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Entrevista

O mundo precisa do Brasil para comer

O mundo precisa do Brasil para comer


Edição 01/08/2007 - nº 34

Parlamento europeu pede embargo à carne brasileira

e Pratini de Moraes diz que tudo não passa de protecionismo

Marcus Vinicius Pratini de Moraes

Ele gosta de um bom churrasco, mas há quatro anos faz bem mais do que isso: defende a carne brasileira, como profissão, principalmente no Exterior. O gaúcho Marcus Vinicius Pratini de Moraes ficou quase três anos do outro lado do balcão como ministro da Agricultura e conhece os problemas que enfrenta.

Como presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), diz que os ataques à pecuária brasileira acontecem porque o País é muito competitivo e, para ele, não há o que temer: “Nosso produto é seguro”, diz. Leia a seguir sua entrevista à DINHEIRO RURAL.

DINHEIRO RURAL – Mas, afinal, por que a carne brasileira tem sofrido tantos ataques no Exterior?

MARCUS VINICIUS PRATINI DE MORAES – O discurso é sempre de um mercado com liberdade de comércio. Mas na prática a realidade é outra. Certa vez, conversando com um dos comissários da União Européia, perguntei a ele por que nossa carne era taxada em 176%, se automóveis de luxo entravam no Brasil pagando “apenas” 35%. A resposta dele foi a seguinte: “É que vocês são muito competitivos.” Então é melhor parar com o discurso da liberdade de comércio.

DR – A imprensa irlandesa tem se encarregado de fazer o papel de algoz da carne brasileira, com seguidas reportagens contrárias à pecuária nacional. Isso afeta nossa imagem na Europa?

PRATINI – Na realidade, aconteceu que um veículo de comunicação daquele país enviou um jornalista em missão extra-oficial ao Brasil. Digo extra-oficial porque ninguém soube que ele viria para cá com a intenção de fazer reportagens. Ele visitou pequenas propriedades pelo interior do Brasil, entrevistou um produtor que nem mesmo o Ministério da Agricultura sabe quem é, passou por frigoríficos regionais que nem de longe estão no nível de nossos exportadores e afirmou ser aquela a realidade da pecuária brasileira. Houve uma reação da própria associação dos jornalistas daquele país, contrária a essas acusações e à forma como a matéria foi conduzida. Temos dado informações com muita freqüência, principalmente por meio de nossas embaixadas em Dublin e Londres. Pode ficar alguma dúvida num primeiro momento, mas nada sério. Vejo esses episódios como parte de um processo de reação contrário à eficiência e à competitividade brasileira.

“É preciso que se diga que essa questão da febre aftosa é um requisito absurdo”

DR – Essa postura da Irlanda pode ser uma forma de tentar “desqualificar” o trabalho da União Européia?

PRATINI – Pode, sim. A União Européia tem mandado sistematicamente missões para o Brasil. Só nos últimos dois anos foram oito. Claro que essas visitas levantam problemas pontuais, o que é normal. Mas nada parecido com o que a Irlanda tenta mostrar. Se nós mandarmos os nossos veterinários para a Europa, vamos levantar até mais problemas, com mais restrições. Os frigoríficos lá são mais antigos, o sistema de confinamento propicia muitos problemas que não temos aqui. A postura crítica e agressiva dos irlandeses não tem nenhuma consistência técnica. Talvez alguém esteja perdendo dinheiro.

DR – Mas é complicado para o Brasil cumprir todas as exigências… PRATINI – Eu acredito que o requisito mais importante seja encerrar o episódio sanitário (febre aftosa) em Mato Grosso do Sul, que já vai completar dois anos e, acredito, até setembro tudo deve estar resolvido. O segundo ponto é a rastreabilidade, que não é apenas um requisito da União Européia, mas é cada vez mais um requisito do mercado. O consumidor quer saber a origem da carne que está comprando. Portanto, o crescimento das exportações brasileiras para os mercados mais “sofisticados” dependerá da completa implantação da rastreabilidade. Somos um país continental e por causa disso acontecem situações específicas. Ao lado de uma propriedade que faz todo o processo de rastreabilidade, com uma excelente gestão e tecnologia de ponta, pode existir um pequeno produtor que não faz nada disso. É muito difícil uniformizar esse rebanho.

DR – E a aftosa, continua sendo um gargalo difícil?

PRATINI – É preciso que se diga que essa questão da febre aftosa é um requisito totalmente absurdo. Isso porque o Brasil só exporta carne maturada e desossada.

Não há o menor risco de transmissão desse vírus, nessas condições. Ainda mais num processo que chamamos de maturação sanitária, que elimina qualquer vírus ou agente estranho. E como ela é desossada, não há risco de transmissão por meio de ossos, como a coluna, por exemplo. O novo nome do protecionismo é “sanidade animal”.

DR – Mas mesmo com todos esses problemas, as vendas vão bem… PRATINI – O crescimento tem sido substancial. Nosso crescimento no mercado internacional é contínuo. No início do segundo semestre deve haver uma redução no ritmo de crescimento, ou até mesmo uma queda, o que é normal por causa da época do ano. Até junho estávamos com um crescimento de 33% sobre o primeiro semestre do ano passado.

Até o fim do ano, esse percentual deve ser um pouco menor, em torno de 25%.

Parlamento europeu pede embargo à carne brasileira

e Pratini de Moraes diz que tudo não passa de protecionismo

“Não tenho dúvidas de que a geografia do comércio mundial está mudando”

DR – Em que ponto a abertura de capital dessas empresas como o Friboi e Marfrig influenciam esse mercado?

PRATINI – A pecuária brasileira é a mais avançada do mundo em criação extensiva, com alimentação a pasto e complementação mineral. Tanto na pecuária a campo, quanto nos frigoríficos, nós alcançamos uma capacidade gerencial que o mundo inteiro só pode observar. E quando os estrangeiros vêm aqui ficam impressionados tanto com a qualidade genética de nosso rebanho como com a qualidade de nossos frigoríficos. E, à medida que a moeda brasileira se valorizou, os ativos no estrangeiro ficaram mais baratos. As empresas estão aproveitando o preço dos ativos em reais e a disponibilidade de capital no mercado internacional. Tanto para financiamentos a longo prazo quanto para a realização de lançamentos de capitais (IPO), portanto, o crescimento acontece aqui e fora. Considerando as últimas aquisições do Grupo JBS, o Brasil possuiu 25 plantas no Exterior.

DR – Mas os fundos de investimentos também estão enxergando esse mercado agora…

PRATINI – É verdade. Existe uma mudança no mercado que é a participação de fundos de investimentos nas aberturas de capital de empresas de agronegócio. No momento do IPO há a participação de fundos de investimento do mundo inteiro. Desde Singapura e Xangai a Londres e Nova York. Foi assim com o Friboi e será com qualquer outra empresa desse porte na área agrícola. As empresas estão programando a abertura de seus capitais e as grandes aplicações estão substituindo os investimentos diretos. Esse é o futuro do agronegócio. Em vez de um investidor individual comprar uma propriedade, são grupos brasileiros abrindo seu capital, colocando ações no mercado, com a participação de capital estrangeiro.

DR – De que forma isso muda o comércio?

PRATINI – Em vez de o exportador brasileiro continuar batendo na porta, eles pularam o muro e agora estão dentro de mercados antes fechados para a carne brasileira, como Estados Unidos, Taiwan, Japão e Coréia do Sul. Agora eles estão lá dentro e competindo. Do Uruguai eles exportam para os Estados Unidos e da Austrália para o Japão. O fato é que alguns dos nossos mais importantes frigoríficos já estão dentro desse mercado e vão aprender os caminhos para exportar daqui. Atingiremos todos os mercados do mundo e isso provoca algumas reações fortes, como no caso da Irlanda.

DR – Dentro dos destinos das carnes brasileiras, quem se destaca?

PRATINI – Os mercados emergentes, sem dúvida. A tendência é que esses mercados tanto para carne quanto para outras matérias-primas agrícolas constituam o maior destino para as exportações brasileiras. Não tenho dúvidas de que a geografia comercial do mundo está mudando. Antigamente quando se fazia um projeto o foco era nos Estados Unidos, no Japão e na Europa. Hoje isso ainda acontece, porém, para nichos de mercado. O foco está na China, na Índia, na Rússia, no Sudeste Asiático, no Leste Europeu, na África e na América Latina, onde a renda está subindo. E uma das primeiras coisas que a pessoa faz com aumento de renda é levar um bife para casa. E nós estamos aqui para fornecer essa carne.

DR – Ainda assim, a Europa, que importa 600 mil toneladas, não é um bom mercado?

PRATINI – Eles têm aumentado as importações. O Brasil fornece aproximadamente 70% de toda a carne importada pela Europa. Mas, mesmo assim, é um volume muito pequeno em relação ao mercado europeu, que é um pouco superior a oito milhões de toneladas/ano. Todo o carnaval protecionista que eles fazem é sobre um mercado de 5%, do qual o Brasil tem menos de 4%. É um excesso que no fundo mede o protecionismo europeu. A Europa é uma fortaleza protecionista. Podem dizer o que quiserem, mas na prática é isso. E assim como os Estados Unidos, eles protegem sua agricultura e pecuária.

DR – Para reverter esse quadro não seria necessário melhorar a qualidade de nossa carne?

PRATINI – A carne brasileira é de excelente qualidade. Os frigoríficos que exportam nossos produtos têm um controle sanitário tão bom quanto os australianos, por exemplo. O que a Abiec procura fazer é mostrar para o mundo qual é a realidade da nossa pecuária, nossa indústria frigorífica e nossa logística. Estamos vendendo carne em grandes volumes há pouco tempo, coisa de sete anos. Na década de 1980 importávamos carne de Chernobyl. Havia até a discussão de que poderíamos estar comprando carne contaminada com radiação.

O Brasil é a última fronteira agrícola do mundo e o mundo precisa do Brasil para comer. E quem não compra, vai precisar comprar. Temos que manter a paciência e sermos agressivos para conquistar nossos espaços, como eles fizeram no passado.

DR – A China, pode ser um bom parceiro?

PRATINI – A China será um grande mercado. Ela ainda não compra nossa carne diretamente. A produção deles é muito grande, em torno de 7,5 milhões de toneladas/ano. O Brasil produz nove milhões de toneladas. Só que lá eles têm um bilhão de habitantes. O problema é que a China está entre os países que não aceitam o zoneamento na questão da febre aftosa. Já foi assinado um acordo sanitário entre os dois países, mas até agora não foi posto em prática.

DR – Mas não chega a ser irônico o fato de a China ter exportado carne local, como se fosse brasileira, em mais um episódio de pirataria? PRATINI – Um amigo nosso nos disse que a carne brasileira virou a Luis Vuitton da carne mundial e esse episódio só confirma isso. O volume detectado pela União Européia era inexpressivo. Foi gente que aproveitou as embalagens brasileiras e colocou carne local.

O governo brasileiro já modificou alguns documentos, colocando linhas d’água para evitar esse tipo de fraude. Mas qualquer teste de DNA pode mostrar que não se trata de carne brasileira.

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