o fazendeiro não levar em consideração o preço da terra, o custo da terra, a desvalorização do maquinário, o custo empata com a renda. Isso se não considerarmos nada do ponto de vista empresarial, que tem que considerar. Então, a pecuária está um desastre. Na soja, o custo e o preço também estão empatando, se não contarmos o valor da terra. Se fizermos um cálculo do ponto de vista empresarial, estamos negativos em quase tudo.

RURAL – A sra. citou os defensivos como componente do custo, mas a questão dos genéricos já não estava resolvida?

Kátia – Inexplicavelmente, eu luto por esses defensivos genéricos há sete anos. Os genéricos humanos tiveram um avanço extraordinário. Não passa de 120 dias para registrar um medicamento humano, com 35% de redução de preço. Com os defensivos genéricos nós não conseguimos. Leva de três a quatro anos e mais de US$ 1 milhão para registrar. E estamos falando dos genéricos, com o mesmo princípio ativo que já foi testado.

RURAL – Não há um decreto separando o trâmite do defensivo novo de um genérico?

Kátia – O decreto é de dezembro de 2005. Nós conseguimos um avanço junto à Casa Civil por mudar esse trâmite. Com o decreto da Casa Civil, nós fizemos uma fila para defensivos genéricos e uma fila para defensivos novos. Então, o trâmite deveria ser completamente diferente. Mas, entre a teoria e a prática, está demorando demais. Tem alguma coisa atrás disso. Agricultura e Meio Ambiente até que melhoraram bem. Mas a Anvisa ainda está muito lenta. É mercado de US$ 5,5 bilhões ao ano, na mão de meia dúzia de multinacionais. Aí se tem uma idéia do problema.

RURAL – O produto genérico seria um terço mais barato?

Kátia – Se forem comparados com medicamentos humanos, há especialistas que calculam em 50%. Os fertilizantes são o mesmo absurdo. Um mercado de US$ 10,5 bilhões por ano, nas mãos de três multinacionais, que são donas das matérias- primas. Outras fabricam. Mas as matérias-primas são dos três: Bunge, Yara e da antiga Cargill. Para ser justa, a matéria-prima do fertilizante aumentou muito, mas nada que justifique a exorbitância no Brasil. Em todos os países, o preço aumentou. Mas no Brasil foi 20% a mais. Temos produtos com aumento de mais de 150%. Outra coisa ruim é a legislação de lavra no Brasil.

RURAL – Qual é o problema?

Kátia – Se uma pessoa pedir a autorização para pesquisar uma lavra, pode ficar eternamente pesquisando essa lavra. Mais de 90% da rocha fosfática no Brasil, por exemplo, é da Bunge. Um pouco ela produz, outro pouco ela sente em cima. Então, a legislação de lavra tem que ser mais rigorosa para tomar dessas pessoas. Não cumpriu, não desenvolveu, passa para a frente.

RURAL – O que pode ser feito para baratear fertilizantes?

Kátia – Nós, produtores, vamos nos organizar e montar grupos concentrados em Mato Grosso, Paraná, Goiás e Tocantins com Bahia, para produzirmos por meio de cooperativas pelo menos 30% dos fertilizantes. Nós podemos importar a matéria-prima direto da China. O que não podemos é ficar 100% na mão do produto nacional. Estamos montando seis núcleos de produção. Essa idéia é nossa, vamos começar a executar. O ministro Stephanes está interessado e arrumando até recursos com o BNDES. Vamos reduzir esse oligopólio produzindo uma parte.

RURAL – E como seria essa cooperativa?

Kátia – Vamos fazer uma indústria pelo oeste da Bahia, Sul do Maranhão, outra de cá, em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul e outra no Paraná, que pegaria toda a região de São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul. Os recursos do BNDES serão para criar cooperativas estruturadas. Nós vamos pegar os componentes importados e fazer o produto.

RURAL – As tarifas antidumping não são impeditivas?

Kátia – Conseguimos por ora derrubar o antidumping. Isso foi um grande avanço. Existia o antidumping contra o extrato de amônia da Rússia e da Ucrânia. Isso favorecia a Bunge. Nos últimos cinco anos, para esse produto vir de lá e entrar no Brasil, tinha uma sobretaxa além da TEC de 38%. O ministro da Agricultura foi importantíssimo para isso. Ele derrubou o antidumping.

RURAL – Por que a sra. defende tanto a regulamentação do direito de propriedade, embora algumas pessoas acreditem que esse tema já esteja consolidado no País?

Kátia – Há diversas formas de se ferir o direito de propriedade. Não dá para resolver um problema indígena, a questão quilombola e problemas na faixa de fronteira ferindo o direito de propriedade. Eu quero que se resolva tudo isso, mas sem ferir o direito de propriedade. Hoje, se um grupo se juntar dizendo que é quilombola e que a terra dele fica no Rio de Janeiro, ele tem o direito de abrir um processo na Fundação Palmares, que avalia se é a favor e manda para o Incra, e o Incra desapropria a terra se o agricultor quiser. Não dá para resolver os problemas sociais ferindo o direito de propriedade. Eu gosto de mandar para todo mundo que eu conheço o capítulo 12, do livro de Alan Greenspan, A Era da turbulência.

RURAL – Que diz…

Kátia – Que o instrumento mais poderoso que ele conhece para desenvolver os países é o respeito ao direito de propriedade. É um bom argumento, não?


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