Edição nº 172 03.09 Ver ediçõs anteriores

Entrevista

Pagamos caro pelas deficiências do governo

Pagamos caro pelas deficiências do governo

À frente da Sociedade Rural Brasileira, empresário quer unir forças na defesa do agronegócio

LÍVIA ANDRADE
Edição 01/03/2008 - nº 41

Cesário Ramalho da Silva

Pecuarista com fazenda em Mato Grosso do Sul, Cesário Ramalho da Silva está à frente da Sociedade Rural Brasileira desde o ano passado. Ele, que ocupava o cargo de vice-presidente, assumiu o comando quando João de Almeida Sampaio Filho foi convocado para a Secretaria de Agricultura de São Paulo. No mês passado, o fazendeiro foi eleito e tomou posse para um mandato de três anos. Sua bandeira é juntar forças. Por isso aceitou também o cargo de diretor de agropecuária do Departamento de Agronegócio da Fiesp.

DINHEIRO RURAL – Como vislumbra o agronegócio em 2008?

Cesário Ramalho da Silva – Estou extremamente preocupado. As commodities vinham num crescente lento. Vínhamos crescendo com o consumo da Ásia. De repente, chegou o etanol e mudou o comportamento de tudo. Houve uma recuperação forte demais, o que, de certa forma, me preocupa. Eu tenho dito para o agricultor ter muita precaução, pois os problemas da agricultura não foram resolvidos. Todos estão latentes. A agricultura paga muito caro pelas deficiências do governo que se perpetuam.

RURAL – Quais são estas deficiências?

Ramalho da Silva – Sistema de transporte: rodoviário, ferroviário e hidroviário. O País não tem investimentos, as estradas são precárias, os fretes exagerados. Um caminhão que sai de Rondonópolis anda dois mil quilômetros para chegar ao Porto de Paranaguá. Se a estrada fosse boa, levaria 20 horas. Com a estrada ruim leva 40 horas. As empresas precisam dobrar o número de caminhões, pois eles não conseguem transitar em várias estradas. Não há interligação com ferrovia e nós temos ferrovia que estão a 300 quilômetros de Rondonópolis e o governo não pôs um trilho. E isso não é o governo atual, são os governos, mas recai fortemente sobre o atual. O fator de crescimento é fato. Se no início do governo Lula havia 130 caminhões, hoje eu tenho 150. O País vai bater os recordes de produção, mas não temos transporte. Temos dificuldades imensas nos portos. Os navios chegam a pagar até US$ 100 mil por dia de demurrage pela demora no atracamento. Há companhias fazendo barcaças para levar soja a três quilômetros da costa e fazer este transbordo. Este ano, vamos ver repetir os mesmos problemas das safras passadas: filas de caminhões e mais caminhões. Tudo isso gera o custo Brasil. Custa 10% talvez, é um imposto que você não vê pagar, mas ele está encarecido pelos prêmios de Chicago que não recebemos, está encarecido pelo frete. Também temos a questão da transgenia pouca resolvida. Temos um Paraná assustadoramente radical. Outra questão grave é o câmbio. Pegamos um câmbio a R$ 4 e estamos com um câmbio de R$ 1,7 e ainda temos a perspectiva de o País virar investment grade, porque temos várias empresas que têm esta classificação. Podemos perder mais um pouco na valorização do real

RURAL – E a questão da dívida rural?

Ramalho da Silva – Tudo foi prorrogado por cinco anos, com o Roberto Rodrigues ainda ministro. Isso significa pagar 20% ao ano, mas não sobra da agricultura nem isso. Essa questão da dívida, como bem diz o ministro Stephanes, é uma questão técnica. É impossível pagar a dívida como ela está porque é fruto de dois anos de seca absoluta em que a colheita foi a metade da prevista. Não é por imcompetência dos produtores. O Brasil tem a melhor tecnologia de agricultura tropical do mundo. Temos uma produtividade excelente, não há gestão desordenada. Num universo de cinco milhões de produtores no Brasil, pode ter mil maus gestores, mas não a agricultura brasileira

“O ministro Guedes Pinto entrou no governo para fazer seguro rural e não conseguiu”

RURAL – Outro calcanhar-de-aquiles é o seguro rural, não?

Ramalho da Silva – É a falta dele. O seguro ainda está caro, porque tem pouco volume. Nós temos que abaixar o custo. Temos que mapear o País melhor para que as seguradoras possam trabalhar. O fundo de catástrofe é um passo bastante significativo, pois viabiliza a chegada de grupos internacionais.

RURAL – No ano passado, a subvenção governamental ao seguro aumentou…

Ramalho da Silva – No ano passado, o governo destinou R$ 100 milhões, dos quais foram contratados R$ 60,9 milhões. Este ano elevou para R$ 200 milhões, mas precisa ter um envolvimento maior. O seguro rural precisava ter sido trabalhado há mais tempo. O Roberto Rodrigues entrou no governo para fazer seguro rural e não conseguiu. Não há sensibilidade da parte do governo para a necessidade do seguro rural. Eu vi um discurso inflamado sobre a questão do seguro rural do ministro Luiz Carlos Guedes Pinto, que sucedeu o Roberto Rodrigues. Se tivéssemos seguro rural, não teríamos o problema de dívidas. O governo federal dá 50% de subsídio pelo prêmio. O governo de São Paulo, em pequenas propriedades, subsidia mais uma parte. Mas o seguro rural é complexo. É necessário redesenhar o Brasil em regiões agrícolas, porque o agricultor que planta soja num local recomendado pela Embrapa tem um seguro que custa duas sacas de soja por hectare. Mas o individuo que planta soja num local sujeito a altas variações pluviométricas, sem possibilidade de escoamento, vai ter um custo mais alto. As seguradoras estão inseguras, pois trabalham com dados frágeis do Ministério da Agricultura.

RURAL – Mas o seguro é um gasto a mais para o produtor?

Ramalho da Silva – Não tem jeito, o agricultor vai ter mais um custo na produção. Vai ter que destinar algumas sacas para pagar o seguro. A agricultura empresarial tem que compartilhar a dívida, mas num volume pequeno, pois os agricultores nos EUA têm subsídio total. O ministro Stephanes está envolvido. Estão para chegar ao Congresso as regras do fundo de catástrofe, porque as resseguradoras internacionais querem que tenha isso, é uma das regras de seguro.

RURAL – A crise norte-americana pode atrapalhar o tom de otimismo do agronegócio em 2008?

Ramalho da Silva – Pode afetar sim. Atrás do produtor tem um milhão de coisas. Ele precisa de insumos, da agroindústria, da distribuição, do varejo. Não adianta só ser um ótimo agricultor na fazenda. Ele depende de Chicago que é o mercado formulador de preços. O produto brasileiro não é mais formado na bolsa de cereais de São Paulo, é em Chicago. Lá tem o especulador e os fundos que entram e saem de uma forma brutal. Podemos ser prejudicados, sim. Se houver uma crise, vamos ter uma redução natural de estoques. Isso passa por uma eventual redução de consumo e redução de estoques. Para que a China vai estocar, se há a possibilidade de queda nos preços? Os grandes players estão recuando nas suas compras. Então, o agricultor tem que ser prudente, atuar nos mercados futuros que têm preços bons e saber administrar o dinheiro que ganhar, renegociar os passivos passados, não ficar sem caixa.

RURAL – Com todo este cenário, ainda dá para dizer que 2008 será o ano da recuperação de renda do produtor?

Ramalho da Silva – Ele recupera renda, só que a renda está comprometida com os passivos que ele tem que saldar. Então esse dinheiro não vai ficar sobrando. Ele precisa ser muito cauteloso com seus investimentos.

RURAL – Como o sr. recebeu a divulgação do desmatamento na Amazônia em função do avanço do agronegócio?

Ramalho da Silva – A Rural tem uma preocupação imensa. Por isso se associou a todo agronegócio e fundou o Instituto Ares, Instituto do Agronegócio Responsável, para trabalhar a questão de meio ambiente, trabalho escravo, reservas legais e formar uma voz única na defesa ambiental do agronégocio como um todo. Na questão do desmatamento, o governo precisa ser mais fiscalizador. Tem que munir seus funcionários de estruturas para que possam trabalhar. Nós produtores precisamos sentar mais com o governo e cobrar uma ação integrada, porque não temos nenhum interesse nisso. Tanto é que participamos moratória da soja. As indústrias não compram mais soja das áreas derrubadas a partir de 2006.

“O País vai bater novos recordes de produção, mas não temos transportes”

RURAL – Com este novo Sisbov, a questão do rastreamento vai se resolver?

Ramalho da Silva – Eu estou bastante esperançoso de que isso comece a acontecer. Falta diálogo entre a cadeia e isso faz com que o Sisbov esteja há seis anos para ser feito. Mas o secretário da SDA – Secretaria de Defesa Agropecuária do Ministério, o Inácio Kroetz, esteve aqui e mostrou muita determinação. As primeiras atitudes tomadas por ele no governo foram excelentes. Ele passou o Sisbov da Secretaria de Cooperativismo do Ministério para a SDA. Isso é fundamental, pois rastreabilidade e certificação andam junto com a sanidade. Tudo que eu vou fazer no animal tem relação com a sanidade. Então era um erro estratégico que não ia dar certo nunca, enquanto a rastreabilidade estivesse completamente separada da sanidade. Isso feito decolou, porque a Secretaria de Cooperativismo, onde estava a rastreabilidade, tinha 40 profissionais. Eu próprio, que fui vistoriado pela União Européia em 2004, fiquei estarrecido com o fato de que as pessoas que foram à minha fazenda tenham precisado vir de Brasília junto com os técnicos da União Européia. Não existia técnico local nem estadual para acompanhar a vistoria. Agora todos os veterinários da campanha da defesa da aftosa também estão no sistema de rastreabilidade.

RURAL – Quais os objetivos da Rural hoje?

Ramalho da Silva – São os mesmos do dia em que ela nasceu em 1919, só que as coisas evoluíram. A proposta continua sendo de defesa do produtor rural. Em tudo que é ligado ao produtor rural, a Rural se envolvia como entidade nacional. Quando a Rural nasceu, não existiam os sindicatos nem as cooperativas. Ela foi a grande interlocutora do setor até década de 60. Temos várias atas antigas e, por incrível que pareça, as demandas são muito semelhantes às de hoje. Tínhamos problemas nos portos em 1920, 1930, problemas de câmbio.

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