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Entrevista

Se a Embrapa for privatizada, o Brasil perde

Se a Embrapa for privatizada, o Brasil perde

O presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, Pedro Arraes, diz que a instituição não visa o lucro, mas que recursos privados seriam muito bem-vindos

Cristiano Zaia, de Brasília
Edição 01/06/2012 - nº 92

Ao mesmo tempo que se entusiasma com novos flancos de atuação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), como o estudo de novas técnicas geoespaciais ou o vasto potencial para pesquisas em cana-de-açúcar e fertilizantes, o engenheiro agrônomo Pedro Arraes, presidente da estatal há quase quatro anos, defende fervorosamente que a empresa continue 100% pública. “O nosso objetivo não é o lucro imediato”, afirma Arraes. Mas ele não desconsidera a importância dos recursos privados no aumento da autonomia da empresa. “Como empresa pública, é lógico que temos de arrecadar, isso nos dá flexibilidade”, afirma em entrevista à DINHEIRO RURAL .

DINHEIRO RURAL – O orçamento da Embrapa é suficiente para as suas pesquisas?

PEDRO ARRAES – Estamos com problemas no orçamento, por conta do contingenciamento de verbas do governo, que cortou R$ 140 milhões em emendas parlamentares da nossa previsão de R$ 2 bilhões. Mas acabamos de receber uma liberação de recursos, que deve resolver até o meio do ano. A Embrapa teve um orçamento bastante ampliado nos últimos três anos. Mas, para pesquisa, sempre há carência de recursos.

RURAL – Há recursos suficientes para investir em negócios que tragam mais receita para a empresa?

ARRAES – Fizemos em abril uma reformulação da Secretaria de Negócios. Obviamente que nosso maior negócio está na pesquisa. Hoje, temos projetos com a Vale, Petrobras, Bunge e pequenas queijeiras do Nordeste. Nosso negócio é muito mais amplo que o da Petrobras, por exemplo. Mas também há o papel da Embrapa como empresa pública: temos uma participação fundamental em tecnologias de qualidade; em não deixar o Brasil alheio a pesquisas de ponta no Exterior; e em criar diversidade na indústria do agronegócio. A concentração que existe em algumas áreas do agronegócio não é boa para o Brasil, e temos um envolvimento fundamental do fortalecimento da empresa nacional.

A contenção de verbas, pelo governo, tirou da pesquisa R$ 140 milhões em 2012

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RURAL – Quanto do orçamento da Embrapa é destinado a pesquisas?

ARRAES – Cerca de 70% do nosso orçamento é para pagamento de pessoal. Cerca de R$ 100 milhões a R$ 150 milhões são aplicados diretamente em pesquisa. Outros R$ 70/80 milhões vêm de agências do governo para fomento científico como Finep, Faperj, Fapesp e CNPq, bem como de fundos setoriais. Ainda recebemos o pagamento de royalties, que geram em torno de R$ 30 milhões. Esse valor às vezes cai, mas é praticamente estável. Esperamos aumentar a receita com a Secretaria de Negócios. Se chegarmos a 5% do nosso orçamento total, nos próximos três anos, seria bastante interessante. Como empresa pública, é lógico que temos que arrecadar, isso nos dá flexibilidade.

RURAL – A Embrapa tem sido muito criticada por ter perdido participação no mercado de sementes.

ARRAES – Acho que a Embrapa não pode mais ter 70% de participação no mercado de sementes de milho, algodão e soja, como tínhamos há 15 anos, quando não havia mais ninguém além de nós. As empresas que estão aí têm todo um arcabouço genético que foi desenvolvido pela Embrapa. Não podemos nos abster de ser marca de qualidade e inovação. Temos é que fazer Parcerias Público Privada (PPPs). Nosso objetivo não é o lucro imediato. Se for assim, não fazemos inovações estratégicas, um investimento de longo prazo. Então, teremos de trabalhar mais em ativos de inovação em nanotecnologia, biotecnologia, de onde podemos ganhar para ter flexibilidade de orçamento.


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